REPRODUÇÃO
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O espelho do horror

Ao definir atos como ‘medievais’ ou ‘bárbaros’, concentramos a violência no passado ou num povo específico, afastando de nós a máscara de Medusa

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

07 Fevereiro 2015 | 16h00

Ele se chamava Moaz al-Kasasbeh. Era piloto e faria 27 anos em 29 de maio. Casado, vinha de uma família com certo destaque no reino da Jordânia. Era islâmico sunita, como seus algozes. Recebeu promoção póstuma a capitão. Foi queimado vivo, provavelmente, em janeiro de 2015. 

Não bastasse o horror do procedimento, o jovem estava numa jaula. O Estado Islâmico capturou o piloto e o executou. O vídeo, para o qual faltam adjetivos ou estômago preparado, circulou na internet, chocando nossa aldeia global. Não estávamos recuperados das decapitações e agora há fogo ao vivo. Qual o próximo passo do horror? 

Tudo contraria os procedimentos jurídicos e religiosos. A Convenção de Genebra (1929) tem normas específicas sobre tratamento de prisioneiros de guerra. Em alguns sentidos, Al-Kasasbeh era um. O islamismo não usa a execução pelo fogo como método. O Estado Islâmico (EI), é claro, não segue a Convenção de Genebra. Curiosamente, o EI também não segue o Alcorão. 

Há uma lista quase macabra de fogo consumindo pessoas na história. Foi pena inquisitorial por séculos. O poder purificador das chamas e a teatralidade da execução sempre seduziram os controladores de almas e corpos. Joana d’Arc enfrentou o procedimento, em 1431. Giordano Bruno, em 1600. Milhares de cristãos novos tiveram o tétrico destino. Passado o Santo Ofício, o século 20 construiu ícones ardentes. Lança-chamas iluminaram o horror na 1ª e 2ª Guerras Mundiais. Os EUA jogavam napalm, gel incendiário, que queimou pessoas e aldeias na Guerra do Vietnã. A foto de uma menina nua correndo apavorada, em 1972, é uma das mais fortes do conflito no Sudeste Asiático. Somos violentos há milênios, mas só agora registramos nossa violência com imagens vivas. Isso aproxima a menina vietnamita de 9 anos e o piloto jordaniano. Ambos tiveram sua tragédia registrada. As duas dores foram eternizadas. 

O conflito vietnamita-americano produziu outro corpo ardente. Em 1963, o fotógrafo Malcom Browne registrou a autoimolação do monge budista Thich Quang Duc. A foto choca mais porque o monge queima em absoluta tranquilidade. Não se agita. Não grita. Queima apenas. Está sereno em meio à violência das chamas. Seu protesto tem o impacto das grandes renúncias. É um suicídio ligado à coragem. 

A marcha da História é um espetáculo terrível de atrocidades. A humanidade queima, empala, tortura, executa, cria câmaras de gás, mata de fome, bombardeia, enforca, esquarteja, leva à cadeira elétrica, perfura de balas, atropela e esmaga. Sempre foi assim, mas variam nossos mecanismos de crueldade e de violência. O que limita nossa crueldade é nossa tecnologia. Se alguém cair em tentação de atribuir à religião essa violência, deve aumentar a lista com dois tiranos campeões de genocídio, Stalin e Mao, ambos ateus. Não é Deus nem a raça; não é o momento nem as riquezas – somos nós mesmos. A semente do mal não germina em nós, nós somos o mal. Se a água que a rega é piedosa ou científica, ateia ou mística, tanto faz para as vítimas. 

Voltemos ao horror do piloto jordaniano. Abundam na internet os adjetivos de execução bárbara ou medieval. São adjetivos e, de alguma forma, metáforas. Sejamos justos. Bárbaro foi um conceito estabelecido pelo mundo greco-romano em particular. Referia-se a povos que não usavam as línguas ditas “clássicas” e não tinham as “luzes” do saber mediterrânico. Mas foram esses povos “civilizados” que crucificaram milhares de escravos companheiros de Espártaco. A civilização, a ordem urbana e estatal, a burocracia letrada e o poder centralizado costumam ser mais eficazes em matar do que a chamada “barbárie”. Logo, chamar de bárbaro alguém violento é um recurso literário. 

