STRINGER|REUTERS
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Não há guerra justa

É preciso usar os recursos gastos em batalhas inúteis para combater desastres que podem levar a humanidade ao colapso

Kenneth Serbin, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2015 | 16h00

Os Médicos Sem Fronteiras denunciaram o ataque do exército americano contra seu hospital em Kunduz, Afeganistão, no dia 2 de outubro, como crime de guerra.

O presidente Barack Obama pediu desculpas aos MSF, mas não ofereceu nenhuma explicação. Prometeu uma investigação completa e objetiva do incidente. Enquanto isso, o senador John McCain, principal voz no congresso americano envolvendo assuntos militares, descreveu o incidente como uma “terrível tragédia”. Mas ele declarou que classificar o ocorrido como crime de guerra seria “ridículo, um insulto”.

O debate vai provavelmente se concentrar nessas duas posições conflitantes.

O ritual político envolvendo as atrocidades da guerra é estranhamente semelhante ao daquele ligado aos tiroteios em massa nas escolas como aquele que resultou na morte de dez pessoas na Universidade Comunitária de Umpqua, em Oregon, no dia 1.° de outubro: o choque e indignação e a exigência por soluções se dissipam até que outro incidente ocorra. Pouco muda de fato. Seguimos avançando por nossas guerras.

O exército americano costuma usar a expressão “danos colaterais”. Nas palavras do jornalista Glenn Greenwald em sua análise crítica do incidente em Kunduz, a expressão é “lindamente tecnocrática”. Um parente de vítimas da guerra do Iraque a descreveu como “eufemismo aterrador”. George Orwell ficaria impressionado com as habilidades de propaganda das forças armadas.

Kunduz não foi um acidente incomum, e sim parte de um longo histórico de inocentes mortos na guerra, especialmente depois do conceito de “guerra total” criado por Hitler e outros tiranos modernos, cujo exemplo são os ataques com bombas nucleares contra o Japão ordenados pelo presidente Harry Truman. Não se tratava mais de uma disputa entre exércitos, mas entre nações.

Outro exemplo de “acidente” na era atual: durante os combates na ex-Iugoslávia, em 1999, os EUA bombardearam a embaixada da China, sua aliada, matando três funcionários e deixando mais de 20 feridos.

Em toda a retórica e nas análises envolvendo a guerra, as massas de vítimas inocentes são esquecidas. O presidente George W. Bush começou a guerra do Iraque em 2003 com “choque e pavor”. No decorrer dos dez anos seguintes, mais de 100 mil iraquianos morreriam. Muitos mais deixaram o país, que tinha governo e infraestrutura em frangalhos, e com o Estado Islâmico ocupando o vácuo político com mais habilidade que a demonstrada pelos traficantes de drogas que controlam as favelas do Rio de Janeiro.

A questão mais importante não é determinar se Kunduz foi um crime de guerra, e sim lembrar que todas as guerras são um crime contra a humanidade.

O psicanalista brasileiro Luiz Viegas de Carvalho, ex-assistente do cardeal dom Paulo Evaristo Arns, disse certa vez: “A guerra é uma estupidez”.

De fato, trata-se da mais estúpida dentre as atividades humanas. Para lembrar disso, não precisamos ir além do século passado, com duas guerras mundiais e vários holocaustos.

Seja o que for que ocorreu em Kunduz, e independentemente de como o fato for classificado, tratou-se de uma estupidez profunda, completa e inegável. Inocentes foram mortos num hospital.

O debate envolvendo a guerra e a paz precisa transcender a míope microgestão dos incidentes individuais (e as carreiras políticas dos responsáveis, incluindo Obama, ganhador do Nobel da paz, que se tornou um administrador de guerras), concentrando-se em vez disso na necessidade fundamental de pôr fim ao ciclo de violência.

Tal crítica da guerra e do seu desperdício seria ingênua? A guerra não é “inevitável”?

O senador McCain afirmou corretamente que “imaginar que fazemos tudo com precisão cirúrgica é equivocar-se fundamentalmente em relação ao que consiste a guerra”. Trata-se de uma realidade histórica. Não se pode guerrear sem mortes.

Entretanto, a humanidade não pode mais se dar ao luxo de usar a guerra como ferramenta política.

A guerra consome recursos preciosos. Com os Estados Unidos à frente, o mundo gastou trilhões de dólares desde o fim da 2.ª Guerra Mundial com orçamentos de defesa, guerras, e cuidados com as vítimas dessas guerras, frequentemente mutilados para sempre. Infelizmente, com frequência somos mais eficazes em matar do que em atender às necessidades dos veteranos, como visto nos recentes escândalos envolvendo o atendimento inadequado nos hospitais do Departamento de Assuntos dos Veteranos dos Estados Unidos.

Esses recursos precisam ser reconduzidos para combater os potenciais desastres que ameaçam nos levar à beira da extinção. A ameaça de um conflito nuclear permanece bastante real. O aquecimento global e a poluição exigem o máximo de nossa atenção e energia. O mesmo vale para outros perigos globais como a possível catástrofe biológica resultante da disseminação de doenças como o Ebola e de bactérias resistentes a medicamentos, problema que estamos criando e exacerbando por meio da prática aparentemente corriqueira do consumo de antibióticos. Outras mudanças apocalípticas - algumas naturais, outras produzidas por nós - certamente surgirão.

Precisamos canalizar os recursos da guerra para novas tecnologias que serão necessárias para nos ajudar a enfrentar esses desafios.

Mas, acima de tudo, devemos evocar nossos elos humanos comuns na tentativa de virar essa página na política.

/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

KENNETH SERBIN LECIONA HISTÓRIA BRASILEIRA E MUNDIAL NA UNIVERSIDADE DE SAN DIEGO. ESCREVEU DIÁLOGOS NA SOMBRA: BISPOS E MILITARES, TORTURA E JUSTIÇA SOCIAL NA DITADURA (COMPANHIA DAS LETRAS)

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