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Notas de uma submissão: a ameaça europeia às orquestras latino-americanas

O colonialismo musical na América Latina aumentou nos últimos 20 anos, diz compositor. ‘Não se compõe mais; se copia o que é feito no Norte’

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2016 | 16h00

Dezenas de festivais de música de todos os tamanhos invadem tradicionalmente o inverno brasileiro no mês de julho. O maior deles é o gigantesco Festival de Campos do Jordão, este ano com mais de 80 concertos na estância da Mantiqueira e na Sala São Paulo, com direito a orquestra sinfônica de bolsistas e muitos convidados internacionais. O momento, portanto, é propício para uma discussão franca sobre o presente e o futuro da instituição orquestra sinfônica, e também pela questão fundamental da educação musical.

Uruguaio, 75 anos, compositor e professor, Coriún Aharonián pratica o saudável exercício do contraditório em torno da educação musical e das orquestras sinfônicas, eixos que definem o modo como se espraia há cerca de dois séculos a vida musical na América Latina.

Coriún Aharonián não é só um dos compositores mais importantes da América Latina. É emérito especialista no ensino da música. Ele foi um dos fundadores e dirigiu o Núcleo Música Nueva em Montevidéu, foi professor titular de composição na Universidade Nacional do Uruguai. Aharonián publicou vários livros, como Hacer Música en América Latina, Educación, Arte, Música e Conversaciones sobre música, cultura e identidad (todos pela Editora Tacuabé, de Montevidéu). Aharonián vive na capital uruguaia, onde dirige o Centro Nacional de Documentação Musical Lauro Ayestarán. A seguir, trechos da entrevista concedida ao Aliás:

A instituição orquestra depende de vultosos subsídios do Estado, e acaba se acomodando na burocracia estatal ou num populismo condenável, que se atrai mais público por um lado, degrada de vez a prática musical, do outro.

O raciocínio lamentavelmente está certo. Amiúde as coisas acontecem assim. Não seria ruim se maestros e sinfônicas latino-americanas copiassem os melhores aspectos dos modelos europeus. As crianças e adolescentes copiam, mas só até virarem adultos. Esse é o problema. 

O senhor considera possível a adoção de mecanismos mais democráticos na gestão artística das orquestras, com participação efetiva dos músicos na gestão e repertório? 

A orquestra é por definição uma construção de extremo autoritarismo. Pode ser reeducada para um comportamento um pouco mais democrático, mas para isso é necessário que haja vontade política no sentido mais nobre do termo. E, para que haja vontade política, deveria antes existir consciência dessa definição ideológica do artefato orquestral, e são raros os políticos interessados em tomar consciência do significado político dos aparatos que manipulam.  

A prática musical tradicional na América Latina, cujo núcleo mais importante é a instituição orquestra, persegue o modelo europeu como a maçã de ouro no pau de sebo. Isso se deve a uma multissecular educação musical perversamente inadequada?

O  sistema de ensino tem sido, desde a conquista ibérica, arma fundamental de submissão colonial, instrumento para assegurar perpetuamente a dependência cultural dos povos da América Latina, que por sua vez é instrumento efetivo para afirmar a dependência política e econômica. A cinco séculos dessa conquista, todos os níveis de ensino permanecem eurocêntricos, desde os pré-escolares até a pós-graduação universitária; desde o trabalho das instituições educacionais até a dos meios de comunicação de massa. Mas, paradoxalmente, a América foi e continua sendo uma poderosíssima fábrica de música, que desafia permanentemente os modelos impostos pelos centros de poder europeus. E agora, desde que os EUA roubaram da Europa ocidental o primado imperial, a América Latina conserva este potencial de desafio. Não me refiro só às músicas populares; no terreno da música culta – não mais eurocêntrico, em suas melhores expressões, do que as músicas populares – também há matéria desafiadora.

O projeto social-educativo-musical El Sistema venezuelano seria o produto mais vistoso dessa visão eurocêntrica na América Latina? 

A Orquestra Simón Bolívar, produto mais reluzente do El Sistema venezuelano, sempre submerge sob entusiastas em terras europeias. É emocionante que uma caterva de "negritos" ou "indiecitos" (indiozinhos) sul-americanos bem "vestiditos" e bem "comportaditos" – "como se fossem gente" –, com um regente talentosíssimo e muito jovem de aspecto mestiço, toque música europeia – isto é, "música verdadeira" –, com a adição de uma peça que soe exótica, mas não demasiado inquietante. Sabemos que se uma escola de samba do Rio ou São Paulo tocar uma sinfonia de Beethoven, isso não a transformará em algo positivo para a sociedade carioca ou paulista. Mas o economista Abreu (maestro José Antonio Abreu,76 anos, criador de El Sistema que também é economista, como Aharonián prefere qualificá-lo) nos engana há décadas, usando os mecanismos do pensamento colonizado.  

