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O amor nos tempos da cólera

Alguém incapaz de retribuir o afeto que os cães nos dispensam de forma tão gratuita e espontânea será capaz de retribuir a dedicação que lhe é oferecida?

Christian Ingo Lenz Dunker , O Estado de S. Paulo

14 Fevereiro 2015 | 16h00

A máscara caiu. Na relação entre casais essa revelação do que está atrás das máscaras é uma pesquisa fundamental, que determina e mantém nossa forma de amar. O namoro ou o casamento são experiências que passam por várias reposições. Portanto, a máscara vai cair várias vezes. Quando isso não acontece, o amor acaba porque ficamos íntimos demais e não há estranhamento ou redescoberta. A máscara colou-se em nossas caras de tal forma que viramos um personagem um para o outro. 

Um casamento ou um namoro, especialmente quando mais longos, geralmente envolvem vários casamentos, cada qual com um regime de máscaras próprias: seja de carnaval, de bandido ou de médico. Uma relação é refeita ou reposta de tempos em tempos senão acaba, ainda que continue como um dia a dia funcional. Esses momentos não são sempre feitos de DRs (discussões de relacionamento). Muitas vezes acontecem em silêncio, em diálogos cruzados ou indiretos, às vezes de modo imperceptível aos dois participantes. Neles se colocam em pauta as condições que nos fazem amar alguém, as virtudes e os vícios mútuos, o que cada qual tira de si e do outro. É o significado dessa transformação que dá graça e sentido a uma relação, tornando o amor um bom companheiro para o desejo. Ao mesmo tempo ponderamos sobre os projetos que se tem pela frente e o desejo de renovar nossa ligação e compromisso com eles, mais além do que com a própria pessoa que será nosso parceiro. Geralmente saímos renovados desse encontro com a pessoa íntima, que por um curto período examinamos como se fosse um estranho. Mas às vezes esse processo termina pela descoberta de que esse estranho é também um inimigo que durante o processo se transformou ou revelou-se outra pessoa. 

A narrativa do caso das cachorras maltratadas sugere que o noivado se rompeu imediatamente depois da constatação das imagens. O amor se desfez de uma vez só, sem explicações, reparos ou segundas chances. Falamos muito do “amor à primeira vista”, mas são poucos os exemplos de “desamor diante da última imagem”, com exceção da cena em que se flagra uma traição. Por que a imagem de alguém maltratando um animal muda tão radicalmente nossa percepção de quem é essa pessoa? 

As reações da maior parte dos que opinam sobre o caso não é de que ele cometeu um erro - ainda que grave - que eventualmente poderia ser reparado, mas de que ele se tornou outra pessoa. A máscara, o disfarce, a vestimenta que ele exibia antes caiu, e no lugar dela emergiu a devastadora verdade de quem ele é, não apenas do que ele fez. Não penso que a gravidade unânime que atribuímos ao fato ou à força de verdade, capaz de destruir um amor, decorra do ocultamento, da mentira ou da quebra de confiança. Afinal, ele passou a morar com ela, dividir sua casa, mas não traiu essa confiança atacando Victoria e Gucci na ausência de Ninna. Penso que a raiz de nosso juízo sem volta venha da mesma fonte que afirma que quem não gosta de samba, criança ou animal, bom sujeito não é. Procede da mesma sabedoria que diz que para conhecer uma pessoa basta dar poder a ela. 

O momento que precede um casamento geralmente é cercado de muita angústia. Muitos casais escondem isso ocupando-se com os afazeres e as tratativas ou esperando que o futuro resolva a dúvida que nos assedia no presente. Nesse momento passamos a limpo a lógica de nossa vida amorosa. Não só a permanência ou intensidade do amor que se vive, mas sua qualidade e suas razões. Muitos dizem que um compromisso longo e incerto como um casamento exige muita vontade e muito amor, mas poucos se perguntam sobre a qualidade do amor necessário para a tarefa.

Quero crer que esse valor moral que atribuímos a quem respeita os animais e, inversamente, nossa aversão por quem os desrespeita venham do fato de que os animais são parte de nossas experiências formativas sobre o amor, das experiências que moldam e determinam nossa qualidade e aptidão para amar. Animais são parte de nossa forma de vida, da história de nossas famílias. Há, portanto, uma dívida simbólica de gratidão que o maltratador viola. Ou seja, alguém que não é capaz de retribuir o amor que os cães nos dispensam, de forma aliás tão gratuita e espontânea, será realmente capaz de retribuir o amor que eu terei a lhe oferecer? Está em jogo aqui não apenas o amor que temos pelo outro, mas pelo contrato que firmamos com ele, o amor às palavras, o amor aos outros que entram em nossa vida quando casamos com alguém, como a parentela, os amigos, os inimigos e assim por diante. 

