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Nobel mexicano analisa a obra da primeira feminista da América

Sor Juana Inés de la Cruz é estudada por Octavio Paz em livro clássico que retorna às livrarias

Wilson Alves-Bezerra*, Colaboração para o Estado

02 Dezembro 2017 | 16h00

Em 1981, quando o mexicano Octavio Paz (1914-1998) lançou a primeira edição de seu livro sobre a poeta do século 17, Sor Juana Inés de la Cruz, ele ainda não era Nobel de Literatura. Entretanto, já havia publicado obras fundamentais, como seu ensaio sobre a história, o caráter e a cultura mexicanos, O Labirinto da Solidão (1950) e seu trabalho sobre a poesia moderna – O arco e a lira (1956) –, ambos reatualizados e republicados continuamente. O Prêmio Nobel chegaria apenas ao fim daquela década, em 1990, e a cronologia do autor ajuda a entender que o agora relançado Sor Juana Inés de la Cruz ou As armadilhas da fé é o livro de um autor já reconhecido e maduro, que retoma temas que lhe foram claros ao longo de sua trajetória, para uma tarefa complexa.

Sor Juana Inés de la Cruz, uma monja da Nova Espanha, atual México, já havia aparecido com destaque na obra de Octavio Paz, no capítulo dedicado ao período colonial mexicano de O Labirinto da Solidão, como a figura que melhor encarnou a dualidade de sua época, o século 17, numa tentativa de “conciliar ciência e poesia, barroquismo e iluminismo”. Para que se tenha uma ideia de quem foi em seu tempo, Sor Juana era a intelectual curiosa que escrevia poemas sacros, filosóficos e amorosos – alguns dedicados à condessa de Paredes – editados em vida e reconhecidos nos dois lados do Atlântico, os quais lhe renderam o hiperbólico epíteto de Musa Décima. Era ainda dramaturga e escreveu algumas obras nas quais veem-se sincretismos entre rituais astecas e católicos. Teve ainda a ousadia – para sua época – de fazer uma réplica a um sermão do Padre Antonio Vieira, um agudo exercício de retórica que lhe rendeu a desaprovação de seus superiores, e que a levou, num enredo cheio de escamoteamentos, a renunciar às letras. Porém, como ato final de sua vida intelectual, escreveu ainda um texto autobiográfico, de lucidez e ironia perturbadoras, ponto de culminância de sua vida e obra. É sua Resposta a Sor Filotea, disponível aos leitores brasileiros na impecável tradução de Teresa Cristófani de Souza Barreto, no volume Letras sobre o Espelho, lançado pela Iluminuras, em 1989.

Pois é essa Sor Juana a personagem das mais de quinhentas páginas do livro de Octavio Paz. Nas seis partes que dividem a obra, Paz se mune de disciplinas tão diversas como a história, a psicanálise, a filosofia, a teoria da literatura, a antropologia, além de seus dotes de literato, para dar conta da escritura, da época e do universo filosófico de Sor Juana. Assim, discute, num corpo a corpo competente, com as biografias edificantes que já se havia escrito sobre a monja – sobretudo a do padre jesuíta Diego Calleja, contemporâneo da poeta –, com estudos biográficos de caráter psicologizante, como o do alemão Ldwig Pfandl, que se vale da psicanálise para transformar a escritora em paciente e diagnosticá-la como uma neurótica de fortes tendências masculinas. 

O desafio de Octavio Paz, pois, era o de escrever uma obra moderna sobre Sor Juana, que pudesse encontrar-lhe um lugar na cultura e história do século 17, considerando sua singularidade de ser mulher, religiosa, latino-americana e poeta numa sociedade como a espanhola, sem incorrer no equívoco de torná-la uma personagem à frente de seu tempo e, portanto, anacrônica: feminista, lésbica ou defensora das minorias. Ainda nas primeiras páginas do prólogo, Paz faz o alerta: “A palavra sedução, que tem ressonâncias a um só tempo intelectuais e sensuais, dá uma ideia bem clara do gênero de atração que desperta a figura de Sor Juana Inés de la Cruz.” 

Paz mostra as implicações de uma sociedade de corte como a da Nova Espanha do século 17, que, ao ser um vice-reinado, era uma extensão do reino espanhol, com o que isso implica da constituição de um ambiente ilustrado onde a poesia, o teatro e as artes têm seu lugar e na qual, a monja podia contar com o favor dos nobres. É nesse contexto que é possível compreender os poemas amorosos neoplatônicos de Sor Juana à condessa de Paredes, sua protetora.

Octavio Paz, portanto, alcança mostrar como Sor Juana é um fruto – ainda que singularíssimo – de seu tempo, e não uma heroína moderna. Haver criado sua obra em uma época de circunstâncias tão pouco favoráveis, observando todas as suas convenções, é o que a torna digna de nota. O outro efeito do trabalho de Paz é reinserir, de modo contundente, a poeta mexicana no debate intelectual e também o de ampliar a circulação de sua figura.

Porém, se o estudioso mexicano teve rigor em sua tarefa, o mesmo não se pode dizer dos que o seguiram. Para que o leitor tenha uma ideia da tendência à romantização da figura da monja, vejamos três exemplos: um dos estudos que sucedem o de Paz, ainda nos anos noventa, o do italiano Dario Puccini, incorre em diversos anacronismos, como o título já indica: “Uma mulher na solidão: Sor Juana Inés de la Cruz, uma exceção na cultura e na literatura barroca” (1996), que ressalta justamente o caráter – inexistente – de fragilidade e exceção da poeta; também o que se vê no filme, da mesma época, Eu a pior de todas, de María Luisa Bemberg (1990), na qual Sor Juana beija na boca a condessa, transformando o amor platônico dos poemas da monja em folhetim lamentável; é também este o caminho da série Juana Inés, criada por Patricia Arriaga-Jordán (2016), cuja sinopse é também eloquente: “uma poderosa freira feminista se envolve em um caso de amor proibido com uma mulher”.

    Nos tempos apressados e pouco reflexivos que vivemos, cada qual pode escolher sua Sor Juana: a enigmática figura criadora de uma obra singular, numa sociedade pré-cartesiana, e ter como guia seus próprios textos e um livro como o de Octavio Paz, para aproximar-se daquele mundo já inexistente; ou deglutir uma figura contemporânea em trajes de época. 

*Wilson Alves-Bezerra é escritor, tradutor e professor do departamento de letras da Ufscar 

SOR JUANA INÉS DE LA CRUZ OU AS ARMADILHAS DA FÉ

Autor: Octavio Paz

Tradução: Wladir Dupont

Editora: Ubu

608 págs., R$ 109

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Juana Ines de La Cruz Octavio Paz

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