Na obra organizada por Adauto Novaes (Civilização e Barbárie, Cia. das Letras), Francis Wolff classifica de bárbaro aquele que, independente da cultura ou da origem, tem um projeto de exclusão e de morte do outro. O texto foge do etnocentrismo (bárbaro é o diferente) e evita o relativismo excessivo (se não há bárbaros tudo é válido). Bárbaro seria quem não aceita como parte da humanidade uma outra forma de existir. 

Assim, nesse vetor, o EI seria um exemplo de barbárie, não pela violência (comum a povos ditos civilizados) mas pela recusa da alteridade, pela exclusão do outro, do diferente. Bárbaros não por estarem numa fronteira da civilização ou por serem antípodas de Paris, mas porque, como muitos em Paris, pensam o mundo a partir do seu umbigo e juntam violência ao preconceito. 

O outro conceito muito usado na execução é o do dito caráter medieval. A historiadora Régine Pernoud (1909-1998) já tinha ataques intensos quando ouvia essas coisas há meio século. Não foi a medievalista mais brilhante da sua geração, mas a mais ardorosa combatente da ideia de uma Idade Média como Idade das Trevas. 

O Renascimento começou essa calúnia. A moda continuou depois. O século 19 ainda resgatou um pouco de uma “idade da fé”. Mas o insulto vingou. Métodos violentos viraram “medievais” e gente atrasada mentalmente foi acusada de pertencer ao mesmo momento. Sempre é bom lembrar que os grandes genocídios pertencem aos séculos 19 e 20. As atrocidades do Congo, os massacres na Namíbia e o terror sobre armênios são contemporâneos. Epidemias como a Gripe Espanhola no pós-guerra, atos de violência como em Lídice ou Guernica, massacres como Srebrenica e locais como Auschwitz fariam corar o mais convicto inquisidor medieval. Provavelmente, concentrar a violência num momento do passado ou num povo específico seja uma forma catártica de afastar de nós a máscara de Medusa. Polindo nosso olhar com o escudo da distância, evitamos encarar nosso próprio momento e mundo. Encarar nossa violência sempre nos petrificou. 

Seria cronologicamente mais justo classificar a morte do piloto jordaniano de contemporânea, típica do século 21. Contemporânea e humana, porque toda morte está inserida no seu tempo e nos seus autores. Vimos que podemos chamar de barbárie ao ato desde que deixemos claro o que é barbárie. Não podemos chamar de medieval porque isso é, no mínimo, embaçar o espelho do horror contemporâneo. Mas vamos ao mais perigoso: seria uma “violência islâmica”? Já tocamos no ponto: execução por fogo é mais clássica no mundo cristão do que recomendação da ortodoxia muçulmana. São famosos os casos de apedrejamento no mundo islâmico até hoje, mas a pena não é prevista no Alcorão. Já na tradição hebraica bíblica é punição para muitos delitos. 

O Alcorão é um livro mais compacto em comparação à Bíblia judaico-cristã. Seu período de redação também foi muito menor. A unidade literária, estilística e de concepção teológica do Alcorão é mais linear do que as muitas vozes no texto judaico-cristão. Apesar de tudo isso, todo texto religioso é fruto de interpretação. Sobre qualquer tradição sagrada, posso afirmar quase qualquer coisa. O Alcorão era a base da civilização islâmica em Córdova do século 9º e 10º. Tolerância com cristãos e judeus, escolas avançadas, banhos públicos, iluminação e o brilho ainda visível da mesquita naquela cidade. Lá, os islâmicos liam o mesmo texto que o Estado Islâmico lê hoje em 2015. 

Um dos avanços notáveis no texto corânico é evitar a justiça pelas próprias mãos. A lei ganha um foro público, com testemunhos, aval de clérigos, chance de defesa. O adultério, por exemplo, deve ser punido duramente, mas, para se executar a pena, quatro testemunhas devem ter visto pessoalmente o membro do fornicador dentro do corpo da fornicadora, como “a pena desaparece no tinteiro e a corda desaparece no poço”. Um testemunho difícil de ser verificado. Assim, seria lícito pensar que Alá revelou ao Profeta uma punição que não seria nunca ou muito raramente aplicada. 

O mesmo se pode dizer da pena de queimar vivo, não prevista no texto sagrado islâmico. A prática existe sim: em 2012, no Paquistão, uma multidão furiosa queimou vivo um homem acusado de ter queimado exemplares do Alcorão. Um linchamento como ocorre em muitos lugares no mundo. Enforcar supostos criminosos em postes é recorrente no mundo indígena boliviano, por exemplo. Linchamentos com métodos variados ocorrem bastante no Brasil. 

