O desafio do bem-estar

Se todos os habitantes da Terra chegassem ao confortável consumo de energia dos americanos haveria mais 15 EUAs e a temperatura subiria 4°C

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

18 Outubro 2014 | 16h00

A Nasa anunciou recentemente que o último mês foi o setembro mais quente da história. 2014 será também lembrado por secas recordes em São Paulo e na Califórnia. Eventos extremos como esses, além do furacão Sandy, na costa leste americana em 2012, são fenômenos climáticos mais frequentes e têm sido incorporados à análise científica do aquecimento do planeta. 

Um novo estudo publicado no Boletim da Sociedade Americana de Meteorologia apresenta o elo de causalidade entre as emissões de monóxido de carbono pós-Revolução Industrial e o aumento da seca na Califórnia, o maior produtor da agricultura americana. Liderado pelo professor Noah Diffenbaugh, da Universidade Stanford, o estudo utiliza análise histórica e modelos matemáticos para apontar um futuro de mais secas e mais perdas econômicas no Estado. Só este ano, a Califórnia enfrenta um prejuízo de US$ 2,2 bilhões na agricultura e a perda de 17 mil empregos sazonais e de meio expediente entre trabalhadores rurais. 

No caso da Califórnia, há um fenômeno regional de alta pressão atmosférica no nordeste do Pacífico que tradicionalmente bloqueia as chuvas. Mas o professor Diffenbaugh diz que seu modelo, somado ao conhecimento científico de condições regionais específicas, teoricamente pode ser aplicado a outra regiões e o mesmo Boletim da Sociedade Americana de Meteorologia apresentou conclusões sobre fenômenos extremos na Índia. “É muito importante estudar esses fenômenos da meteorologia, determinar sua raridade no contexto das condições antes e depois do aumento das emissões de monóxido de carbono”, diz ao Aliás o cientista.

Diffenbaugh gosta de comentar que seus amigos o consideram um downer, mensageiro de más notícias. Mas ele garante que é um otimista. “Quem acredita em termômetro tem que acreditar no aquecimento do planeta”, costuma dizer no país onde a direita política despreza a ciência do clima. “A janela ainda não foi fechada”, continua. “É uma abertura mais estreita, mas ainda podemos desviar nosso curso para um futuro de uma economia livre de emissões de carbono nos próximos 50 anos.” O cientista acha que, se os países se submeterem aos limites impostos pela Organização das Nações Unidas, de aquecimento abaixo de 2°C, seu otimismo será justificado.

Se nada mudar, o cenário é de aquecimento de 4°C, algo sem paralelo nos últimos 65 milhões de anos ou quando os dinossauros desapareceram. Nesse cenário, regiões mais quentes teriam verão tórrido o ano todo, várias espécies de plantas e animais não poderiam sobreviver e delicados ecossistemas desapareceriam.

Diffenbaugh não gosta de falar de política, nem mesmo de seu governador, que decretou “áreas de desastre natural” em 58 municípios na Califórnia, embora ainda não tenha declarado o estado de seca que vem com um emaranhado de implicações estaduais e federais. Mas Jerry Brown, que concorre tranquilo à reeleição no dia 4, não pode evitar seu papel protagonista em uma das piores secas registrada em seu Estado, nem tenta convencer a população de que a situação está sob controle. Se não tivesse 76 anos, Brown talvez pudesse ser recrutado por caciques democratas para a campanha presidencial de 2016. Vejamos: ele se elegeu em 2010, no ano em que Obama tomou uma surra dos republicanos nas eleições intermediárias. A Califórnia, cuja economia é do tamanho da do Canadá, tinha um déficit de US$ 25 bilhões, que ele, com apoio dos eleitores para aumentar impostos de quem ganhava mais de US$ 1 milhão por ano, entre outras medidas, transformou num superávit de US$ 3 bilhões. Brown está em sua segunda encarnação política. Na primeira grande seca que enfrentou, em 1977, pediu aos californianos para cortarem 25% de seu consumo de água, sem oferecer recompensa em dinheiro. Reduziu a pressão do próprio chuveiro e passou a fazer coletivas com um copo d’água, não uma garrafa, na mesa.

Uma seca é um teste interessante de liderança. É um desastre que se move aos poucos e, dependendo da colaboração de São Pedro, pode esconder ou expor a competência de governadores para administrar a escassez de recursos hídricos. “Governadores não podem fazer chover”, lembra Jerry Brown, enquanto estuda os próximos passos do governo. Mas governadores podem liderar.

O problema do aquecimento do planeta, lembra o cientista Noah Diffenbaugh, é que nenhum país pode viver numa bolha de virtude ambiental. As consequências são compartilhadas igualmente por quem toma medidas antipoluentes e quem deixa rolar. Mas ele vê no norte da Califórnia um laboratório de combate ao efeito estufa e cita áreas relevantes de transformação: “Temos tecnologia e pesquisa para inovar em questões como infraestrutura urbana, comportamento e design, técnicas de agricultura”.

O professor de Stanford não tem resposta para o que considera o desafio maior: a privação de energia que afeta 85% da população do planeta. 

Se todos os habitantes da Terra atingissem o nível de consumo energético dos americanos, lembra, teríamos mais 15 Estados Unidos e o cenário assustador do aumento de 4°C. “Acesso à energia aumenta o acesso ao bem-estar”, lembra Diffenbaugh. “Não é justo pedir aos 85% que abram mão do bem-estar desfrutado pelos 15%.” Esse é, para ele, o maior desafio da ONU e da comunidade internacional.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.