O cais das almas sem refúgio

Primeira negra da política da Itália, congolesa diz que medo não é resposta que se dê a estrangeiros

Entrevista com

Cécile Kashetu Kyenge

Carlo Cauti,

31 Maio 2014 | 16h00

“Eu sou da cor daqueles que são perseguidos.” A frase de Alphonse Marie Louis de Lamartine, poeta francês do século 19, se tornou o lema de engajamento de uma política contemporânea. Falamos de Cécile Kashetu Kyenge, ex-ministra da Integração da Itália, primeira mulher negra da história a integrar o governo italiano, recentemente eleita deputada europeia.

Nascida em 1965 no vilarejo de Kambove, na República Democrática do Congo, Cécile deixou seu país em 1983 rumo à Itália, onde, depois de vários percalços, se formou em medicina. Seu percurso político começou nos anos 1990, defendendo os direitos dos primeiros imigrantes que desembarcavam na Itália. Eleita pela primeira vez em 2004 como vereadora da cidade de Modena, na região da Emília Romanha, pelo Partido Democrático (PD), se tornou conhecida por suas batalhas ao lado dos imigrantes. Em 2013, o então primeiro-ministro italiano Enrico Letta a nomeou ministra da Integração. 

Ocupar um cargo governamental tão delicado, num momento em que o país enfrentava (e enfrenta) desembarques quase cotidianos de refugiados na ilha de Lampedusa, foi um batismo de fogo duríssimo. Os governos italianos de centro-direita, liderados por Silvio Berlusconi, tentaram conter o fenômeno com políticas repressivas. Uma receita totalmente errada, segundo Cécile. 

Em entrevista ao Aliás, a ex-ministra italiana explicou como a atitude ideal não é a securitária, mas sim uma política que aponte para a integração do imigrante na sociedade italiana. Atacada violentamente por partidos xenófobos e de extrema direita por pensar assim, ela se tornou alvo de insultos racistas. Já foi chamada de “orango” por um senador da Liga Norte, já viu bananas sendo jogadas em sua direção durante um discurso. Afrontas constantes aos quais Cécile decidiu não responder, fiel aos seus ideais de luta política não violenta. Mas ela não esconde que gostaria de ver esses “irresponsáveis políticos” punidos pela Justiça italiana.

A senhora sofreu ataques racistas quando chegou à Itália? Ou encontrou um ambiente acolhedor?

As dificuldades às vezes apareciam, mas nos anos 1980 existia certa curiosidade por parte dos italianos com o fenômeno da imigração. Foi a partir dos anos 1990 que começou o racismo. Naquela época a Itália passava por dificuldades econômicas e ao mesmo tempo se convertia de país de emigrantes para país de imigrantes. Infelizmente, essa passagem ocorreu sem nenhum tipo de orientação. A coalizão de partidos de centro-direita, liderada por Silvio Berlusconi, chegou ao governo graças ao apoio do partido xenófobo e racista da Liga Norte. Pessoas como Umberto Bossi e Roberto Maroni foram nomeados ministros, pessoas que propuseram leis restritivas à imigração sem entender que aquele era um período delicado, no qual o povo italiano tinha de ser acompanhado com instrumentos de mudança cultural. Fizeram o contrário. Utilizaram o fenômeno da imigração para obter votos. Isso funcionou no começo, porque basearam suas campanhas no medo, apavorando os eleitores sobre uma potencial invasão de imigrantes. Esses conceitos têm um impacto forte quando as pessoas não entendem um fenômeno novo. Quem governa deveria também educar, e isso não foi feito naquele momento. A situação se transformou em discriminação e racismo, e a responsabilidade política dessa passagem é da Liga Norte, partido que sem discriminação e sem racismo não existiria. 

Seu engajamento político começou nessa época?

Minha atividade política começou depois, menos por causa da mudança cultural e mais devido a uma mudança pessoal. Até 1990 meu objetivo era voltar ao Congo e trabalhar como médica. Mas num certo ponto vi que tinha ligações afetivas muito mais fortes com a Itália. Quando voltava para o Congo eu não me encontrava mais. Claro, as dificuldades políticas e a instabilidade de lá influenciaram minha decisão de ficar na Itália. O fato é que, a partir dessa percepção, mudei de cidade, comecei a me engajar politicamente, me ocupando de muitos temas sociais, especialmente dos direitos dos imigrantes. Casei com um italiano, tive duas filhas e obtive a cidadania italiana. Foi um grande percurso interior somar as tradições de um país e os pensamentos de outro. As experiências que uma pessoa teve não desaparecem somente porque ela muda de passaporte. Elas permanecem e enriquecem a alma. Essa é uma mudança que muitos migrantes deveriam fazer. Aceitar sua vida de imigrante significa aceitar sua condição de imigrante. É necessário chegar a eesse ponto porque senão, depois de vinte anos vivendo num país novo, as pessoas não conhecem o lugar onde moram, não conhecem os próprios direitos, não conhecem a posição social que ocupam porque vivem projetados no passado. 

Teve problemas em trabalhar como médica na Itália?

Somente obtive a cidadania italiana após casar. Antes disso era uma imigrante e não podia trabalhar como oftalmologista - minha especialização - em hospitais do país. A lei da época o proibia. Em 2013 as coisas mudaram graças ao governo de Enrico Letta. Quando eu era ministra trabalhei para modificar essa lei e agora estrangeiros também podem exercer a medicina na Itália. Isso deixou muitas pessoas furiosas. Elas me acusaram de abrir as portas para os imigrantes e roubar o trabalho dos italianos. Na realidade, apenas alinhei a Itália a uma lei da União Europeia, que o país é obrigado a respeitar. 

