AP/Daniel Soehne
AP/Daniel Soehne

O amor e a rigidez da lei

Um papa misericordioso e uma avó lésbica feminista redirecionam o foco sobre assuntos de família

Kenneth Serbin, O Estado de S. Paulo

05 Setembro 2015 | 16h00

Quando, na semana passada, o Papa Francisco anunciou que autorizaria os padres a perdoarem o pecado do aborto, um filme americano lançado recentemente também despertou grande atenção por causa do tratamento não dogmático, até com humor, da questão do aborto. Normalmente apenas os bispos podem perdoar uma mulher por fazer um aborto, mas durante o Ano Santo da Misericórdia que Francisco declarou para o período de 8 de dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016, os padres também poderão absolver os indivíduos que se arrependeram de suas ações.

Numa obra de arte aparentemente incompatível com os ensinamentos católicos, o filme Grandma (Vovó) retrata o relacionamento entre uma lésbica feminista em torno dos 70 anos e sua neta de 18. Elle, a avó, é interpretada pela atriz veterana Lily Tomlin, lésbica e feminista na vida real que em 2013 se casou com sua companheira de quatro décadas. Interpretada por Julia Garner, Sage, a neta, decide fazer um aborto porque não quer viver com o namorado e pretende seguir a faculdade. Elle decide ajudar a avó a arrecadar dinheiro para pagar o procedimento. 

Do mesmo modo que o Papa quis revigorar a fé católica com uma maior ênfase na tolerância e a valorização das complexidades da vida, Grandma apresenta o aborto em suas várias nuanças, com uma dose de humor inteligente oferecida pela rabugenta Tomlin (já circulam rumores de que ela será indicada ao Oscar de melhor atriz).

Em contraste com o Brasil, onde o aborto é ilegal e com frequência perigoso, Grandma tem como premissa o direito da mulher americana de decidir abortar (garantido pela Suprema Corte em 1973) e ser protegida. Contudo, o filme não apresenta o aborto como uma opção fácil sem nenhuma consequência. “Você pensou bem a respeito?” Elle pergunta a Sage. “Porque é algo que você provavelmente pensará, pelo menos uma vez, diariamente o resto da sua vida”. Na verdade, mais tarde é revelado no filme que a própria Elle fez um aborto quando jovem.

Podemos imaginar os padres inspirados tanto pelo Papa como pelo filme dialogando com mulheres (e outros envolvidos no processo) sobre o aborto, em vez de rigorosamente aplicar a lei.

A dura realidade é que milhões e milhões de mulheres católicas e de outras religiões cristãs no Brasil e nos Estados Unidos realizaram abortos nas últimas décadas. Os católicos brasileiros e americanos há muito tempo agem de modo muito diferente do que a hierarquia prega com respeito não só ao aborto, mas também ao controle da natalidade.

Francisco tem deixado bastante claro que não quer ser exclusivo, mas inclusivo. O Ano Santo da Misericórdia repercute fortemente sua hoje famosa frase quando retornou à Itália de sua viagem ao Brasil - “Quem sou eu para julgar?” - respondendo a uma pergunta sobre sua opinião sobre os padres gays.

Aparentemente, esta posição tolerante ficaria sob ataque nos Estados Unidos com a recusa de uma tabeliã de Kentucky, Kim Davis, a acatar decisão da Suprema Corte que assegurou o direito do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em três de setembro, um juiz federal puniu a tabeliã por desrespeito à Corte, ordenando sua prisão. Uma vigorosa mensagem de apoio à lei. Kim Davis baseou sua recusa nas suas crenças como cristã apostólica, protestante.

A mídia, como de hábito, concentrou-se na disputa entre Davis e os tribunais. O que é realmente surpreendente, contudo, é que Kim Davis até agora é a única oficial de cartório a desobedecer a lei. Os Estados Unidos têm mais de três mil condados. E apesar de muitas pessoas desaprovarem o casamento entre pessoas do mesmo sexo, elas vêm respeitando a lei e se comportando na sua vida quotidiana normalmente.

O Ano Santo, o filme Grandma e o caso Davis realçam o fato de que religião, política, sexualidade e reprodução humana estão mais entrelaçados do que nunca. Neste meio, Francisco emerge talvez como o primeiro papa a lidar com problemas de gênero. Sua ênfase no perdão, no caso do aborto, também é uma outra posição de abertura quando a Igreja Católica prepara o Sínodo dos Bispos sobre a Família, em outubro.

Embora as primeiras notícias sugiram que o Sínodo poderá resultar apenas em uma reafirmação das tradições da Igreja, Francisco provavelmente usará o encontro, que presidirá, para liberalizar as práticas da Igreja no tocante à família, como autorizar os padres a darem a eucaristia para católicos divorciados e acolhendo os indivíduos divorciados em geral. 

Grupos liberais dentro da Igreja vêm insistindo numa abertura ainda maior em questões como o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a eliminação da exclusão oficial de gays da vida da igreja. Independente do caminho que a Igreja seguirá, enquanto Francisco ocupar o trono papal provavelmente continuaremos a presenciar o predomínio do amor sobre a rigidez da lei.

/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

KENNETH SERBIN É PROFESSOR TITULAR DE HISTÓRIA NA UNIVERSIDADE DE SAN DIEGO E AUTOR DE PADRES, CELIBATO E CONFLITO SOCIAL: UMA HISTÓRIA CULTURAL E SOCIAL DA IGREJA CATÓLICA NO BRASIL (COMPANHIA DAS LETRAS)

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