O caráter de inclusão social  do projeto não o justifica? Afinal, ele envolve 400 orquestras infanto-juvenis, mais de 1 milhão de crianças e adolescentes carentes, 90 centros espalhados em 24 Estados venezuelanos e um orçamento anual de US$ 110 milhões?  Ou é ilusório, como faz o El Sistema, formar centenas de milhares de músicos de orquestra, se não há mercado para a existência de orquestras profissionais suficientes para absorvê-los quando formados?

Todo o modo de ação pedagógica é questionável. Inclusive este, da falta de perspectivas profissionais futuras: por atuar em núcleos economicamente marginalizados, isso parece justificá-lo. O que praticam é uma espécie de salvacionismo por meio da música culta europeia do passado. Em sua realidade colonial, nossos países possuem limitada quantidade de postos de trabalho em orquestras, que, enquanto orquestras de música europeia, são em geral de má qualidade. Não atendem às necessidades de afirmação de processos criativos identitários próprios. Dificilmente ouviremos orquestras latino-americanas tocar música de compositores cultos latino-americanos e dificilmente uma obra sinfônica de um compositor latino-americano representativo será escutada três vezes durante a vida de seu autor.  Resumindo, a orquestra ensinada como modelo social e referente de objeto de prestígio só transmite aquilo que traz consigo: a afirmação de uma ordem extremamente autoritária.

Como uma criação nova pode tornar-se memorável se só tem direito a uma execução?

Toda obra contemporânea deveria ter o direito de ser ouvida mais do que apenas uma vez. Um dos problemas é que às vezes elas são muito ruins, e é mais piedoso enterrá-las do que submeter o público à tortura de uma segunda escuta obrigatória. Outro problema é quem julgaria o que é ruim e o que é bom, tanto para ser estreada como para ser reprogramada. 

Tarefa dos responsáveis pela programação das temporadas sinfônicas...

A maior parte demonstra pouco sentido de responsabilidade educativa em relação a seus públicos, e às vezes mau gosto em doses excessivas. E, sobretudo, têm pouquíssima informação sobre quem são e/ou foram os compositores mais relevantes da América Latina, e por que não?, também da Europa. Os músicos das orquestras ficam aprisionados nesse sistema e perdem capacitação para tocar bem uma obra que não seja parte do repertório mais banal.

Quando se fala em música contemporânea, o domínio do eixo europeu/norte-americano é ainda maior do que o que ocorre na vida musical convencional. Falso ou verdadeiro? Em que medida?

É provável que nas últimas duas décadas se tenha acentuado uma atitude colonial na maioria dos compositores de música culta – erudita, em português –, sobretudo na medida em que a instituição "compositor" foi absorvida pelo burocratismo universitário, erradamente chamado de "acadêmico". Em arte, o "acadêmico" é o contrário, é aquele que tem vôo criativo. Compor passa em geral a significar copiar modelos –por fim "baixados" do Norte, como em toda a estrutura de dependência colonial –, em vez de arriscar caminhos criativos que de algum modo sejam próprios. Próprio não significa a negação do alheio, mas seu conhecimento e inclusive sua incorporação. Uma música contemporânea que não olha para seu entorno não é, por definição, contemporânea. Uma das possíveis vias para romper o cerco é os criadores de cultura retomarem a conexão com a América Latina toda, e deixarem de fazer o jogo da balcanização e do isolamento mútuo de nossos países. 

Como deve ser uma educação musical adequada à realidade latino-americana?

Educar deve ser preparar o homem da sociedade do futuro, subentendendo-se que queiramos que essa sociedade seja melhor que a atual. Relembro aqui uma colocação do compositor e educador canadense Murray Shafer: "Amiúde a educação responde a perguntas que ninguém fez. Por acaso a criança pede para tocar o concerto 'Imperador' (para piano e orquestra no. 5, em mi bemol maior, opus 73, de Beethoven)? Realmente não. Então, por que insistimos em treiná-la para que seja capaz de executá-lo? Não seria melhor perguntar-lhe o que deseja fazer e ajudá-la nisso?".

 

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA E CRÍTICO MUSICAL; AUTOR DE NO CALOR DA HORA – MÚSICA E CULTURA NOS ANOS DE CHUMBO (EDITORA ALGOL, 2009), ORGANIZOU O LIVRO COLETIVO CEM ANOS DE MÚSICA NO BRASIL (EDITORA ANDREATO, 2015).

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