Nobel de Literatura em 1958, Boris Pasternak tem clássico publicado no Brasil

Nobel de Literatura em 1958, Boris Pasternak tem clássico publicado no Brasil

'Doutor Jivago' transformou seu autor em um traidor da pátria soviética

Flávio Ricardo Vassoler*, O Estado de S.Paulo

06 Janeiro 2018 | 16h00

Ourives da palavra e escultor de imagens poéticas em meio à prosa, o escritor russo Boris Pasternak (1890-1960) ressoa em sua obra-prima Doutor Jivago (Companhia das Letras, Tradução de Sonia Branco) a máxima dostoievskiana segundo a qual “a beleza salvará o mundo”. Munido de um profundo panteísmo, Pasternak celebra o encantamento diante da natureza como a crisálida das metáforas. Assim, o narrador/eu-lírico de Doutor Jivago recita que “observar o rio fazia doer os olhos. As águas ondulavam e refletiam a luz do sol como folhas de metal”. O lago, por sua vez, “estava repleto de nenúfares. O barco cortou essa massa vegetal com um barulho seco. A água surgia no meio da folhagem aquática como o suco no triângulo talhado da melancia”. E que dizer da precocidade poética do menino Iúri Jivago, quando ele sente que “o odor do carvão usado para ferver o samovar” abafa “o cheiro de tabaco e o perfume dos girassóis” enquanto o chá é servido? Estamos diante do mesmo ímpeto sinestésico que descobre “um odor adstringente de nozes frescas em cascas verdes ainda macias, que escurecem ao menor toque”, sinestesia que entrevê a paralisia dos flocos de neve no ar, flocos que descem tão lentamente “como o miolo do pão atirado na água para alimentar os peixes”. 

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Se a ourivesaria poética de Doutor Jivago exalta, em cada uma de suas linhas/versos, a beleza que salvará o mundo, precisamos descobrir se o mundo – isto é, a história com a qual o romance se funde e se confunde – conseguirá salvar a beleza. 

Desde a mais tenra infância até seus últimos momentos em um bonde moscovita; desde que se reconhece como poeta e começa a amar a bela e intensa Larissa Fiódorovna com todas as fímbrias de seu lirismo, a vida de Iúri Jivago se vê afetada pelos grandes eventos históricos que acabam por plasmar o transcurso ulterior da Rússia e do século 20: a tentativa revolucionária de derrubar a monarquia czarista em 1905; a 1.ª Guerra Mundial (1914-1918); a queda do czar, em fevereiro de 1917, e a tomada do poder pelos bolcheviques capitaneados por Vladimir Lenin (1870-1924), oito meses depois; a encarniçada guerra civil (1918-1922) que contrapõe os russos vermelhos e revolucionários aos russos brancos, constituídos por um amálgama sumamente heterogêneo de partidários do czar e defensores do governo constitucional instaurado em fevereiro de 1917, tropas inglesas e francesas, tchecas e polonesas, estadunidenses e japonesas; a coletivização forçada das propriedades rurais, o saque e a pilhagem da produção agrícola pelo governo revolucionário e a fome no campo; as execuções de (supostos) contrarrevolucionários e sabotadores e os expurgos para campos de trabalhos forçados sob a ditadura do líder soviético Josef Stalin (1878-1953). 

Em um momento de radical entrelaçamento entre vida e história, o médico Iúri Jivago caminha – ou melhor, se esgueira – pelas ruas de uma Moscou transpassada pelas barricadas de vermelhos e brancos em meio à guerra civil. Súbito (e como se fosse uma miragem), surge um jornaleiro – um menino de bochechas coradas sob uma boina surrada – e lhe vende uma “edição especial, impressa apenas de um lado da folha, que continha um comunicado do governo de Petersburgo anunciando a criação do Conselho de Comissários do Povo e a instauração na Rússia do poder soviético e da ditadura do proletariado. A chuva açoitava-lhe os olhos, e grãos cinzentos de neve recobriam as linhas impressas do jornal. Mas não era isso que atrapalhava a leitura. A grandiosidade e a eternidade daquele instante o abalavam e o impediam de voltar a si. É a história. Acontece uma vez na vida”.

Ocorre que, com suas origens pequeno-burguesas, Iúri Jivago e Larissa Fiódorovna logo descobrem que o autoproclamado Éden do proletariado tem outros planos para o destino de seu amor. Munida de baioneta, a história cinde a comunhão de Larissa e Iúri com a crueldade de suas engrenagens. Com a pecha de potenciais inimigos do povo e da revolução, Iúri e Larissa se refugiam em um rincão gélido da Sibéria para escapar ao fuzilamento sumário. Ora, é radicalmente sintomática a mensagem subliminar de Pasternak: se o coração é uma célula revolucionária, que utopia e que novo tempo histórico são esses que não conseguem acalentar em seu seio a comunhão de um casal apaixonado?

A publicação de Doutor Jivago em Milão, em 1957, transforma Boris Pasternak em “traidor da pátria soviética”. Em meio às disputas político-culturais da Guerra Fria, Pasternak é coagido pelo governo da URSS a recusar o Nobel de Literatura com que a Academia Sueca o agraciara em 1958, do contrário o escritor teria que abandonar o país imediatamente. Ao fim e ao cabo, Pasternak só aceita o exílio interno em Peredelkino, região próxima a Moscou, por não conceber a vida fora de sua única e verdadeira pátria, a grande literatura russa. 

*Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela USP, com estágio doutoral na Northwestern University (EUA) 

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