Nossa relação com os animais repete, de maneira invertida, os cuidados que recebemos na primeira infância. Nós também fomos, no início, dependentes e desamparados e estávamos nas mãos de uma figura prestativa e generosa, mas que tinha todo o poder sobre nós. Nossa capacidade de sentir piedade vem daí. A irresistível combinação entre piedade, simpatia e acolhimento que a imagem de um animal “fofinho” desperta em nós, também. 

Contudo, esse é um amor de baixa qualidade e de grande aptidão à dispersão quando falamos em um projeto de longo prazo. Animais de estimação são como filhos. Mas filhos que não crescem, não resistem para ir à escola, não reclamam por autonomias adolescentes nem vão embora para a faculdade e se casam, nos deixando para trás. Portanto, quando nesse momento decisivo do noivado temos um ato de agressão ao representante de nossos filhos futuros, isso sugere fortemente: alguém assim não será um bom pai. Alguém assim pratica um amor avarento ou ciumento, pois não consegue transferir, ainda que em parte, o amor que sente por alguém para as pessoas ou animais que esse alguém ama. Está aí um amor que terá dificuldade para engendrar seu próprio futuro, porque desde a sua origem ele não se generaliza, não se irradia, não se transfere.

Com os animais de estimação, cada um revive essa forma de amar e ser amado que Freud descreveu como narcisismo. Nele se confunde o amar o outro e o amar a si mesmo através do outro. E muitas vezes essa confusão se infiltra e atrapalha decisivamente a vida dos casais. Quando alguém declara que ama os cães a ponto de ter dois ou sete deles em casa, isso não representa nenhuma contradição com o ato de maltratá-los. Tudo depende da qualidade do laço que se estabelece nesse amor. Muitos homens, que virão a agredir futuramente suas esposas ou namoradas, não estão mentindo quando declaram seu amor; eles apenas estão referidos a um amor de tipo mais simples, que será exposto e degradado em ódio, ciúme ou agressividade diante das tarefas e desafios de uma vida comum. 

Quando amamos nossos cães, nossos filhos ou nossas mulheres como a nós mesmos, podemos chegar a maltratá-los da pior maneira. Daí a importância de amar o outro, conferindo algum espaço para o fato de que ele é um estranho, alguém diferente de mim. O amor não é garantia nem de si mesmo nem do desejo que ele deve habilitar. Isso vai aparecer na relação com os animais, como uma espécie de raio X das nossas formas de amar. Quem trata seus animais como uma parte de si mesmo, humanizando-os realmente como filhos ou brinquedos, chamando-os de nenê, por exemplo, pode estar indicando uma forma mais simples e narcísica de amar. Se quando as coisas acabam é que descobrimos do que elas eram feitas, o efeito verdade, que a descoberta da violência provoca, dissolvendo instantaneamente o amor entre os dois, pode acontecer pela percepção de que, com um amor desse tipo, serei eu a próxima vítima. 

O momento de escolha ou de reescolha, quando paramos para perguntar “quem é esse com quem dividimos nossa cama e nossa intimidade”, é também e necessariamente um momento de estranhamento. Uma espécie de janela temporal subjetiva na qual colocaremos na balança de um lado uma escolha de predominância narcísica, onde escolho principalmente amar-me através do outro, e de outro lado uma escolha que está determinada pelo outro, quem ele é e o que ele faz, em relativa independência de nós. Talvez tenha sido nesse ponto que o estranhamento simbólico, necessário para o processo de escolha, tenha se sobreposto ao acontecimento real de uma decepção que toca os horizontes futuros dessa mesma escolha. Se a escolha narcísica gira em torno de “você me ama e eu te amo”, tendemos a recolocar essa pergunta indefinidamente. A escolha pelo desejo com o outro conclui esse capítulo e abre uma nova pergunta: agora que nos amamos, o que vamos fazer com isso? Que mundo e que sonhos vamos conquistar juntos? Muitos casais fogem desse ponto de reescolha com medo de que, nessa hora, venham a descobrir que estão dormindo com seu inimigo íntimo.

CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER É PSICANALISTA E PROFESSOR TITULAR DO INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA USP

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