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Nas garras do Magnífico

Carolina Rossetti - O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2011 | 03h 08

Shamere McKenzie caiu em poder de um aliciador, mas sobreviveu ao tráfico humano que escraviza mais de 50 mil pessoas nos EUA

Shamere fala como quem conta um segredo. A voz baixinha, pouco acima de um sussurro, é abafada pelo tilintar das pulseiras que cobrem seu antebraço direito. Quando acha que alguém está espiando a conversa, ela engasga e se cala. Toma uns minutos para pôr as ideias em ordem e recomeça a história. Shamere McKenzie é jamaicana e mora nos Estados Unidos desde criança. Tem 27 anos e porte de atleta. E era. Mas isso foi antes. Quando ainda estudava justiça criminal na Universidade de St. Johns, no bairro nova-iorquino de Queens. Praticava corrida de curta distância e, num treino, rompeu o músculo da coxa. Acabou expulsa do time da universidade, perdeu a bolsa de estudos, largou a faculdade e, dali para a frente, tudo degringolou. Os eventos dos dois anos seguintes acarretaram o registro de seu nome na lista de delinquentes sexuais do Departamento de Justiça dos EUA. Hoje a foto dela está no site do FBI, ao lado das de pedófilos e estupradores.

Numa tarde ensolarada de novembro, Shamere chegou ao pequeno café da Rua H, no bairro pobre e majoritariamente negro de Near Northeast. É uma rua não distante da Union Station, a estação de trem central de Washington, margeada de pequenas lojas e botecos. Homens jovens e velhos passam as tardes nas esquinas, flanando, sem ter o que fazer. Shamere é bonita e naquele dia trazia um colorido azul e branco nas pálpebras e gloss nos lábios. Ela entra, senta e já vai falando: "Não tenho vergonha da minha história. Quero que ela sirva de esperança para as meninas que estão na vida e de alerta para que outras não acabem no mesmo lugar".

Shamere é uma sobrevivente do tráfico humano, um crime que afeta 50 mil pessoas nos Estados Unidos, segundo o Departamento de Estado. Elas estão nas ruas e bordéis das grandes cidades, nos campos de tomate da Flórida ou nas plantações de maçã do Estado de Washington, nas casas de famílias nos subúrbios americanos e nas de diplomatas e altos funcionários de organizações internacionais em Washington, D.C. A Organização Internacional do Trabalho fala em 12,3 milhões de pessoas traficadas no mundo inteiro. O lucro gerado é de US$ 31,7 bilhões por ano. Livre de impostos. Isso faz do tráfico de pessoas a terceira modalidade mais lucrativa do crime organizado internacional, atrás somente do tráfico de drogas e armas.

Shamere conheceu Corey "o Magnífico" Davis numa tarde, depois da aula. Ele era dez anos mais velho e tinha um Mercedes. Conversaram. Trocaram telefones. Namoraram. Um mês depois, ela trouxe sua cama do alojamento estudantil no Queens para o porão do apartamento dele no Bronx. Davis disse que podia ajudá-la a ganhar dinheiro para liquidar a dívida de US$ 3 mil com a faculdade. Só precisaria dançar.

Na primeira noite ela dançou num clube em New Jersey. Mais tarde, Davis a levou para um apartamento onde estavam seus amigos. Shamere se recusou a fazer o que um sujeito pedia. "Eu disse a ele que apenas ia dançar. Não queria me envolver com nada daquilo." Davis puxou-a para um canto, encostou-a na parede e foi muito claro: "Faça o que eles querem ou não vai sair viva daqui". Ela insistiu e apanhou. Ameaçou gritar e apanhou de novo. Ele agarrou seu pescoço e apertou. "Me chutava com suas botas Timberland. Eu desmaiei." Horas depois, ela recuperou a consciência e se viu deitava numa poça de urina, sem saber de quem era.

