Gabriel Cappelletti/Agência Fotosite
Gabriel Cappelletti/Agência Fotosite

O essencial é a embalagem

Para estudioso do luxo e do individualismo, os signos da indústria da moda ditam o passo: tudo é efêmero e sedutor

Entrevista com

Gilles Lipovetsky

Andrei Netto, O Estado de S. Paulo

18 Abril 2015 | 16h00

Em 1983, um filósofo francês advertiu que vivíamos l'ère du vide - ou “a era do vazio”. A máxima foi o título do primeiro sucesso do ensaísta Gilles Lipovetsky, hoje reconhecido como uma das maiores autoridades mundiais em sociologia e filosofia da moda, do luxo e das novas faces do individualismo contemporâneo.

Três décadas se passaram, e a obra do professor da Universidade de Grenoble continua desvendando uma das características que, por paradoxal que pareça, marca a essência da sociedade atual: a superficialidade. Depois de abordar o esvaziamento da esfera pública e das grandes instituições sociais e políticas, de diagnosticar a emergência de uma cultura aberta, cool, marcada pela tolerância, pelo hedonismo, pela liberação sexual e pela educação permissiva, Lipovetsky tem se debruçado sobre a metamorfose do capitalismo e do consumo, que impregnou a própria existência do indivíduo.

Para o filósofo, a moda e todos os seus signos se tornaram onipresentes no sistema produtivo hegemônico após a falência do comunismo. “Tudo segue a lógica da moda: é efêmero e sedutor.”

Essa constatação, não necessariamente pessimista, pode ser encontrada em A Estetização do Mundo - Viver na Era do Capitalismo Artista, escrito em parceria com Jean Serroy, livro que a Companhia das Letras publica agora no Brasil. Ou em Légèreté, obra ainda inédita em português, lançada em fevereiro na França pela editora Grasset. Nesta entrevista ao Aliás, Lipovetsky fala de fashion week, Gisele Bündchen, star system, a obsessão pela leveza e o peso da liberdade.

Na Semana de Moda de São Paulo, a despedida da top model Gisele Bündchen mostrou que o evento continua a ter importância social e midiática. Por quê?

O que você diz é verdade em certo aspecto. Há algumas décadas acontece a globalização da moda, com impactos econômicos e culturais. Durante muito tempo ela foi um fenômeno circunscrito ao Ocidente. Paris era o centro, e todo o mundo copiava suas tendências. Isso mudou. Hoje japoneses, coreanos, brasileiros, muitos países têm uma fashion week. Tornou-se fenômeno econômico importante, porque marcas mundiais reafirmam nesses eventos sua criatividade e originalidade. Por isso a moda alcançou um status econômico importante em todo o mundo. No Brasil, é impressionante o número de escolas de moda. Para muita gente ela se tornou crucial, e para a economia significa um polo que cria empregos e gera lucros extraordinários. Dito isso, é preciso relativizar.

Em que aspecto?

A importância da moda talvez seja até menor hoje que no Antigo Regime. Ela existe desde o fim da Idade Média no mundo aristocrático, culto, quando era imperativa, quando todos tinham de obedecer aos seus cânones. A ditadura da moda, portanto, não é contemporânea. Quem não seguisse o ditado era rejeitado, inclusive entre os homens. A aparência há muito tempo é crucial. Na Idade Média, era sinal de riqueza, de pertencimento a um grupo. A moda é uma invenção das sociedades ocidentais e até o século 18 era tão importante para homens quanto para mulheres. Hoje as fashion weeks não são assim tão fundamentais para os homens, mesmo que estejam se tornando cada vez mais desde os anos 1960 e 1970.

Mas os modelos se tornaram heróis do nosso tempo, não?

Sim, com toda certeza. Não são um fenômeno novo, uma invenção moderna, ligada à comunicação da moda. No final do século 19 já víamos a emergência dessa figura. Entre as duas guerras ela já tinha parte de suas características atuais, como a magreza. A novidade de nosso tempo está no fato de que manequins e modelos se tornaram estrelas. Antes eram apenas fotografados. Hoje são entrevistados, se expressam, são ouvidos. Passaram pelo mesmo fenômeno que as estrelas do cinema passaram quando deixaram de ser apenas atrizes e atores que desempenham papéis em filmes. Modelos hoje são pessoas na vanguarda da mídia, que se transformaram em ícones de uma construção mítica.

Então temos um star system da moda, como o descrito por Edgar Morin para falar do auge do cinema?

O mundo da moda, suas estrelas e seu novo grau de celebridade representam a extensão do star system. No passado, esse sistema se limitava ao cinema e talvez ao music hall. Hoje se tornou onipresente. Está na cozinha, no design, no esporte, entre intelectuais, entre jornalistas. E, claro, no mundo da moda. Quando o corpo concentra todos os símbolos da beleza, a figura que o ilustra melhor é catapultado a um prestígio extraordinário, internacional.

O senhor mencionou a ditadura dos standards de moda. Ela também se globalizou? 

