O Anselmo argentino

O Anselmo argentino

Documentos apreendidos no sítio do cel. Malhães revelam táticas do agente Mario Maldonado, que, como o ‘cabo’ infiltrado brasileiro, ajudou a liquidar a guerrilha esquerdista em seu país

Wilson Tosta / RIO, O Estado de S. Paulo

29 Novembro 2014 | 16h00

Foi uma longa e involuntária confissão de delação, talvez a maior de um ex-agente da repressão política na história recente da América Latina. Foi escrita em espanhol por um ativista do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) e de sua frente militar, o Exército Revolucionário do Povo (ERP), organizações da esquerda argentina extintas há mais de 25 anos. Emerge de papéis encontrados na casa do coronel Paulo Malhães, morto em abril no Rio. Mostra que o recrutamento frouxo, segurança falha e entendimento delirante da realidade por parte dos ativistas auxiliaram o autor - em sua missão secreta. Desde o começo da militância, ele era um infiltrado do Exército da Argentina na esquerda. Em 35 páginas, conta cenas do fracasso da guerrilha e do sucesso da infiltração que ajudou a matá-la.

Malhães, um dos mais notórios integrantes do Centro de Informações do Exército na ditadura brasileira, foi assassinado após depoimentos contraditórios a jornais e às Comissões da Verdade Nacional e do Rio. Falou de Rubens Paiva, torturas, desaparecimentos. Contou ter dado aulas de repressão a argentinos. Em seu sítio, na Baixada Fluminense, deixou relatórios das Operações Gringo e Caco, de militares do Brasil e focadas em refugiados argentinos no Brasil e em brasileiros. Os dossiês foram recolhidos pela Polícia Federal. Em um deles estão as páginas escritas pelo infiltrado - que se identificava como Mario Maldonado. Mostram como se passava por militante dedicado para subir na hierarquia do grupo e delatar de maneira mais eficiente.

O presidente da Comissão da Verdade do Rio, Wadih Damous, disse ao Aliás que, em seu depoimento, Malhães conta que seu principal trabalho era infiltrar agentes nas organizações de esquerda. Daí, talvez, seu interesse pelos métodos de ação de Maldonado. 

“Era preciso ser o melhor entre eles (os militantes) para ir escalando posições dentro da organização”, começa o infiltrado no Informe sobre el PRT de Argentina y mi Actividad dentro de él, de 7 de novembro de 1979. “No meu caso pessoal, comecei meus estudos secundários em 1968 e um ano depois era eleito presidente do centro de estudantes de meu colégio. Apesar de todas as tendências procurarem meus serviços, por uma característica pessoal de independência me mantive à margem delas, mas em contato com todas”, escreve Maldonado.

Personagens como o argentino circularam pela América Latina nos anos 1970. Eram agentes de inteligência audaciosos, vocacionados para a infiltração, a dissimulação e o blefe. Militantes exemplares, transitavam entre as organizações sem gerar suspeitas, ou driblando-as. No Brasil, o mais famoso foi o ex-marinheiro José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, que ajudou a destroçar a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Um agente cujo sangue-frio lhe permitiu, numa reunião no Chile, pôr a arma na mesa e desafiar. “Se alguém acha que sou traidor, me execute agora”. 

O incidente foi encerrado pelo ex-sargento Onofre Pinto, da VPR, que o abraçou e desfez a tensão. Pinto, conhecido como Negro Onofre, depois entrou para as listas de desaparecidos. Antes, acreditara em outras mentiras do infiltrado. Até lhe repassara parte do dinheiro obtido no roubo do cofre de Adhemar de Barros, ocorrido em 1969.

O agente argentino não conta nada semelhante, nem dá muitos detalhes sobre sua entrada na repressão, ainda antes da ditadura decretada pelos militares em 1976. Mas mostra como foi dissimulado em sua ação. Quando recrutado, a Argentina vivia um tempo conturbado, que seria marcado pela volta do exílio, em 1973, do presidente Juan Domingo Perón (1895-1974) e levaria ao golpe de 1976. O delator conta que, estudante, recebeu em 1972 proposta para trabalhar para o Serviço de Inteligência do Exército argentino, “apesar de ter apenas 16 anos, sem pedir nenhum salário”.

