O disco da sua vida pode estar por aí, e você ainda não ouviu

Presos a serviços onlinepouco conhecidos, álbuns que poderiam marcar gerações agora passam despercebidos

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2016 | 16h00

Domingo, 28 de agosto, Beyoncé subiu ao palco do Video Music Awards (VMA), uma importante premiação da música pop organizada pela MTV norte-americana, para uma performance arrasadora. Foram 16 minutos televisionados para o mundo todo. Lá, ela mostrou cinco das canções de Lemonade, o seu disco mais recente, de abril. As redes sociais se inundaram de comentários positivos. E surpresos. Para muita gente, era o primeiro contato com aqueles petardos raivosos reunidos em um pout pourri.

 Frank Ocean, rapper que virou cantor, faz um anúncio, na segunda faixa de seu segundo disco: “Eu achava que estava sonhando quando você disse que me amava”. Ele se declara, se expõe, se entrega. A revista Rolling Stone disse que Blonde, o álbum, é um “assombro atordoante e viajante”. E vocês, cara leitora e caro leitor, talvez sequer tenham ouvido falar desse sujeito. Talvez nem mesmo a pessoa que inspirou a canção tenha ouvido aqueles versos cheios de saudade.

 Beyoncé e Frank Ocean são apenas os casos mais descarados do movimento antipop no qual a música (pop) mergulhou há dois anos. Ocupam espaços diferentes no gênero, é verdade. Ocean é revolucionário na forma como transforma a sonoridade minimalista e conduz as canções em versos confessionais. Beyoncé, na outra ponta, é o maior nome do pop na última década. E, mesmo tão distantes nessa esfera enorme, eles estão escondidos daquilo que é a essência do popular, e não estão sozinhos nessa.

 Blonde e Lemonade são discos ouvidos apenas por aqueles que assinam determinados serviços de música por streaming – algo que funciona como o Netflix, com a proposta de se poder ouvir um disco ou uma música com poucos toques no celular. O disco de Ocean foi acorrentado pelos contratos de exclusividade assinados com a Apple Music em seu primeiro mês de lançamento. Já Lemonade só está disponível a quem paga a mensalidade do Tidal, um serviço no qual um dos sócios é Jay Z, rapper e marido de Beyoncé.

Há pelo menos dois anos os serviços de streaming têm abocanhado, por meio de contratos milionários, a exclusividade do que pode ser o disco da sua vida. Da minha vida, ou da vida de alguém. Mesmo que exista algum exagero nessa constatação, não é uma inverdade. Taylor Swift, queridinha do country teen norte-americano, guardou o violão e, em 2014, experimentou o pop para dançar. Lançou o disco 1989, com o qual ganhou três gramofones do Grammy. 1989, contudo, só pode ser ouvido no Apple Music. O rapper Kanye West lançou seu controverso Life of Pablo neste ano, e aqueles que assinam o Tidal dizem se tratar de um grande álbum. As correntes prenderam até mesmo o Radiohead, banda das mais adoradas do universo alternativo, que, cheia de colhões, ignorou as gravadoras em 2007, e lançou o ótimo In Rainbows, em um experimento de “pague o quanto quiser”. Com o álbum A Moon Shaped Pool, que saiu neste ano, eles fizeram o oposto. Deixaram o disco escondidinho para os 4,2 milhões do serviço de Jay Z.

Para compreender o que acontece com Beyoncé, Ocean, Taylor, West e Radiohead – exemplos mais gritantes dessa mudança, mas não os únicos – é preciso voltar ao início da música digital, que lançou a pá de cal na indústria fonográfica como conhecíamos. Em 1999, sites como Napster criaram a troca de arquivos (e de músicas) de maneira indiscriminada pela internet. Os números de vendas de álbuns físicos despencou, as gravadoras quebraram. Os downloads pagos (como o iTunes, que oferecia músicas com preços a partir de US$ 0,99 cada) foram uma saída momentânea, mas ainda ineficaz.

A música por streaming se apresentou como algo viável, do ponto de vista das gravadoras e para o consumidor a partir da década de 2010. O Spotify, o maior deles, diz ter 39 milhões de assinantes. Com uma assinatura, é possível ouvir todo o catálogo, 30 milhões de músicas, montar listas, compartilhá-las e deixá-las salvas no celular ou computador, e ouvi-las até sem conexão com a internet. Em 2016, de acordo com a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI, na sigla em inglês), o lucro dessa indústria cresceu 3,2%, o maior em duas décadas, graças à música digital.

Falta só o dinheiro ir para o bolso dos artistas. Quase todos os serviços de streaming oferecem menos de US$ 0,001 aos músicos para cada música executada. Assim nasce o dilema. Cada artista tenta conseguir, com razão, melhor remuneração. Nascem daí, também, os contratos de exclusividade. Taylor Swift, contrariada, bateu o pé e só aceitou levar seu 1989 à Apple Music depois de garantir um valor maior por execução das músicas. Lemonade, de Beyoncé, levou 1,2 milhões de assinantes para o Tidal – serviço criado com a proposta de remunerar melhor aos artistas, mas ainda com poucos assinantes. É um desempenho modesto, contudo, para aquele que é considerado um dos melhores discos do pop da década. Os números de Lemonade são pouco representativos para uma cantora cujo disco de estreia, Dangerously in Love, de 2003, vendeu 11 milhões de cópias. O trabalho não chega perto, musicalmente falando, do impacto que Lemonade teria se estivesse disponível a todos, com seus hinos feministas, antirracistas e cheio de dedos na ferida.

Em contrapartida, os downloads ilegais voltam a assustar. Life of Pablo, de Kanye West, foi baixado 500 mil vezes nos primeiros dias de lançamento. O recorde foi quebrado por Frank Ocean e o aguardado Blonde, que chegou a 750 mil downloads ilegais. Naquele mesmo domingo, 28 de agosto, no qual Beyoncé se apresentava no VMA, vi um rapaz de 20 e poucos anos entrar em uma das maiores lojas de discos de Los Angeles, a Amoeba, e perguntar a um atendente por Blonde Queria levar o disco para casa. Diante da negativa (só na Apple Music), ele comprou apenas um vinil de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles – o álbum da vida de muita gente, lançado em junho de 1967, e também disponível em streaming.

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