Novos ares

Egberto Nogueira, O Estado de S. Paulo

26 Julho 2014 | 16h00

Para quem nunca visitou o Haiti e se acostumou a uma mesma narrativa sobre o país, é bom variar um pouco. Em geral é isso que faz a diferença numa boa reportagem, no jornalismo que surpreende e informa de verdade. As fotos nestas páginas trazem mais um de um país muito comentado por aqui, mas pouco conhecido realmente. E é essa fotografia que Peu Robles vem praticando. Ele busca alternativas em seu trabalho e novas maneiras de construir a narrativa. Outros lugares para mostrar, outras maneiras de veicular. Tenta sair do lugar-comum e do que é praticado geralmente pela imprensa.

Amplia os horizontes com mais informação, pesquisa e tempo. Agrega texto, informação, documentação, edição de vídeo e o que tiver à mão para ajudar a construir a história que pretende contar. Peu é daqueles que estão sempre atirando, fotografando e filmando. Seu equipamento cabe no bolso. Claro, fica mais fácil estar nos lugares, ser menos visto e ser menos intrujão. Sua presença menos óbvia começou a lhe render melhores fotos. 

Acompanho o trabalho do Peu há algum tempo. Ele estudou na Ímã Foto Galeria e fez o curso de João Bittar de fotojornalismo, há quatro anos. Não era um curso, já pegávamos o bonde andando. João Bittar era professor de exercícios diários da realidade. Faleceu vai fazer três anos e deixou saudades, mas o que consola é saber que plantou boas sementes e marcas na vida profissional dos mais jovens que estão por aí, desses que arejam e trazem novos ventos. 

Chega de gases tóxicos e ares já meio poluídos. Fazer bom jornalismo sempre teve a ousadia como primazia. Mas também tem de ter destreza, paciência e informação, qualidades que não dizem respeito somente à técnica. A grande questão desses jovens fotógrafos, e sobretudo os que atuam de forma independente, é garantir a sobrevivência, ganhar dinheiro. Aí, geralmente, vão fazer retratos. Retratos posados, iluminados, dirigidos e encomendados, mas só esse tipo de foto não traz a verdadeira opinião do fotógrafo, principalmente no jornalismo. Esses aguerridos garotos são motivados por outros tipos de fotografia.

Nessa órbita, o trabalho de Peu tem mostrado grande valor. Ele foi para o Cairo cobrir as primeiras eleições presidenciais em 2012 por conta própria, realizou um trabalho na fronteira de Israel com a Palestina em 2011 e se virou para fazer um documentário, com pouca grana, sobre a ditadura militar. E foi com esse mesmo documentário que foi parar no Haiti.

Quando não tem nada rolando, sai pela cidade, fazendo de tudo, olhando e flanando, como gostam de dizer. Esse trabalho do Haiti vem então com essa energia. Não tem a velha fórmula mais do que impregnada dos que documentam o Haiti e trazem as mesmas repetidas fotos. Vem mais limpo, menos viciado.  Simples e despretensioso, mas com “sangue nos olhos”. 

O tom dessas fotos é o cinza sujo da fumaça e da fuligem, a cor predominante na paisagem urbana das cidades, a cor do carvão. Como a energia elétrica ainda é muito escassa na região, o carvão é muito usado para aquecer a água, fazer fogo e cozinhar. 

O Estado ainda é totalmente dependente da ajuda internacional e corrupto, dizem. Além disso, quase não se faz presente na vida da população. Apesar de tudo, Peu faz questão de mostrar a dignidade do povo do Haiti. As pessoas estão ali, mas não querem ser retratadas “na pior”. Isso fica claro no rosto da menina na bicicleta do pai, nas costas dos trabalhadores que carregam o arroz transgênico importado dos EUA ou na colorida loja do vendedor de amor com o olhar não amoroso. Eles estão buscando sobreviver. Um dia de cada vez.

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Egberto Nogueira é fotojornalista há 26 anos e dono da Ímã Foto Galeria

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