O dia em que encontrei meu pai

O dia em que encontrei meu pai

Luiz Ruffato, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2014 | 16h00

:::MUNDO REAL::: Esta ficção foi baseada nos seguintes fatos de 2014: No dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, a Comissão Nacional da Verdade entregou o relatório final sobre crimes cometidos durante a ditadura militar no Brasil. Depois de dois anos e sete meses de trabalho, a comissão confirmou 434 mortes e desaparecimentos entre 1964 e 1985. Também nominou 377 responsáveis por violações de direitos humanos na ditadura e recomendou que eles respondam judicialmente por seus atos, assim como que as Forças Armadas reconheçam institucionalmente sua responsabilidade nesses crimes.

Para Marieta Boimel

Minha mãe não acreditou quando eu disse que havia encontrado com meu pai. Primeiro, ela riu nervosa, esfregando o dedão esquerdo com a mão direita, jeito dela de mostrar aborrecimento. Depois, como insistisse, ficou brava, o rosto vermelho, me agarrou pelo braço e apontando o fura-bolo na minha cara começou a gritar que não fora assim que me criara, não devia mentir, ainda mais sobre um assunto daqueles, e, como continuasse a insistir, passou a me chacoalhar, descontrolada, achei que ia me bater, ela, que nunca me dera nem mesmo um beliscão. De repente, me abraçou forte, chorando, e perguntou, baixinho, entre soluços, Onde, meu filho, onde tu viste ele? Onde encontraste teu pai?

O problema é que minha mãe sempre me achou invencioneiro. Essa palavra só ela usava, invencioneiro. Ela chegava do grupo escolar onde dava aulas de manhã, requentava a comida e me esperava para almoçarmos juntos. Quase sempre quieta, me interrogava olhando o relógio, e saía afadigada para dar aulas particulares, emendando com um curso na PUC à noite. Eu ficava sozinho em casa. Gostava de ler gibis deitado no chão da sala, de bunda para cima, esquecido de tudo, ou então de pegar régua, lápis e borracha e, esparramado na mesma posição, traçar ruas e avenidas de cidades imaginárias em enormes folhas de cartolina branca. Nem percebia o cômodo aos poucos ficando menor, à medida que esvaziava da luz do sol.

No edifício onde morávamos, um prédio velho de cinco andares, não conversávamos com ninguém, só mesmo bom-dia, boa-tarde, boa-noite. Minha mãe dizia ser aquilo um ninho de mexeriqueiros, palavra que também só ela usava, mexeriqueiro. Quando me indagavam sobre meu pai, respondia, como ela ensinara, que ele tinha morrido, mas se quisesse saber mais, minha mãe desconversava, eu percebia as lágrimas, mas fingia que não. Nem meus avós paternos, vivendo no interior de Minas, nem meus avós maternos, em Porto Alegre, tocavam no nome dele, quando eu passava as férias com uns ou outros - eles me revezavam, cheios de ciúmes.

Mas, do que morreu seu pai?, a molecada da rua, cismada. Como não sabia, fantasiava, pois de nada adiantava teimar com minha mãe, ela sempre respondia, De doença, e ponto. Inventei então uma história, alongada a cada vez que contava: meu pai viajou à África para caçar leões (eu adorava gatos, embora fosse alérgico ao pelo deles). Estavam todos acampados na savana, mas uns, sem juízo, resolveram entrar na floresta e sumiram. Porque era o mais corajoso, escalaram meu pai para procurá-los. Ele apanhou uma canoa e remou rio acima numa região infestada de crocodilos e mosquitos gigantes, e não mais foi visto. Por isso, não dava para dizer, com certeza, se ele tinha morrido, menos ainda do quê. Pode ser até que estivesse abrigado em alguma aldeia, enfermo, juntando forças para voltar à civilização.

Mesmo assombrados, meus colegas nunca me convidavam para a casa deles, nem para festas de aniversário. Nosso convívio se limitava ao campinho de futebol, um terreno largo entre dois sobrados, quatro quadras acima do meu prédio, onde eu era fundamental, pois, jogando como meia-armador, me igualavam ao Gerson, o Canhotinha de Ouro: sério, de cabeça erguida lançava a bola nos pés de quem desejasse, sem um passe errado, e todo mundo comentava, Esse é craque! A parede do quarto coberta de pôsteres: o time do Flamengo de 1972, a seleção brasileira campeã do Sesquicentenário da Independência, uma página arrancada da revista Placar, Paulo César, camisa rubro-negra, número 11 às costas, comemora a conquista da Taça Guanabara, o cartaz do filme Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, já colado ali quando minha mãe alugou a casa, conforme explicou, impaciente.

Toda noite, ao chegar da PUC, ela entrava pé ante pé no quarto, ajeitava a coberta sobre meu corpo magricelo e me beijava, sussurrando, Te amo, meu curumim, antes de encostar a porta. Muito bonita, falava orgulhosa que a avó, ou bisavó, tinha sido pega no laço, por isso os cabelos escorridos e pretos, os olhos ajabuticabados, e passava a mão nos meus cabelos, pretos e escorridos, porque descendente de missioneiros, e chorava. Minha mãe chorava muito nessa época... Mas a beleza dela me incomodava, porque na rua os meninos sempre mencionavam isso, o que me deixava furioso, obrigando a sair no tapa com eles, bando de idiotas, e voltava para casa todo estropiado. No entanto, mesmo muito bonita, arrastava uma tristeza larga e comprida. Nos fins de semana, quando assistíamos televisão ou nas poucas vezes que passeávamos pelo bairro, ela murchava invejando a felicidade dos casais abraçados, das famílias reunidas. Eu temia que, conhecendo alguém, ela me abandonasse, ansiava permanecêssemos para sempre juntos, à espera do meu pai, porque não acreditava que ele estivesse morto, para mim ele se achava apenas impossibilitado de fazer contato, quem sabe perdido solitário no coração da África...