Quais foram os maiores resultados do governo Letta e suas maiores conquistas como ministra nesse tópico imigração?

Apontar uma mulher que nasceu no exterior e que se tornou cidadã italiana como ministra da República foi algo de dimensão histórica. Uma forma de explicar definitivamente a mudança da composição da população da Itália. Uma Itália terra de imigração, e não mais um país de emigrantes. Segundo ponto: fui nomeada para lidar com um tema tão importante como a integração não para desenvolver uma política securitária, mas uma política que vise a acolher os imigrantes. Minha maior conquista como ministra foi colocar no centro da reflexão da opinião pública o Ius Soli, o direito de obter a cidadania italiana no ato de nascimento no território italiano. Outra coisa: propus que os filhos de imigrantes que nasceram aqui, ou que chegaram quando muito pequenos, devem ter as mesmas oportunidades de ensino dos italianos. Por causa dessa proposta, recebi inúmeras acusações. Mas toda essa gente que gritava sobre a invasão de imigrantes pensou sobre o assunto. Não era mais um tema escondido. Além dos insultos, recebi parabéns de vários setores da sociedade civil, especialmente do mundo empresarial, que precisa de trabalhadores estrangeiros. Minha proposta foi bem recebida também no mundo do esporte e em outros setores. Só foi difícil explicá-la para o cenário político. Aliás, para uma parte da política, a direita. 

Como já mencionou, a senhora foi insultada por muitos políticos. Destaco o vice-presidente do Senado, Roberto Calderoli, um dos líderes da Liga Norte, que a chamou de “orango”. O que a senhora acha desses ataques?

Acho que essas pessoas devem ser punidas de forma muito severa. Não podemos aceitar que quem decide fazer política ativa faça afirmações desse tipo. Quem quer ser político tem um papel de educador, e isso começa com o respeito pelos outros. Para proteger os que não têm condição de se defender sozinhos, o governo e as instituições devem atuar para realizar uma mudança cultural. E nesse ponto há muito a fazer. Pessoas como Calderoli e seus muitos colegas continuam nas posições que ocupavam antes que pronunciassem essas agressões. Chegaram a se desculpar verbalmente, nada mais. Sabem que isso não dá em nada e acabam até se tornando famosos porque atacaram a Kyenge. Depois a questão desaparece. Minha página no Facebook e meu perfil no Twitter estão cheios de insultos. Mesmo agora que não sou ministra, eles continuam infinitos. 

Mais que as agressões desses políticos, não lhe parece preocupante a existência de uma base eleitoral para eles? Esses partidos xenófobos, não somente italianos, aparecem liderando pesquisas de intenção de voto para as eleições europeias, como o caso da Frente Nacional de Marine Le Pen, na França. 

Os xenófobos são uma minoria que faz muito barulho. Quando vou aos territórios, vejo outra realidade: uma maioria de pessoas acolhedoras, mas que não têm voz para mostrar suas ideias. Infelizmente, um escândalo repercute mais que uma fala “normal”. Agora é verdade que partidos populistas estão aumentando, mas porque existe uma situação real de mal-estar social na Europa. É necessário repensar a política econômica europeia em termos de distribuição das riquezas. Existem ricos que ganharam seu dinheiro honestamente, mas existem os que chamo de “malandros”. A Europa hoje é um bolo de 11 pedaços. Dez são tomados pelos malandros e o que sobra vai para o resto da população. E dessa pequena fatia o malandro ainda fala: “Cuidado, os imigrantes querem roubar essa parte também”. 

Nos últimos meses se multiplicaram as chegadas dos barcos de imigrantes em Lampedusa. O governo italiano e a União Europeia estão fazendo o suficiente para gerir essa emergência?

Essa é uma questão política e como tal deve ser enfrentada. A Liga Norte esbraveja que a Europa deixou a Itália sozinha na gestão da emergência da imigração. Mas a própria Liga Norte passou os últimos anos propondo o fechamento das fronteiras. Hoje a Europa tem uma lei que permite aos imigrantes pedir asilo no primeiro país onde desembarcam - no caso, a Itália. Entretanto, por causa de falhas na lei europeia, os imigrantes acabam bloqueados lá. Quando a Liga Norte e Berlusconi estavam no poder, não negociaram esse ponto. Devemos levar a questão a um nível europeu, com uma forte política externa e uma gestão unitária da imigração. Quero salientar a missão da Marinha Militar da Itália chamada “Mare Nostrum”, que tem como objetivo resgatar os imigrantes encontrados em barcos em alto mar. A “Mare Nostrum” já salvou mais de 5 mil pessoas, prendeu mais de 200 traficantes de homens e é integralmente financiada pela Itália. Mas hoje não é mais possível que somente a Itália sustente essa missão. A Europa deve reconhecer suas fronteiras do sul como fronteiras de toda a União Europeia, e não como fronteiras de um só país. 

A seleção de futebol da Itália traz muitos jogadores nascidos no exterior ou filhos de estrangeiros, como Balotelli. É um sinal de que a sociedade italiana está mudando?

Preciso parabenizar o técnico Prandelli. O time é um exemplo de integração. Nos ajuda a passar por meio da imagem a mensagem que estamos levando adiante política e tecnicamente. Aproveito para lançar um apelo para que do Maracanã comece uma campanha de sensibilização contra o racismo. Gostaria que, depois do Hino Nacional, jogadores e torcedores se unissem e comessem uma banana. Seria a felicidade dos vendedores da fruta, e seria, ao vivo, um belo sinal para o mundo inteiro. Um chute contra o racismo. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.