Pelos 19 meses seguintes ela atendeu pelo nome de Barbie, apelido que ganhou por ser magra e alta. Era conhecida nos bares de strip em Nova York, Nova Jersey, Texas, Connecticut e Flórida. Fazia US$ 1 mil por noite, às vezes US$ 4 mil, e nunca viu um tostão. Se precisasse de um absorvente, era o Magnífico que comprava. Quando "a família" (como se chama o cafetão e seu harém) estava em Nova York, ela dormia na própria cama no porão do apartamento no Bronx. Havia outras garotas. Dormiam na cama de Davis, no sofá e no chão. Trinta foram e vieram enquanto Shamere esteve com ele. Asiáticas, brancas, negras, latinas. Algumas menores. "O único jeito de ir a um médico era se você tivesse uma ferida que precisasse dar ponto."

E foi esse o caso um dia. Não com ela, mas com uma amiga pega fumando um baseado enquanto deveria estar trabalhando. Davis ficou furioso. Puxou a menina para o meio das outras e, lentamente, usou um estilete para fazer um vinco na carne da garota. Começou no topo da cabeça, foi até a nuca, e continuou até o começo das costas. As mulheres olhavam horrorizadas. "Nunca tive tanto medo na minha vida", lembra Shamere, talvez se esquecendo do que dissera momentos antes, quando falava do dia em que ele botou um revólver na sua boca, apertou o gatilho, e riu. A arma estava vazia.

"Na primeira vez que fugi, ele ligou no meu celular e ameaçou matar minha mãe. Eu voltei e fui sodomizada. Na segunda, também voltei e ele me bateu. Na terceira, não voltei mais." A fuga definitiva veio em agosto de 2006. Depois disso, Corey Davis foi julgado e sentenciado a 24 anos por tráfico de mulheres e crianças para a prostituição; e Shamere caiu no radar do FBI e foi acusada de colaborar com Davis na transgressão do Mann Act, "por transporte de menores através das fronteiras estaduais americanas com propósito imoral". Na hierarquia do empreendimento montado por Davis cabia a ela levar as garotas da casa para os clubes e trazê-las de volta no final do expediente. "Eu era a única com carteira de motorista."

Shamere ficou presa três semanas. Os agentes do FBI a questionaram e perceberam que interrogavam uma vítima e não um comparsa de Davis. Ela se livrou das acusações, mas não da foto na lista de criminosos sexuais, que reaparece toda vez que vai para uma entrevista de emprego. Na ficha consta que ela tem uma tatuagem no quadril em que se lê o cruel apelido de seu algoz: "The Magnificent". Ela foi solta sob a condição de ser encaminhada para um programa de recuperação de vítimas de tráfico humano, no National Human Trafficking Resource Center (NHTRC), em Washington D.C.

A capital americana é sede das principais organizações que lutam pelo fim do trabalho escravo no país e por leis estaduais mais rígidas e penas mais longas para os traficantes. Mas é também palco de tráfico humano. "E bem debaixo do nariz dos políticos", diz a assistente social Tiffany Williams, da ONG Break the Chain Campaign. A apenas dois quarteirões da Casa Branca, na Rua K e seu em torno, fica a principal zona de prostituição da cidade. Ali, a polícia metropolitana prendeu uma quadrilha que prostituía menores. Não muito longe, entre os prédios comerciais e as tendas do movimento Occupy D.C. que se acumulam na Praça McPherson, é fácil encontrar casas de massagem e salões de beleza asiáticos. Estabelecimentos desse tipo foram fechados por servir de fachada para a exploração sexual de imigrantes filipinas e tailandesas. Já do outro lado da cidade, numa das áreas ricas da capital, a Rua das Embaixadas, a servidão doméstica acontece até nas casas de diplomatas e funcionários do Banco Mundial e do FMI. "Mas estão protegidos pela imunidade diplomática, então não podemos encostar um dedo neles", reclama Tiffany.

Em 2007, Shamere foi para Washington receber acompanhamento do NHTRC, conhecido como Polaris Project, por seis meses. Acabou gostando da cidade e ficou. A ONG que a acolheu, parcialmente financiada pelo governo, funciona em duas sedes na cidade. Em uma, perto da movimentada estação de metrô de Dupont Circle, fica a central telefônica para denúncias de tráfico humano. Em outra, no andar de cima de um sobrado cujo endereço é preciso manter em segredo, trabalham assistentes sociais e psicólogas atendendo pessoas como Shamere.

