Não por e-mail

Com o objetivo de aumentar a interação faculdade-estudante, professora proíbe alunos de lhe enviarem mensagens eletrônicas

Carl Straumsheim, SLATE

30 Agosto 2014 | 16h00

Uma professora do Salem College, faculdade feminina da Carolina do Norte, adotou no último semestre uma abordagem de ensino drástica visando a acabar com o excesso de mensagens: por que não proibir as alunas de enviar e-mails?

“Durante anos os e-mails das alunas se transformaram num assalto aos professores, escritos às vezes com informalidade inadequada, outras vezes simplesmente não entendendo que os professores não são obrigados a responder imediatamente”, Spring-Serenity Duvall, professora assistente de comunicações no Salem College, postou num blog. “Numa tentativa de autopreservação, decidi: basta. Firmei minha posição.”

Sua frustração é compartilhada por muitos professores no mundo acadêmico – ou qualquer pessoa com uma conta de e-mail –, de membros da faculdade assediados com perguntas já respondidas em sala de aula a alunos atolados com uma massa de e-mails da universidade. No primeiro semestre deste ano, quando lecionava em Aiken, Carolina do Sul, Duvall estabeleceu regras para e-mails de modo a reduzir as mensagens enviadas pelos alunos para informá-la que chegariam atrasados, faltariam à aula, teriam de sair mais cedo ou outros incontáveis assuntos que poderiam ser tratados diretamente. Em vez de perder tempo em aula explicando às alunas um organograma cada vez mais complicado sobre quando poderiam, ou não, enviar-lhe uma mensagem eletrônica, a professora decidiu solucionar o problema pela raiz: nada de e-mails – salvo para solicitar uma reunião direta.

“Sofro com os programas de aula cada vez mais longos e detalhados, em que você precisa dar conta de tudo, como qualquer professor. Estava trabalhando exatamente na parte envolvendo a política de e-mails porque, em todas as minhas classes, o recebimento de e-mails aumentara enormemente”, disse Duvall. “Na minha frustração, o que percebi é que, na verdade, estava tentando dizer às alunas que não me enviassem mais e-mails”.

O objetivo da política não era tornar a professora menos acessível às alunas do seu curso de estudos de mídia e gênero. Não tinha nada a ver com “uma perspectiva antiquada com relação à nova mídia”. A finalidade era dupla: ensinar as alunas a serem mais autoconfiantes, forçando-as a ler atentamente as tarefas e o programa de aulas, liberando tempo para conversas na sala de aula e durante as horas de atendimento.

E-mail – Você deve usar o e-mail apenas como instrumento para marcar uma reunião particular comigo, desde que o horário previsto para essas reuniões não entre em conflito com o seu horário. Use a frase “Pedido de Reunião”. Sua mensagem deve dizer pelo menos duas vezes quando você gostaria de reunir-se comigo e conter uma descrição curta (uma ou duas sentenças) das razões do encontro. 

E-mails enviados por qualquer outro motivo não serão considerados ou aceitos. Aconselho-os a formular perguntas sobre o programa de aula e as tarefas a serem feitas no horário das aulas. No caso de discussões mais profundas (como orientação sobre os trabalhos) por favor, peça uma reunião pessoal ou telefone para minha sala de atendimento.

Nossas conversas devem ser realizadas pessoalmente ou pelo telefone e não por meio de e-mails, o que permitirá nos conhecermos melhor e promover uma atmosfera de ensino mais acadêmica.

“Pensei ‘isso é ridículo’, nunca conseguirei ir em frente”, disse Duvall. Mas diante da aprovação do diretor do seu departamento – e uma promessa que se fez de que eliminaria a exigência no meio do semestre – ela seguiu em frente.

Essa não foi a primeira batalha travada por Spring-Serenity Duvall. Anos atrás ela se posicionou contra smartphones, tablets e laptops em sala, mas acabou chegando a um acordo, autorizando o uso dos aparelhos desde que não desviassem a atenção de outros alunos. A diferença entre essa regra e a proibição dos e-mails, contudo, é que no primeiro caso a proibição talvez fosse provocar mais antagonismos. “Quanto mais converso com as pessoas sobre isso, mais eu reflito que toda esse trabalho de ensinar não é um jogo de soma zero”, disse ela. “Acho importante em qualquer medida adotada que ela seja a melhor para a classe e também para o professor.”

Depois de um semestre, a política estabelecida para os e-mails tornou-se um “sucesso absoluto”. Duvall consagrava menos tempo a filtrar as centenas de e-mails breves e inconsequentes e percebeu que as alunas chegavam às aulas mais bem preparadas e apresentavam trabalhos escritos melhores. Mas permitiu uma exceção à regra: as alunas poderiam lhe enviar e-mails desde que com conteúdo relevante para o curso. Durante dez anos de carreira lecionando em faculdade, Duvall nunca recebeu tantos telefonemas e visitas de alunos nas horas de atendimento como agora.

As alunas, por seu lado, deram melhores notas para o curso do que as dadas por colegas de anos anteriores, qualificando a preocupação da professora com o progresso dos alunos e seus esforços para se tornar mais acessível a elas como “excelente”. Somente uma, entre os 48, discordou da política adotada. 

Agora Duvall afirma que a política provavelmente será ainda ajustada. Neste semestre, todas as alunas terão de se adaptar à diretriz adotada. “Na verdade, não é tão radical como parece. Estamos fazendo experiências em nosso método de ensino e aprendendo a partir disso. Estou sempre reavaliando e atualizando, e se num determinado ponto a experiência lamentavelmente fracassar, reconsidero-a da próxima vez. Mas no momento, vou tentar.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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