O diagnosticador do presente

Morto há três décadas, Michel Foucault deixou uma obra em mutação e sem retorno às origens

Debora Diniz, O Estado de S. Paulo

28 Junho 2014 | 16h00

Michel Foucault morreu em 25 de junho de 1984. Um giro no pensamento se iniciava - para alguns, a fase da subjetividade; para outros, da ética. Já com a morte anunciada, pediu que não publicassem escritos inacabados. Seu testamento é lei, mas novos escritos circulam a cada ano. São aulas, conferências ou entrevistas, aparições públicas em que as ideias já haviam circulado para fora do arquivo de seu gabinete. A coleção Ditos e Escritos reúne parte importante desse conjunto esparso de pronunciamentos. Aos que gostam de números, só nela há 364 textos. O mais recente livro é Mal Faire, Dire Vrai, ainda sem tradução para a língua portuguesa. A edição abrange seis aulas ministradas na Universidade de Louvain e enfrenta o tema da confissão para as práticas judiciárias: é traçada uma leitura original de Édipo Rei, tragédia em que nossas práticas de confissão e inquérito foram desenhadas. Nestes 30 anos, Foucault é um autor que publicou mais morto que vivo. Logo ele, cuja aula inaugural da cátedra de História dos Sistemas de Pensamento no Collège de France foi a provocação “O que é um autor?”. Isso foi em 1970, quando ele tinha 44 anos.

Se há autores fortes que provocaram deslocamentos no pensamento contemporâneo, Foucault é um deles. Seu lugar é híbrido e liminar às práticas acadêmicas - nem mesmo ele sabia como se definir. Ou melhor, essa pergunta sobre identificações e autoridades disciplinares o cansava. Os historiadores gozam ao identificar equívocos documentais em seus relatos históricos, os filósofos se deliciam ao mostrar a fragilidade conceitual de seus escritos. Mas Foucault resistia às classificações. Em uma entrevista publicada em 1967, provocativamente intitulada Que É você, Professor Foucault?, ele se apresentou como um diagnosticador do presente: “Tento diagnosticar, fazer um diagnóstico do presente: dizer o que somos hoje e o que significa, hoje, dizer o que dizemos”.

Um diagnosticador do presente. O passado deve ser escavado para melhor pensar o presente. Mas ele também se imaginava como um diagnosticador do presente cujos livros deveriam ser como bombas. Sim, bombas. Os livros deveriam ser úteis no instante em que fossem escritos ou lidos, mas imediatamente destruídos. Após as explosões, não seríamos mais as mesmas pessoas - “os livros produziram bonitos fogos de artifício”, disse ele, mas nada além disso. Os historiadores no futuro apenas fariam referência aos livros como explosões, ou simplesmente pela beleza dos fogos que produziram. Mas não haveria adoração nem retorno aos evangelhos do já dito ou escrito. Foucault se irritava quando lhe mostravam incoerências em seus escritos: como iniciar o curso “O Poder Psiquiátrico” redescrevendo-se em relação à “História da Loucura”? Porque seu movimento na vida acadêmica seguia a ordem de seu pensamento - sempre em eterna mutação e sem retorno às origens. Nem mesmo às origens por ele instituídas em textos com sua assinatura.

Foucault é daqueles autores para ler e levantar a cabeça, uma alegoria de seu colega Roland Barthes para as obras que nos inquietam. Foi assim que admirei os fogos de artifício da pequena peça A Vida dos Homens Infames, um texto de 1977 que seria um prefácio de obra, mas ganhou estatura solitária. Homens infames são aqueles que passariam a vida sem o registro da história se não tivessem cruzado suas biografias com o poder. Em particular, com o poder judiciário ou policial. Os arquivos do poder registram breves notícias dessas vidas sob a inspiração da infâmia. Os homens infames passam a ser imortalizados pelo arquivo do poder que os noticia, em geral por malfeitos à ordem. Foucault teve adoração pelas notícias de homens infames em arquivos históricos: Pierre Rivière, o louco bandido cujo malfeito não foi pequeno, mas matricídio e fratricídio, e Herculine Barbin, a hermafrodita de corpo inoportuno, foram dois que alcançaram a permanência da história após seus livros.

Preciso confessar que os escritos de Foucault são mais do que breves fogos de artifício para mim - busco neles inspiração e conforto para o que ensino, escrevo ou penso. O efeito é bombástico e, ao contrário do fantasiado pelo criador, os livros não desaparecem de minha biblioteca. Ao contrário, só crescem em formatos, cores ou traduções. Isso me conforta, pois neles há palavras que exigem retorno. Foucault não nos autoriza encontros rápidos, mas permanentes aproximações. Entre o tempo do Grupo de Informações sobre Prisões, um coletivo de intelectuais e militantes formado para denunciar o que ocorria nas prisões francesas em finais dos anos 1960, em que Foucault foi um dos porta-vozes, e o hoje é que precisamos atualizá-lo como diagnosticador do presente. Seus escritos são atuais não só pela potência do diagnóstico, mas pelos enunciados de como pensar o real, em particular suas formas de poder, vigilância e táticas de governo.

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Débora Diniz é antropóloga, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora da Anis - Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero

 

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