Narrativas de Hans Christian Andersen fundam a fábula moderna

Narrativas de Hans Christian Andersen fundam a fábula moderna

'O Patinho Feio e Outras Histórias' propõe texto pujante sem necessidade de uma moral

Flávio Ricardo Vassoler*, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2017 | 16h00

Em uma de suas Fábulas, seguidas do Romance de Esopo, o autor grego (~620–560 a.C.) nos fala sobre Bens e Males: “Por serem fracos, os Bens foram perseguidos pelos Males e subiram ao céu. E perguntaram os Bens a Zeus como deveriam se portar entre os seres humanos. Ele disse que deveriam sobrevir não todos juntos aos seres humanos, mas um por vez. É por isso que os Males sobrevêm aos seres humanos continuamente – por estarem perto –, enquanto os Bens mais demoradamente, porque descem do céu”. 

Ora, por que os Bens seriam fracos em relação aos Males? (Quando pensamos na dificuldade para se conquistar algo nesta vida e a comparamos com a rapidez com que o sofrimento ceifa a nossa frágil alegria, sentimos a aridez da resposta.) Irmão pagão do Deus judaico-cristão, seria Zeus culpado pelo fato de os Males predominarem na terra? Mesmo que demorem mais a nos alcançar porque descem do céu, por que, ainda assim, os Bens deveriam sobrevir a nós um por vez? 

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Tais questões nos sugerem que a fábula esópica pressupõe interpretações plurais e potencialmente contraditórias. É como se um aforismo do autor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) sussurrasse a Esopo: “Quando os críticos discordam entre si, o artista concorda consigo mesmo.” 

Ocorre que Esopo costuma arrematar suas fábulas com máximas que tendem a tornar unilateral o labirinto narrativo. Eis, então, a moral da história para Bens e Males: “Porque com bens nenhum de nós logo depara, mas pelos males, a cada dia, cada um de nós é atingido”. A máxima ao fim de cada fábula transforma Esopo em leitor de si mesmo – parece-nos que o crítico literário (e moralista) Esopo perde para a polissemia do Esopo fabulista.

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Para além da unilateralidade das máximas, a fabulação de Esopo parece levada às últimas consequências pelo escritor dinamarquês Hans Christian Andersen (1800-1875), em sua obra O Patinho Feio e Outras Histórias (Editora 34, ilustrações de Olaf Gulbransson e tradução de Heloisa Jahn). A partir de agora, sintamos as contradições lancinantes de uma mãe que clama pelo filhinho raptado pela Morte em A História de uma Mãe. Nesta narrativa, Andersen funde o ápice da polissemia fabular ao mais profundo clamor existencial.

No princípio, uma mãe vela à cabeceira de seu filhinho doente. Súbito aparece um pobre velhinho a tiritar de frio. Angustiada, a mãe lhe pergunta: “‘Você acha que consigo salvar o meu bebê? Nosso Senhor não vai tirá-lo de mim...’ E o velho, que era a Morte em pessoa, fez um movimento tão esquisito com a cabeça que não deu para entender se estava dizendo que sim ou que não.” 

Extenuada, a mãe se rende ao sono – é quando a Morte rapta seu bebê. Começa, então, a peregrinação da mãe rumo à sobrevida de seu filhinho.

A mãe logo depara com uma mulher que veste longos trajes negros – a Noite. Ela implora para que a Noite lhe revele aonde a Morte teria levado seu bebê. A natureza humana da Noite, no entanto, só revelará o paradeiro se a mãe lhe entoar as cantigas que já haviam embalado seu bebê. (Além de suscitar compaixão, o sofrimento alheio fornece a matéria-prima para a chantagem.)

Afônica, a mãe ainda é coagida por um lago a barganhar seu desespero uma segunda vez. Cristalino em sua covardia, eis o que o lago lhe diz: “Seus olhos são as pérolas mais puras que já vi. Se você chorá-los para mim, carrego você até a estufa onde a Morte vive e cultiva árvores e flores – cada uma delas é uma vida humana!” É como se o lago sussurrasse: é pegar ou largar (seu filhinho), mamãe – o que vai ser? (Triste mundo em que o martírio é o preço da bondade.)

Cega, a mãe alcança a estufa da Morte e logo ameaça arrancar todas as flores. “Não toque nelas! – disse a Morte. – Você está infeliz e agora quer tornar outra mãe tão infeliz quanto você...”. (Após colocar a mãe entre a cruz e a espada pela sobrevida de seu filho, a Morte cínica prega sermões pela vida dos demais.) 

Em cada uma das mãos, a mãe retém a flor de uma vida. A Morte lhe revela que uma das flores que a mãe pretende arrancar terá um futuro glorioso. A outra terá uma vida repleta de terror e miséria. E mais: uma das flores é o filhinho que a mãe tanto busca. 

Apavorada, a mãe começa a gritar: “Qual delas é o meu filho? Diga! Salve-o de toda essa miséria! Prefiro que você o leve para o reino de Deus! Esqueça as minhas lágrimas e tudo o que eu fiz e disse!”

Como conciliar o amor mais veemente por um filho com a abnegação que, no limite, aceita a separação eterna para que o ser amado não sofra terrivelmente? 

Em Esopo, a moral da história nos diria por quê. A pujança de Andersen, então, parece residir na visceralidade com que suas fábulas abertas escarafuncham feridas que ainda não foram (se é que um dia poderão ser) cicatrizadas. 

*Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela USP com estágio doutoral na Northwestern University (EUA) 

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