O cenário era um Cone Sul que aos poucos era tomado por ditaduras militares de direita, baseadas na tortura. Foi assim com Brasil (a partir de 1964), Uruguai e Chile (1973), Argentina (1976). O Paraguai era um regime ditatorial desde 1954. A inspiração ideológica desses governos era a Doutrina de Segurança Nacional, gerada nos Estados Unidos no início da Guerra Fria. Nela, eram básicos os conceitos de “guerra revolucionária” e “inimigo interno”. Ambos transformavam em alvo movimentos populares, sindicatos, mobilizações. Nesse ambiente, surgiria a Operação Condor, de colaboração entre os países na repressão.

“Começo ingressando na Frente Estudantil Secundarista Anti-imperialista Revolucionária (Fesar), que era um agrupamento semilegal do PRT da minha cidade. Em pouco tempo, me propõem entrar para o Partido; colocam-me em um comando da Frente Secundarista, que tinha relações com comandos da Frente Militar e desenvolvia tarefas de apoio à ação do ERP.”

O PRT-ERP era um bicho estranho na fauna da esquerda, um caso peculiar de guerrilha trotskista, endêmico da Argentina. O infiltrado dedica parte do relatório a contar a trajetória do grupo, surgido da fusão de duas correntes. Uma era o Poder Obrero, de Nahuel Moreno (1924-1987), forte em Buenos Aires e Córdoba. Outra se chamava Frente Revolucionária Indoamericana Popular (Frip), cujo principal dirigente era Mario Roberto Santucho (1936-1976). Suas bases eram no norte, sobretudo, Tucumán. Em 1966, as organizações juntaram-se no Frip-PO. Dois anos depois, o agrupamento tornou-se o PRT. Em 1970, criou o ERP.

Inicialmente, o grupo limitou sua atuação “militar” a mandar quadros para Cuba. Moreno e seus seguidores saíram em 1972. Fundaram o PST. Durante breve período de atuação não clandestina antes do golpe, segundo o delator, o PRT chegou a crescer 600%. Sua imprensa se expandiu: El Combatiente foi de mil para 10 mil exemplares; Estrella Roja, de 2 mil para 15 mil. O PRT tinha até um diário, El Mundo, segundo ele. O PRT-ERP, porém, mergulhou na luta armada e na clandestinidade. O processo o conduziu à derrocada.

“Em meados do ano (1972), sou recrutado para um comando da frente militar, que compartilho com três militantes ‘de primeira hora’ do PRT”, relata. “Sou promovido à categoria de aspirante (...) Com a libertação dos presos políticos, é enviado a minha regional, como responsável militar, o Capitão Diego e sua mulher, apelidada La Osa (...) Aqui muda a situação, pois os velhos dirigentes são mandados para trabalhar em fábricas e os novos, entre os quais me encontrava, retirados de nossas respectivas tarefas (estudo, trabalho, etc.) para passarmos a ser profissionalizados.”

O novo comando do ERP denominado Jorge Alejandro Ulla, do qual participava o infiltrado, começou a realizar duas operações semanais, conta ele. Eram assaltos a transportadoras de leite para distribuir o produto do roubo em bairros pobres, explosões em empresas estrangeiras, incêndios em casas de empresários, roubos de armas em unidades de polícia, pichações.

“O comando era integrado por Jorge Erbetta, codinome Matacava, atualmente detido; Héctor Castro, codinome Pablo, detido; Eduardo Giménez e Julio Talín, deixados livres, pois era preciso dar cobertura à minha liberdade (...)”

O infiltrado conta também ter passado pela Escola de Quadros do PRT, em curso de 15 dias. Depois, foi promovido a militante (para integrar o partido, era preciso passar pelos degraus de simpatizante e aspirante). A confiança que o agente conquistou no grupo era tanta que recebeu a missão de levar a Buenos Aires as fichas pessoais que, estranhamente, a organização tinha de seus membros. Ali estavam todos os dados dos integrantes da legenda, menos o nome. “Tornou-se simples para nosso Serviço”, conta o delator.