A cara ossuda da Dona Dulce apareceu na fresta da porta. Dona Imaculada interrompeu a aula, saiu e elas ficaram cochichando no corredor. Minha professora voltou, mandou que sossegássemos o facho, falou para eu juntar as coisas e acompanhar a Dona Dulce. Minhas pernas tremeram, era a segunda vez naquela semana que não fazia o dever de casa, pura distração, e pensei que seria colocado de castigo - o castigo consistia em ouvir sermão da diretora, na presença da mãe, uma vergonha. Peguei o caderno, a cartilha, a tabuada, o lápis, a borracha, o apontador, a régua e, em meio ao silêncio especulativo dos colegas, joguei tudo dentro da pasta. Driblando as carteiras duplas, os pés de ferro, avancei apreensivo, e ao mesmo tempo assoberbado, de alguma maneira aquele imprevisto me destacava momentaneamente do restante da turma. Altivo, alinhei meus passos ao andar desencantado da Dona Dulce, alta e magra, cabelos presos num lenço estampado, até a sala da diretoria.

Dona Dulce empurrou a porta, e um homem de uniforme levantou da cadeira, de imediato. Ela contornou a ampla mesa de madeira escura, e, sob o olhar azul e carrancudo do Presidente da República, disse, solene e constrangida, Meu filho, acompanhe o tenente, ele vai te levar para ver seu pai. Minha cabeça rodou, achei que ia desmaiar. Quer dizer que eu estava certo todo o tempo!? Meu pai não havia morrido coisa nenhuma!? Satisfeito, enchi o peito com o ar gelado de junho e contemplei confiante o homem de uniforme. Ele colocou o quepe, pegou minha mão direita e seguimos em direção à saída da escola. No fim da escada, estacionado no meio-fio, um jipe verde, sem capota, aguardava. Quando nos aproximamos, o soldado perfilou batendo continência, e o tenente perguntou se eu queria ir na frente. Respondi sim, dei a volta, entrei no carro e por quase uma hora circulamos por lugares desconhecidos, o vento bagunçando meus cabelos de índio guarani. 

Paramos em frente a uma enorme casa pintada de azul-claro. O soldado desceu, enfiou as mãos grandes por debaixo do meu sovaco e me colocou de pé na calçada. O tenente puxou o portão de ferro, e atravessamos o caminho ladeado por jardins. Um cachorro preto reparava curioso o movimento, amarrado na árvore. Penetramos uma nuvem de fumaça de cigarro, pessoas sentadas num sofá vendo televisão, o volume alto, outras jogando dominó no canto da sala, outras, de pé, conversando encostadas na estante cheia de livros. O tenente cumprimentou a todos, com um único gesto, e nos enfiamos pelo corredor úmido. Eu estava aflito para rever meu pai, cujo rosto nem recordava mais, como lembrança apenas a música que ele assobiava quando alegre e o cheiro de pasta Kolynos que exalava da sua boca. Então, escancarou uma porta, deixando entrever o quarto pequeno e escuro, apesar do sol lá fora, impregnado de um cheiro horrível, mistura de mofo, suor, mijo, bosta, remédio: senti ânsia de vômito. Deitado na cama, sob um cobertor sebento, avistei a longa barba voltada para a parede.

O tenente disse, apertando meu ombro, Osmar, aqui, seu filho. Estranhei, porque meu pai não chamava Osmar. O homem virou para o meu lado e só então notei que estava bastante machucado, pequenas feridas redondas cobriam o peito e os braços, o rosto deformado. Cumprimente seu pai, menino, o tenente mandou. Assustado e com nojo, pensei em explicar que aquele barbudo, sujo e fedorento, não podia ser meu pai, porque meu pai tinha cheiro bom de pasta Kolynos e minha mãe contava que ele era o sujeito mais bonito do mundo, mas fiquei com pena e, mesmo a contragosto, estendi a mão. Ele, no entanto, permaneceu imóvel, ofegante, apavorado. O tenente disse, Alfredo, não piore as coisas, nós só queremos proteger sua família. Quando ele falou Alfredo, mergulhei na dúvida, meu pai chamava Alfredo. Me enchi de coragem e perguntei, incrédulo, O senhor é meu pai mesmo? O homem entreabriu os olhos ensanguentados, tentou mover os lábios roxos e inchados, onde se destacavam alguns dentes quebrados, girou o corpo para a parede e começou a chorar. 

ESCRITOR, NASCEU EM CATAGUASES (MG). É AUTOR DOS ROMANCES ESTIVE EM LISBOA E LEMBREI DE VOCÊ, ELES ERAM MUITOS CAVALOS E FLORES ARTIFICIAIS (COMPANHIA DAS LETRAS)

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