Neoliberal do armário

Neoliberal do armário

Pragmatismo do ministro boliviano da Economia garante crescimento e dá estabilidade ao governo

Ariel Palacios , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES

18 Outubro 2014 | 16h00

Em junho, o relógio da cúpula do Palácio Legislativo em La Paz, Bolívia, começou a girar em sentido anti-horário, para a esquerda. Os números também haviam sido invertidos: o 11 ocupando o lugar da 1 hora, o 10 no lugar das 2 e assim por diante. O vice-presidente, Álvaro García Linera, explicou que os relógios dos “colonizadores” seguiam a sombra do sol nos relógios solares do Hemisfério Norte. “Durante séculos tivemos que fazer as coisas como fazem no norte. A mudança no relógio ajuda a mostrar de forma diferente e abre a mente”, afirmou. No entanto, analistas opinam que por trás do tom revolucionário para a militância – que inclui críticas à Coca-Cola e elogios a Fidel Castro – esconde-se o pragmatismo do presidente Evo Morales: o governo, embora tenha trocado o lugar dos números nos relógios, não mudou a hora do país.

O protagonista do pragmatismo é o ministro da Economia, Luis Alberto Arce, de 51 anos, cujo escritório ostenta um retrato do ícone da Revolução Cubana, Ernesto Che Guevara. Seus críticos, com sarcasmo, o definem como “um neoliberal que não saiu do armário”. Arce argumenta que Karl Marx sustentava que “é preciso primeiro desenvolver as forças produtivas para dar depois o salto para o socialismo”.

Ao contrário dos ministros de governos aliados como Argentina e Venezuela, Arce aumentou as reservas do Banco Central boliviano, que passaram de US$ 1 bilhão para US$ 15,4 bilhões. Sob sua gestão, o PIB cresceu 5% em média desde 2006 e pode crescer 6,5% este ano. Embora ainda seja o país mais pobre da América do Sul, a pobreza na Bolívia caiu de 60% para 45%. Ao mesmo tempo que simpatizantes do governo incineram a bandeira dos EUA e criticam a cultura americana, a administração Morales dá bolsas de estudo para jovens bolivianos estudarem em Harvard. Arce, afirmam em off no âmbito político, dissuadiu Morales de realizar mais estatizações, marca do presidente em seu primeiro mandato que se abrandou no segundo. 

O rigor fiscal de Arce – funcionário do BC boliviano por duas décadas – propiciou ao governo Morales elogios do FMI e do Banco Mundial. Wall Street também confia em Morales, já que seu governo emitiu – pela primeira vez em cem anos – títulos da dívida pública com taxas de 6% a 7%. O índice, baixo, é sinal de que os mercados – acima dos pirotécnicos slogans anti-ianques e anti-imperialistas – não encaram o ex-cocaleiro como “agente soviético”. Mas essa estabilidade política e econômica, pela qual Arce é um dos responsáveis, foi uma commodity escassa ao longo da história boliviana.

Principal constante da história do país, a instabilidade levou, em 1944, o correspondente americano John Gunther a dizer: “A Bolívia não é um país, é um problema”. Entre a independência, em 1825, e 1982, quando se encerrou o governo da última junta militar, A Bolívia sofreu 193 golpes de Estado, incluindo as tentativas frustradas. 

Em quatro ocasiões também passou por períodos de 5 a 23 dias em que não teve presidente algum. De seus 84 presidentes (incluindo Evo Morales), 32 foram ditadores (de simples majores até marechais). A instabilidade não foi exclusividade dos séculos 19 e 20. Entre 2001 e 2006 o país teve cinco presidentes. Morales foi o único a completar o mandato. A mudança da Carta Magna foi outra constante. Desde a independência, o país teve 16 Constituições. A Bolívia também ostenta o recorde de hiperinflação da América do Sul. Em 1985, o índice chegou a 8.170,5%.

Além dos problemas internos, a Bolívia teve problemas de fronteira com todos os vizinhos – Argentina, Chile, Peru, Paraguai e Brasil. Em guerras ou disputas diplomáticas, seu território encolheu de 2,3 milhões de km² na época da independência para 1 milhão hoje. A Bolívia perdeu sua saída ao mar para o Chile em 1879. No entanto, mantém uma Marinha de Guerra, que sonha em voltar ao Pacífico. A Marinha treina seus mais de 5 mil homens no maior espaço de água do país, o Lago Titicaca, na fronteira com o Peru. Em 1903, foi a vez de outra perda territorial, quando o país teve que entregar o Acre ao Brasil. A última perda ocorreu em 1935, quando teve de ceder o Chaco ao Paraguai. Mas, apesar da instabilidade e das rebeliões, a Bolívia só teve uma grande guerra civil, em 1898. 

A denominação da sede de governo – Palacio Quemado (Palácio Queimado) – ilustra a violência que a Bolívia padeceu ao longo da maior parte de sua história. Em 1860, o palácio foi quase totalmente queimado durante um levante popular. O palácio também foi o cenário do único linchamento no século 20 de um presidente na América do Sul. Gualberto Villarroel foi assassinado por uma multidão que entrou no palácio presidencial, jogado pela janela e pendurado de cabeça para baixo em um poste na calçada da frente. Villarroel, simpatizante do fascismo, entrou para a história com o apelido de “El Colgado” (O Pendurado).

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.