Aqui, diz, sua presença na regional em que espionava estava “estrangulada”. Mas surgiu “um novo horizonte”. Era a Juventude Guevarista (JG), frente dos jovens do PRT, para a qual foi enviado. Tornou-se membro de sua Mesa Nacional.

“Graças a esse novo posto, conheço dirigentes nacionais e três membros do Birô Político: Mauro Gómez, Gorriarán Merlo e o próprio Santucho. Esperamos a grande reunião (...) Chega a minhas mãos a lista de todos os militantes dessa frente, pelo que se resolve ‘criar-me um atentado’ para que passe a outra regional”, conta. “Metralha-se minha casa e o caso repercute, pois meu pai é um conhecido empresário em minha cidade, e minha namorada, filha do presidente da Bolsa de Comércio. A Direção Regional (DR) decide mandar-me para Buenos Aires.” Santucho seria morto a tiros, anos depois.

Depois de passar pela capital argentina para tarefas na Direção Nacional do PRT, o agente foi a Tucumán para treinamento de 20 dias com a Companhia de Montanha do ERP. A Polícia Federal invadiu a casa onde estava, mas permitiu que fugisse com outro militante. Pouco depois, a mesma PF o prendeu, mas o liberou no dia seguinte, sem que o PRT soubesse. O partido então o enviou para o 5º Congresso da Frente Anti-imperialista para o Socialismo (FAS), um dos braços legais ou semilegais do PRT-ERP, em Rosário, como representante da delegação da Regional Buenos Aires da Juventude Guevarista. Maldonado parece divertir-se com a aura de militante padrão.

“Depois do congresso, volto a Santa Fé, para tomar posse da DR da JG e para me integrar como convidado ao Estado-Maior Regional do ERP. Como dirigente da JG, sou responsável pela Zona Norte, que é mencionada como exemplo em um boletim interno do PRT”, ironiza.

Em 7 de julho de 1974, o agente foi novamente detido pela PF, que dessa vez parecia não saber que era infiltrado. Liberado no dia 13, poucos dias depois foi ameaçado em jornais da Aliança Anticomunista Argentina (Triplo A). Ironicamente, a organização de extrema direita acreditou no personagem: sequestrou-o e torturou-o.

“Ante o rumo que iam tomando os acontecimentos, meus superiores deram por encerrado esse meu trabalho, de quase três anos, e lançamos a repressão que em menos de um dia acabou com a Regional Santa Fé do PRT, incluindo sua DR”, conta. “Sobre uma lista de 150 pessoas que tínhamos feito, foram detectadas, entre detidos e mortos, 147 delas, sobrando somente eu mesmo e um casal que conseguiu fugir, mas que foi localizado na França.”

Em 1976, infiltrou-se na Organização Comunista Poder Obrero (OCPO). “Esse caso foi diferente, pois era só para detectar a infiltração deles na Empresa EnTel (...) e na Empresa Fate (...), que terminou com a detenção de todos os membros do setor, mais os dados provenientes dos interrogatórios”, orgulha-se. 

No informe Sobre Actividades Desarrolladas en Brasil, de 30 de junho de 1979. o infiltrado cita nomes de refugiados ligados ao MIR chileno, aos Montoneros argentinos e aos Tupamaros do Uruguai, na capital paulista. “Fiz contato com um tal ‘Juan’ ou ‘Caña’; foi membro do PRT (...) ativista de Luz e Força, na Regional Córdoba. Não obstante, na maior parte da sua militância, esteve na Frente Militar, onde chegou a conquistar o posto de tenente (...) O Tenente Caña integrou a Companhia de Montanha do ERP, intervindo, entre outros, no Combate de Manchalá (...) Participou do assalto ao quartel da cidade de San Lorenzo, na Província de Santa Fé.”

Em 12 de setembro de 1979, em reunião em São Paulo, conta, Caña afirmou ser impossível a generalização da infiltração em níveis importantes (...). O infiltrado conta que o “tenente” manifestou que o PRT não podia ser infiltrado (...)” e assinala sua surpresa com essa convicção. 

Cerca de 5 mil militantes do PRT-ERP integram listas de 30 mil mortos e desaparecidos na ditadura argentina, de 1976 a 1983.

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