O fim de uma era olímpica: "Do ponto de vista financeiro, nunca vale a pena", diz economista francês

Estudioso dos impactos econômicos de grandes eventos esportivos, Jean-Pascal Gayant, economista do Esporte da Universidade de Mans, na França, faz um diagnóstico duro: do ponto de vista financeiro, Olimpíada não vale a pena

Andrei NettoCORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2016 | 16h20

Em dezembro de 2014, após muita discussão interna e experiências “desafiadoras” com a organização dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, o Comitê Olímpico Internacional (COI) lançou a Agenda 21, uma estratégia que deveria marcar o fim de um tipo de organização baseada em projetos faraônicos, com estruturas novas e cuja utilidade após duas semanas de competições fica longe da ideal. Em seu lugar, entram planos de jogos com estruturas mais modestas, baseadas sobretudo no que já existe na cidade-sede e em outras subsedes. Nesse sentido, Rio 2016 deveria ser um divisor e águas, o fim de uma era na organização do maior evento esportivo do planeta.

Mas para economistas que se especializaram na projeção de impactos econômicos, custos e benefícios dos Jogos Olímpicos, essa estratégia tem poucas chances de acabar com os “jogos bilionários”.

Economista do Esporte da Universidade de Mans, na França, Jean-Pascal Gayant é um dos céticos estudiosos das práticas do COI. Doutor em Economia pela Universidade Panthéon Sorbonne, Gayant é autor de “Economie du Sport” (“Economia do Esporte”, na tradução livre), lançado em abril pela editora Dunod. Na obra, o professor e pesquisador analisa o “competitive balance” e os impactos econômicos de grandes eventos esportivos. Sua constatação é inapelável: do ponto de vista financeiro, organizar os Jogos Olímpicos ou uma Copa do Mundo não vale a pena.

Essa é a razão pela qual, ao longo do século 21, sediar essas competições têm sido um projeto recusado por cidades como Oslo, Estocolmo, Boston e Hamburgo, mas abraçado com entusiasmo por emergentes como África do Sul, China, Rússia, Brasil e Catar. Crítico do COI, Gayant entende que o Rio faz parte de um ciclo em que os grandes países emergentes usaram o esporte para se projetar como potências, uma tentativa que na maior parte das vezes fracassou em razão dos custos exorbitantes, das denúncias de corrupção e do legado negativo em termos de infraestruturas ociosas e custosas. Na entrevista ao Aliás, Gayant, um apaixonado pelo futebol, analisa as repercussões dos jogos do Rio 2016.

Na história dos jogos modernos, há casos de sucessos e outros nem tanto. Barcelona, por exemplo, mudou sua imagem para sempre. Atlanta, não. Atenas endividou o país. Como o senhor vê os jogos do Rio de Janeiro?

Pequemos o exemplo de Atenas, que 12 anos depois enfrenta uma situação muito degradada. A economia grega entrou pouco tempo depois dos jogos em uma fase de recessão terrível e hoje o que vemos na capital são estruturas que estão se degradando, sem uso. Temo que o Rio enfrente os mesmos problemas, e que os equipamentos que foram construídos para os Jogos Olímpicos de 2016 sejam muito pouco utilizados. A questão que teremos de analisar mais tarde é se a situação econômica difícil que o Brasil atravessa hoje vai permanecer, e sobre se teremos de atribuir uma parte aos Jogos Olímpicos ou, ao contrário, o país retomará o crescimento e os jogos serão vistos como uma Olimpíada que foi apropriada.

Mas qual será o sentimento que ficará nos espíritos dos brasileiros sobre a “herança”?

Se a economia for bem, talvez tenhamos uma sensação de boa “herança”. Se ela continuar por dois, três ou quatro anos em condições de dificuldade maior, talvez os jogos fiquem na memória como uma forma de sucesso esportivo, mas fracasso econômico.

O orçamento final dos jogos do Rio deve se aproximar de € 10 bilhões (R$ 38 bilhões). Isso é muito ou os brasileiros subestimaram os custos previstos de sediar os Jogos Olímpicos? É tão caro assim receber Jogos Olímpicos?

Quaisquer que sejam as estimativas prévias de orçamento, é difícil realizar jogos abaixo do total de € 10 ou € 12 bilhões. Foi esse o caso em Londres, foi muito mais em Pequim, onde as estimativas prévias eram de US$ 45 bilhões. Mas estamos diante de um evento cujos custos são muito difíceis de estimar. Eu estudei muito a candidatura dos jogos de 2024 em Paris, onde se estimou um orçamento de € 6 bilhões. Eu não creio nem por um instante que seja possível. Nos € 6 bilhões há € 3 bilhões de despesas de organização, e outros € 3 bilhões para a Vila Olímpica e para novas estruturas esportivas que ainda não existem. Simplesmente não é possível. Será preciso no mínimo 12 infraestruturas, 12 estádios de 10 mil a 15 mil lugares, que terão de ser construídos em Paris. Por € 3 bilhões não é possível construí-los. Há uma subestimativa prévia das despesas, porque pessoas que têm interesses de verem os jogos acontecerem têm interesse nessa subestimativa.

