JAAFAR ASHTIYEH/AFP
JAAFAR ASHTIYEH/AFP

O diálogo trágico

Ultranacionalistas, extremistas, direitistas e fundamentalistas ganharam a batalha pelo espaço público, afirma historiador

Michel Gherman, O Estado de S. Paulo

06 Dezembro 2014 | 16h00

Jerusalém não é uma cidade fácil de se entender. Para além de toda a dimensão religiosa e espiritual que a envolve, Jerusalém é um lugar recheado de contradições, limites, fronteiras imaginárias e reais que acabam por determinar o estilo de vida de seus habitantes e visitantes. Mais, Jerusalém guarda dentro dela os sintomas e as dores de um país. Em nenhum outro lugar pode-se sentir tão fortemente o conflito palestino-israelense como na cidade santa. Nesse sentido, é impossível caminhar hoje pelos seus bairros sem sentir algo de estranho no ar. Nos últimos meses a cidade respira um ambiente diferente; o já conhecido conflito nacional assumiu cores e bandeiras distintas das vistas em outras crises e confrontos. Na Jerusalém de dezembro de 2014 a intolerância e o racismo passam a ser fenômenos mais frequentes e palpáveis.

Se por um lado a população de Jerusalém já conhecia atos de violência, atentados e enfrentamentos, o que ocorre hoje em lojas e ruas tem um “quê” de diferente, de estranho, de assustador. Vizinhos que se esforçavam por manter relações amistosas e de normalidade passam a se estranhar. Populações que tentavam conviver no cotidiano passam por experiências de ruptura, dor e ódio. Esquerdistas e direitistas, religiosos e seculares, árabes e judeus, parecem entrar em um circuito de desconhecimento mútuo que pode inaugurar uma nova etapa na cidade, no país e, por que não, na região como um todo.

Ao que parece, esforços constantes e intensos que investem na desumanização do outro lado passam a fazer efeito, o que acaba por fortalecer grupos que acreditam e defendem a percepção de que adversários e diferentes são, de fato, inimigos. De um lado, grupos fundamentalistas islâmicos passam a influenciar cada vez mais a opinião pública em uma sociedade palestina cada vez mais frustrada e descrente; de outro, a extrema direita israelense passa a conquistar parcelas cada vez maiores de uma população israelense que antes apostava em soluções de moderação e acordo. 

Há aqui a impressão de que ambas as partes assumem papéis impostos pela banda adversária. Se atentados sanguinários e covardes passam a encontrar justificativas entre palestinos que antes os condenavam, de outro lado posições radicais e extremadas passam a ter apoio entre israelenses que não estavam dispostos a adotar essas posturas. Ao que parece, setores da sociedade palestina assumiram o discurso que setores da sociedade israelense tinham sobre eles, enquanto o contrário também é verdade. Em uma lógica simplificadora e excludente, árabes e judeus passam a funcionar a partir das acusações que recebem. Há, portanto, pouco espaço para diálogos e debates, a não ser aqueles que desconsiderem, em princípio, o outro.

Em Jerusalém, onde o conflito é mais sentido e discutido, os extremistas, fundamentalistas, direitistas e ultranacionalistas ganharam a batalha pelo espaço público. Hoje chega a ser perigoso se posicionar de maneira distinta nas ruas da cidade. Manifestações públicas que exijam posições mais moderadas do governo necessitam de mais segurança policial e são vítimas de grupos radicais à direita. Políticos que decidam criticas decisões governamentais são considerados traidores e grupos de oposição são acusados de estar “do outro lado”. Restam, portanto, poucas dúvidas de que o diálogo trágico que o atual primeiro-ministro de Israel, Bibi Netanyahu, travou com os grupos radicais palestinos fez efeito: hoje, a violência e a exclusão dão o tom do debate político.

Ademais, nas últimas semanas, quando atos de violência e vingança passaram a ser cotidianos no país, o governo tentava aprovar a lei que determina que grupos minoritários tenham tratamento diferenciado na vida nacional. Sob a desculpa de estabelecer um debate a respeito do “Estado Judeu”, Bibi e aliados da extrema direita decidiram colocar em votação a chamada “Lei Nacional” que determinava novos contratos políticos, ameaçando o status quo e um equilíbrio já muito sensível entre cidadãos árabes e judeus no Estado de Israel.

Como não podia ser diferente, a situação somente piorou. Racismo e intolerância passaram a se tornar referências comuns em ruas, bares e estádios de futebol. A extrema direita de Israel, sob liderança e auspícios de Bibi Netanyahu, parecia disposta a levar o país para um abismo político. O auge dessa fase se deu quando um grupo de extremistas de direita incendiou um colégio árabe-judeu em Jerusalém. O ato foi muito criticado por vários grupos da coalizão de Bibi, mas apenas timidamente condenado pelo próprio primeiro-ministro.

Logo depois, a atual coalizão, liderada por Bibi, caiu. E surge uma esperança. Haverá, nos próximos meses, eleições. Agora, cabe à população israelense decidir entre a retomada do espaço público por grupos mais moderados e a formação de uma coalizão mais democrática e menos extremista, ou a repetição de um mesmo governo pelos próximos anos. Se a segunda opção ocorrer, temos o risco de jogar Jerusalém, e toda Israel, em um abismo político, de ódio racial e conflitos religiosos.

*

Michel Gherman é historiador e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (NIEJ) da UFRJ

Mais conteúdo sobre:
Jerusalém

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.