Não, a ditadura de standards existiu, mas não se globalizou. A moda se tornou uma instituição extraordinariamente liberal com o passar das décadas. Não impõe mais nada, tudo pode ser usado, inclusive o vintage. Quando o passado volta, podemos nos perguntar o que é démodé. Com a globalização das fashion weeks, a diversidade também se globalizou, por meio de uma heterogeneidade de estilos. Muitas pessoas continuam a falar em opressão da mulher pela moda, mas ela não oprime em nada a mulher. O que oprime não é a moda, mas os standards físicos, que são algo diferente. E nisso o Brasil é o exemplo perfeito, com toda a importância que a cirurgia plástica tomou na sociedade.

O senhor faz distinção entre a moda e os standards usados pelo mundo da moda?

Sim, é preciso fazê-lo. Lembre que há poucos anos uma top model morreu vítima desses standards, não da moda. O que há em nossas sociedades é um imperativo da juventude, da correção do corpo, para que ele esteja de acordo com as normas da beleza, com o culto da magreza. Veja, no entanto, que não é apenas a indústria da moda que está por trás disso. É a indústria da alimentação, com sua obsessão pelo light, a indústria da atividade física, do fitness, a indústria da medicina estética. É aí, como bem afirmam as feministas, que está a ditadura. 

Em sua última obra, ‘Légèreté’, o senhor fala de uma sociedade em busca da leveza, de slow life, mas que paradoxalmente sofre por isso.

A busca pela leveza tem diferentes facetas. Ela está nas tecnologias, nos smartphones, no virtual, na desmaterialização, na cultura do consumo, do hedonismo. São todas formas leves de existência. Mas a leveza se manifesta também no corpo, nessa busca incessante pela magreza, quando 90% dos regimes acabam em fracasso, por exemplo. Sonhamos todos com corpos leves, e usamos todas as tecnologias leves disponíveis - eletrônicas, alimentares - que nos permitam alcançá-lo. Mas o paradoxo é que, quanto mais a sociedade busca a leveza, mais a obesidade se torna endêmica. O verdadeiro problema social não é a anorexia, que é marginal; é a obesidade, que chega a 40% nos EUA, e atinge até países pobres da África.

Esse é o mundo "hipermoderno", em que a obsessão pela leveza também se traduz pela fragilidade do indivíduo, pela ansiedade, pelo estresse, pela depressão?

Esse é o segundo paradoxo de nossa sociedade. Não aspiramos mais à revolução, mas apenas a vidas mais leves - poder respirar, viver o slow life, com nossos próprios ritmos. O problema é que essa fixação vem acompanhada do contrário. Estamos em uma sociedade marcada pelo estresse, pela depressão, pelo suicídio. A norma da leveza enfrenta forças fenomenais, como a competição no mercado de trabalho, a globalização, pressões de toda ordem, que criam ansiedade. O ideal da leveza se traduz pelo fato de não haver mais estabilidade. As pessoas vivem juntas, mas se separam muito rápido. A vida íntima se tornou problemática, fonte de ansiedade e sofrimento, de insegurança. Chegamos assim ao contrário da leveza, à ansiedade. A leveza pesa muito sobre os indivíduos. É o peso da liberdade.

O senhor afirma que a ‘estetização do mundo’, outro de seus conceitos, tem relação direta com o capitalismo. O senhor usa inclusive a expressão ‘capitalismo artista’. O capitalismo se apropriou da estética? 

Antes de mais nada, a estetização do mundo acompanha a própria história da humanidade. Desde a pré-história tínhamos formas de estetização, como as pinturas faciais, as bijuterias, os diferentes adereços. A novidade é que a estetização hoje é conduzida pelo capitalismo pós-fordista, que não se contenta em produzir produtos funcionais, mas investe em produtos de moda para vender mais, qualquer que seja a área. No passado, um par de óculos era apenas uma órtese para enxergar melhor. Hoje é um acessório de moda. O mesmo raciocínio vale para o automóvel, para os móveis, para tudo. Estamos na época do capitalismo artista, que incorpora a dimensão artística em todos os domínios da indústria. Até nos produtos alimentares se vende uma estética, sob pena de que o consumidor se afaste. A aparência se tornou crucial. Nenhuma indústria do consumo pode escapar. 

O senhor afirmou que a moda era um fator de distinção social na Idade Média, um produto de luxo. Hoje, quando todos buscam a moda, todos buscam se aproximar do luxo, do ideal de sucesso?

Perfeito. O sucesso de algumas redes que não vendem roupas caras, por exemplo, está no fato de que copiam todos os códigos da indústria do luxo. Hoje não queremos mais apenas o útil, mas produtos que nos causem emoção, reação, ainda que tenham uma parte de inutilidade. O telefone antes servia para a família telefonar. Hoje, cada indivíduo faz tudo com o seu telefone, que precisa ter design, ser um modelo por excelência do “capitalismo artista”. Tudo segue a lógica da moda: é efêmero e sedutor.

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