Cidades como Oslo, Estocolmo, Boston e Hamburgo optaram por não se candidatar aos Jogos em razão dos altos custos. A opinião pública de muitos países também é contrária. Os Jogos perderam sua magia e atratividade?

Houve uma tomada de consciência de que os custos são sempre muito importantes para resultados econômicos que no final das contas são relativamente modestos, ou nulos. É sintomático de que os Jogos Olímpicos sejam sempre defendidos por alguns atores sociais, como empreiteiras que realizam obras públicas, empresas de eventos e de comunicação e pelo movimento esportivo. Mas o custo é absorvido por todos, e quando todos são consultados há uma ponderação de custo-benefício que é mais desfavorável do que favorável.

Para enfrentar essa situação, o COI lançou a Agenda 21 com o objetivo de conter o gigantismo dos Jogos. Qual sua avaliação?

A Agenda 21 é uma boa iniciativa, ao abrir as portas para a candidatura de várias cidades ao mesmo tempo. É interessante também porque insiste sobre pontos como o controle de despesas, o impacto ambiental, sobre questões como respeito à livre opção sexual, por exemplo. Mas é preciso ler o documento como uma reação do COI à percepção muito negativa que ficou dos jogos de inverno realizados em Sotchi, na Rússia. Esses jogos foram um derrame de despesas, € 50 bilhões, com casos de corrupção múltiplos. O COI agora tenta fazer evoluir as bases de uma candidatura, mas o comitê poderia ter ido mais longe.

Como?

Alguns economistas que estudam a questão consideram que os jogos deveriam ser realizados sempre nas mesmas cidades, fazendo um circuito em três ou quatro cidades do mundo, para enfim rentabilizar as construções feitas para os Jogos Olímpicos. Outra hipótese seria imaginar candidaturas conjuntas de várias cidades.

O senhor acredita que os jogos de Tóquio 2020 e, eventualmente, em Paris 2024, já serão diferentes em termos de organização?

Em termos de custos, sabemos que não há muita margem de manobra. Ficaremos naquela fatura superior a € 6 bilhões, e isso sem contabilizar infraestruturas de transporte, por exemplo, que precisam ser construídas. O COI diz que essas despesas não devem mais ser contabilizadas, porque servirão a longo termo para a população das cidades. Bom, mesmo que não contabilizemos esses valores, não creio em € 6 bilhões, como disse. Acho que teremos jogos de no mínimo € 8 bilhões, provavelmente de € 10 bilhões. Então sejamos claros: € 10 bilhões é muito dinheiro para uma cidade como Atenas. E é caro mesmo para uma cidade como Paris, capital de um país que vive em déficit público. E, para o Rio, esses € 10 bilhões são uma carga muito pesada.

O Rio que já enfrenta essa crise...

Os melhores estudos sobre o tema mostram que os Jogos Olímpicos não são fator de crescimento econômico. Talvez os jogos sirvam para melhorar a autoestima de uma população ou de um país, ou sirvam como um grande projeto federativo. Mas não são um bom negócio. Não desejo que os jogos agravem a situação econômica do Rio, mas, se observarmos o que se passou em Atenas, devemos ficar preocupados. No passado, talvez tenhamos visto como algo muito positivo que o Brasil realizasse a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Hoje talvez devamos ver os eventos como uma dupla pena do ponto de vista econômico.

Que legado o senhor vê para os Jogos do Rio?

O legado do Rio… É verdade que Barcelona valeu-se muito dos jogos para uma verdadeira renovação urbana. Barcelona passou da 11ª cidade turística da Europa à 5ª cidade, e de fato se tornou muito apreciada em todo o mundo. Essa foi uma herança positiva. Mas há poucas circunstâncias equivalentes até aqui. Los Angeles, Seul, Atlanta, Sidney, Pequim e até Londres não tiveram os mesmos resultados. Em Londres foi possível revitalizar uma região que estava degradada, mas o preço disso foi o aumento do custo do metro quadrado, que expulsou uma parte da população de baixa renda para lugares ainda mais distantes. Pelo que sei aconteceu o mesmo no Rio, onde para construir a infraestrutura dos jogos se destruiu um número xis de habitações precárias. Talvez haja uma renovação urbana, mas nem todos saíram ganhando. Pode ser que a renovação urbana do Rio tenha sido acelerada, que a cidade tenha passado por melhorias, mas nada que tenha beneficiado a todos. Não estou convencido de que em termos de coexistência urbana os jogos causem um impacto muito melhor do que os de Londres 2012. Em Barcelona foi muito positivo. No Rio, não é certo.

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