O próprio Profeta teria recriminado um auxiliar que queimou inimigos, afirmando que queimar com fogo era um castigo que só o próprio Alá poderia utilizar e não os homens (Hadite 6922). Mas, como já disse, interpretação é parte fundamental de toda tradição. Matar alguém onde ocorreu o erro e da mesma forma: é possível deduzir a partir tanto do Alcorão como dos chamados “ditos e feitos” do Profeta. O piloto jogou bombas, logo, se dispôs a queimar a matar o povo, abrindo caminho para ser punido da mesma forma. A Lei do Talião é uma herança mesopotâmica que marca a tradição judaica e islâmica. Nessa brecha judicial, morreu uma pessoa. 

Um grupo islâmico executa brutalmente outro islâmico ou degola jornalistas japoneses e ocidentais. O fato, hediondo, é feito por terroristas em nome da sua fé e das suas convicções. Seria uma violência islâmica? 

A necessidade de classificar já indica um problema. Violência é violência sempre, disparada por um soldado cristão loiro norte-americano contra uma aldeia de camponeses vietnamitas ou por ativistas do Estado Islâmico. Classificar é uma tentativa de isolar e adjetivar um grupo. O problema é sempre a violência, já que, como vimos, ela é exercida por muitas denominações e embasada em justificativas distintas.

É uma violência islâmica? Tanto quanto é uma violência masculina. A pena foi imposta por homens, logo, pode demonstrar igualmente o potencial destruidor atribuído ao islamismo como o da testosterona. O fato de o IRA irlandês ser formado por católicos contra o governo protestante na Irlanda e explodir escolas e pubs nunca foi merecedor da classificação “terrorismo católico”. O mesmo em relação à ETA basca. E aos guerrilheiros do narcotráfico colombiano, quase todos católicos. 

Traficantes do Rio usaram o método ilustrado pelo filme Tropa de Elite, em que o traidor do grupo é colocado numa pilha de pneus e incendiado. Eufemisticamente, chamam de micro-ondas essa execução. Qual seria o adjetivo a reunir à palavra violência nesse caso? Violência católica? Violência social? Favelada? Carioca? Qualquer que seja a escolha, será sempre uma tentativa de afastar de mim o processo. 

Um drone norte-americano joga uma bomba numa aldeia de Afeganistão. O fato é muito comum. Devemos chamar de violência democrática? Ocidental? Protestante? Foi pensando nisso que o grande Leon Ferrari, artista argentino, fez um Jesus crucificado sobre um avião a jato e chamou sua obra de Civilização Ocidental e Cristã. Era o ano de 1965 e, para vietnamitas, provavelmente, essa era a visão do cristianismo ocidental. A obra desse argentino irritou muito a outro nativo de lá, o hoje papa Francisco. Somos violentos estruturalmente, salvo, é claro, você e eu leitor, ilhas de sanidade e equilíbrio num oceano de terror e barbárie. 

A sobrevivência da humanidade é um paradoxo. Em alguns momentos essa violência parece sair de controle. Então estamos nas trincheiras da Grande Guerra, nos fornos crematório da 2ª Guerra ou nos confins do Iraque do EI. Nesses momentos, erigimos muros conceituais como “nazismo” e “terror islâmico” e afundamos no nosso leito pacífico. Então somos felizes, como as ovelhas descritas por Schopenhauer, por não termos sido devorados dessa vez.

O pior de tudo isso não foi previsto pelo filósofo alemão. É em função do medo compartilhado pelo rebanho que empoderamos cada vez mais lobos que garantam nosso pequeno pasto. O que queima junto com a trágica imagem de Moaz al-Kasasbeh é nossa vontade de liberdade, de convívio com diferenças e de paz. O medo das ovelhas vira o lobo do homem. O Estado Islâmico tem reduzidas chances de recriar o império árabe medieval. Mas os conservadores de lá e de cá aumentam seu cacife a cada ovelha imolada. As-salamu alaykum. Que a paz esteja sobre nós, mais do que nunca. 

LEANDRO KARNAL É HISTORIADOR E PROFESSOR DE HISTÓRIA CULTURAL DA UNICAMP

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