O ambiente é acolhedor e feminino, com desenhos infantis nas paredes e uma grande mesa na cozinha em torno da qual todos gravitam e tomam chá. Sobreviventes passam por sessões de terapia em grupo e recebem ajuda jurídica. "O mais difícil é estabelecer um nível de confiança", diz Heidi Alvarez, que acompanha, às vezes por até dois anos, a recuperação das vítimas. "Elas chegam aqui com muito medo, ressabiadas. Às vezes demora para que se sintam seguras e confortáveis para começar a falar."

Foi ali que Shamere conheceu Tina Frundt, sua mentora e também sobrevivente de tráfico humano. Ela usa sua experiência "do lado de lá" para se conectar com os meninos e meninas que atende na Casa Courtney, uma organização fundada por ela para combater a prostituição infantil. Tina agita seus dreads curtos e tingidos quando fala. "O maior problema que vítimas de tráfico humano como Shamere enfrentam nos Estados Unidos é serem tratadas como criminosas." Foi o que aconteceu com ela quando, aos 15 anos, pediu ajuda a um policial para fugir do cafetão e foi presa numa instituição para menores delinquentes por um ano. "Pessoas que são tratadas assim perdem toda fé no sistema e passam a ver todo agente do Estado como inimigo".

Para tentar impedir a punição das vítimas, como aconteceu com Shamere e Tina, o governo americano criou 42 forças-tarefa regionais para formar policiais especializados em identificar e ajudar vítimas de tráfico humano. Em paralelo, o Departamento de Justiça passou a emitir, em 2001, um visto humanitário, o T-Visa (T para tráfico) para todo estrangeiro que foi atraído para o país com falsas promessas de emprego e uma vida melhor e acabou vítima de fraude, coação, abuso físico ou psicológico. O visto permite que a pessoa more e trabalhe legalmente nos EUA por pelo menos três anos". Mas especialistas ouvidos pela reportagem dizem que as duas iniciativas têm tido resultados aquém do esperado. Apenas um décimo da quota de 5 mil vistos é distribuída anualmente e vítimas de tráfico humano continuam sendo presas e deportadas.

Se identificar as vítimas é difícil, prender os criminosos é ainda mais. O policial Melvin Scott, comandante da Divisão de Narcóticos de Washington, que integra a força-tarefa de combate ao tráfico humano na capital americana, afirma que seu departamento tem sido "agressivo em promover operações e investigações envolvendo casos de tráfico de pessoas", mas é muito difícil montar o processo se a vítima não quiser depor. Tina Frundt já está acostumada a depor em julgamentos para explicar ao júri por que dificilmente as vítimas testemunham contra seus traficantes.

"Uma vítima de tráfico humano é uma pessoa que passou um tempo confinada. Isolada do mundo. A elas é dito quando dormir, quando acordar, o que vestir, o que comer. De repente, você é resgatada e tem que tomar as próprias decisões. Uau, como isso é difícil", explica Tina. "É um processo doloroso e, no meio de tudo isso, estamos exigindo que revelem para o mundo todas as humilhações por que passaram, pois há um julgamento chegando e elas devem estar bem para enfrentar os traficantes. A recuperação de um trauma como esses não vem de uma hora para outra. Pode levar uma vida toda."

Shamere teve sorte. Escapou. Recebeu a ajuda de que precisava e agora é ativista pelo fim da escravidão moderna. Quer se tornar advogada de vítimas de tráfico humano. No fim de outubro, participou de uma marcha com centenas de manifestantes. Fez uma performance no gramado em frente ao obelisco George Washington. Vestida com o roupão laranja dos presidiários americanos e um pouco teatral, repetia: "Sou uma sobrevivente de tráfico de pessoas. Sou sua vizinha, sua colega de escola. Posso ser a sua filha". Sabe-se lá se alguém no Capitólio ouviu.  

A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DO WOODROW WILSON CENTER FELLOWSHIP PARA JORNALISTAS LATINO-AMERICANOS

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