ALÉCIO CEZAR
ALÉCIO CEZAR

O bagre sou eu

‘Que direito eu tenho de temer algum risco ao meu corpo, senão para expor toda essa lama?’, escreve artista que entrou no Tietê

Flavio Barollo, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2015 | 19h42

Uma pessoa entrou no Rio Tietê. Que sociedade é essa que se comove com uma pessoa entrando num rio? Aqui em São Paulo, pânico. O primeiro pensamento é que ela pode morrer. Ou na melhor das hipóteses: contaminação pelos orifícios ou micose na pele.

O mergulho na verdade foi um não-mergulho. A proposta era que eu não entrasse em contato com a água. Superprotegido para a ação artística do projeto Vidas Secas SP. Como se eu não estivesse lá dentro das águas. Lá não cabe a vida, é apenas um território habitado por bosta. Não há outra palavra para descrever o lugar, por mais nojo que o leitor possa ter. Talvez um aquário de dejetos, como diz a música homônima de Zimbher, membro do nosso coletivo: “Sangue segue em veios que agora são retos. Veias fétidas, aquário de dejetos. Sociedade asséptica”.

Eu pisei em lama, caminhei por águas turvas. Desviando de um burrinho azul, uma boneca, um triciclo, um sapatinho de criança, uma flor e uma espuma monstruosa e lúdica, que fazia bolinhas de sabão ao vento. Quantas infâncias perdidas às margens deste rio?

Ali está nosso material de decomposição, de transmutação. Lá eu vejo boiando toda nossa história e realidade. Lá estamos nós. E um bagre morto, único peixe que ainda insiste em viver naquelas águas. Algumas capivaras, cachorros e até seres humanos (pasmem!) que vivem ali.

No espelho achado no fundo das águas, refletimos a nós mesmos: o grande fracasso da sociedade, a falência do homem e o gargalo do sistema. Em plena cidade de São Paulo, a mais rica cidade da América Latina, a maior, mais tecnológica, mais avançada, mas com suas dezenas de rios apodrecendo dentro dela. Fedendo. Como alguém pode achar que está tudo certo com nosso modo de vida? É uma evidência claríssima da nossa inoperância. Somos um projeto de ser humano fracassado, falido. Encaremos o fato.

E quando pego um peixe vivo dentro de um saco boiando lá nas margens, logo depois de ter pegado nas mãos um peixe morto (o bagre), naquele momento me emociono com a vida. A mesma emoção que sinto com a aniquilação dos indígenas. Os maiores sábios da lida com a natureza. 

Parece que de fato nós é que somos a bosta. Alguém pode até não concordar, mas eu provei a teoria in loco, eu entrei no rio. Quem quiser, recomendo o mergulho, está lá pra todo mundo ver. Eu vi. Nós estamos borbulhando naquele rio. Estamos boiando lá. Ao entrar no rio, descobri um pouco quem somos nós. Como escreveu Karen Menatti, em seus pequenos contos para o nosso projeto: “O rio. Reflete a mim. Nojo do rio. O nojo sou eu. Se o rio nos reflete sou então eu mesmo encharcado da podridão mais fina. Da flor podre de minhas entranhas”.

Voltando ao ato do Mergulho no Rio Tietê, queria salientar que entrei todo equipado. Era uma roupa de saneamento, impermeável, com botas e luvas acopladas, sem contato com as águas poluídas. Tudo para que meu mergulho não-mergulho fosse seguro; garantia da loja da Florêncio de Abreu que me vendeu rapidinho e passou pra frente.

A ação já me parecia até familiar. Uma adrenalina boa. Mas por ironia, o rio foi mais forte que o homem. Minha roupa infalível furou na região da virilha, a água desceu até a perna. O homem criou a roupa impermeável, mas fracassou na sutileza da costura. Tive contato com a bosta por alguns momentos. Tive que sair de lá de dentro e colocar outra roupa menos protegida. Um macacão de pesca até a cintura, uma capa de chuva impermeável e luva por cima da capa. Mas ai está o grande furo: tive que enfiar a mão na água para pegar os objetos, e a água entrava pela luva. E eu tinha cortes nas mãos. “Bactérias poderiam invadir o meu corpo”, todos diziam. Risco. 

Sobre o risco, reflito agora. Que risco maior do que viver num mundo tão massacrado, fome, guerra civil, preconceito, intolerância, fanatismo, vidas sem dignidade, moradores de rua. Devastação da natureza, da Amazônia. Desertificação do humano.

Que direito tenho eu de temer algum risco ao meu corpo, senão para expor toda essa lama? Que risco eu corro? O risco de morrer?

Quero mergulhar no Rio Tietê. Quero nadar nesse rio. Quero confraternizar nesse rio. Quero que ele seja um rio de fato!

Como bem disse Rogério Tarifa na sua performance do dia: “Quero gritar. Mas nada do que sou sei se realmente é. Comi tudo e perdi os dentes. Frente ao rio”.

Desejo que a natureza reaja, se revigore, se regenere. Engula os bilhões desperdiçados pra despoluir esse rio e a catástrofe da gestão da crise hídrica. Hecatombe das ganâncias. Que a sabedoria da natureza supere a estupidez do ser humano imediatista. Busquemos a utopia.

Corro riscos porque paradigmas precisam mudar. Sem medo. Enxergar um novo modo de vida. Seja através da permacultura, cisternas, placas solares, banheiro seco, tratar o esgoto, lidar com as nossas fezes, agir! Achei que uma ação mais radical precisava ser feita. O bagre sou eu.

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