PHILIPPE WOJAZER/REUTERS
PHILIPPE WOJAZER/REUTERS

O 'informante'

Quem é Hervè Falciani, o funcionário que afanou dados do HSBC e atemoriza a alta roda mundial

Jamil Chade, GENEBRA / SUÍÇA

21 Fevereiro 2015 | 16h00

Um herói que, em nome da justiça social, revelou como os bancos enriquecem graças ao dinheiro sujo ou só um ladrão, ainda que sofisticado? Hervé Falciani, técnico em informática, provocou um terremoto ao roubar dados sobre mais de 100 mil clientes do banco HSBC, onde trabalhava. Suas revelações confirmaram o que muitos suspeitavam havia anos: a existência de uma indústria de lavagem de dinheiro na Suíça.

Desde então, sua vida se resume a uma fuga sem fim. Falciani foge da polícia, da Justiça, dos serviços de inteligência e, teme ele, de pessoas contratadas para matá-lo. Pelo caminho deixa o perfil de um homem complexo que não hesita em se disfarçar, mudar de nome e, acima de tudo, manter contradições sobre suas reais intenções.

Desde 2008, a lista com os 100 mil nomes (8 mil seriam brasileiros) já é conhecida por governos como dos EUA, França e Espanha, os quais, diante da maior crise econômica mundial desde os anos 1930, a usaram para cobrar impostos sonegados. Mas foi nas semanas recentes que sua revelação ao público, por meio de uma rede mundial de jornais, chacoalhou a economia do mundo ao expor o fato não apenas de a Suíça ser uma lavanderia de dinheiro do crime, mas de como clientes acima de qualquer suspeita evadiram bilhões de dólares de seus países. 

Nascido em Mônaco em 1972, Falciani sempre viveu perto dos bancos. Trabalhar no setor financeiro, segundo ele, foi uma “opção óbvia”. Tudo começou a mudar em 2006, quando foi transferido do escritório do HSBC no principado para Genebra. 

Falciani começou a coletar os dados sobre as contas secretas em 2006 com uma estratégia, digamos, profissional. Nada de pen drives ou discos de gravação. Enviava tudo para uma porção de servidores espalhados em diversos países. 

No início de 2008, a história começou a ganhar ares de filme. Numa manhã gelada de Genebra, sua caminhada até o trabalho foi interrompida por uma van. Homens saltaram dela e exigiram que Falciani os acompanhassem até o subsolo de um prédio abandonado da pacata cidade suíça. Apresentaram-se como representantes do Mossad, o serviço secreto israelense, e sugeriram que Falciani fosse aos Líbano para consultar bancos locais e oferecer a venda de dados de grandes clientes. Seria a porta para acessar contas dos bancos libaneses e, portanto, saber de que forma organizações terroristas lavavam dinheiro.

Meses depois, Falciani rumou para o Líbano na companhia de uma colega, Georgina Mikhael. Na volta, “convidada” a prestar esclarecimentos à inteligência suíça, Georgina disse que era amante de Falciani (casado e com uma filha) e o entregou. Disse mais: que Falciani teve a intenção de roubar os dados do HSBC desde que pisou no banco pela primeira vez; sua meta era vendê-los para enriquecer. 

Era o fim da “vida normal” de Falciani. Em 2008, aos 36 anos, ele respondeu a horas de interrogatório sobre como e o que teria feito com os dados bancários. No final do dia, a polícia de Genebra o autorizou a voltar para casa, sob a condição de retornar à delegacia na manhã seguinte. É claro que ele não retornou. Tão logo deixou o prédio, alugou um carro, buscou a mulher e a filha e cruzou a fronteira com a França. Com cidadania ítalo-francesa, sabia que Paris jamais extraditaria um dos seus.

Em território francês, fez um vasto download das informações que tinha roubado e estavam espalhadas nos diversos servidores pelo mundo. Cinco CDs foram produzidos e entregues às autoridades francesas. Quase quatro anos depois, numa tentativa de sair da vida de esconderijos e segredos, aceitou um encontro arriscado com o procurador-geral da Suíça, no aeroporto de Genebra. Escolha estratégica. Por estar na fronteira entre a França e a Suíça, o aeroporto tem duas entradas, uma para cada país. Se quisessem lhe passar a perna, Falciani saberia para qual porta correr. 

O acordo não saiu e ele, por sugestão dos americanos, mudou-se para a Espanha, onde chegou a ficar cinco meses preso. Depois de solto, passou a ser acompanhado por uma escolta policial que lhe dava proteção maior até que a de um ministro espanhol. O medo não era mais do Mossad, mas de que criminosos contratados por clientes com o nome na lista (narcotraficantes, contrabandistas de armas) batessem a sua porta. 

As fugas pela Europa permitiram a Falciani ir revelando dezenas de detalhes sobre como funcionam os bancos suíços. E em todos os locais onde esteve, uma pergunta o perseguia: por que arriscou a vida para roubar os dados de um banco - um banco na Suíça - que lhe pagava um salário de US$ 150 mil por ano? Falciani sempre respondeu em tom idealista: para revelar ao mundo “a verdade sobre os bancos”. 

Garantindo que jamais vendeu a lista, ele se compara a Edward Snowden, ex-funcionário da CIA que afanou dados da diplomacia americana e, em 2013, relevou ao mundo como a maior potência do planeta espionava governos, empresas e cidadãos. Declarando agir por “dever cívico”, Falciani insiste que precisava parar a “fraude e o fato de o banco ser cúmplice de muitas irregularidades”. “Quando era jovem, pensava sinceramente que os bancos existiam para proteger os ativos de pessoas com preocupações justificadas”, disse ele ao Le Monde, referindo-se a famílias que tinham de deixar seus países por perseguição política. “No HSBC, porém, aprendi que os bancos existem para algo completamente diferente.” 

De todos os governos de alguma maneira engolfados pelo caso, só a Suíça continua tendo como objetivo a prisão de Falciani. A Justiça do país é a única que move processos contra o informático, mas não contra o HSBC. Ele é acusado de espionagem industrial qualificada, obtenção ilegal de dados e violação do segredo bancário - uma espécie de heresia moral na Suíça.

Falciani sabe que pode ser condenado na Suíça mesmo se passar o resto da vida fora de lá. Contudo, já escreveu os próximos capítulos de sua saga: “Serei condenado, mas virarei a página. Vou pedir oficialmente uma mudança de nome, desaparecer e ter uma vida normal de família”.

Sua vaidade, porém, parece ser maior que o desejo de levar uma “vida normal”. Na mesma entrevista ao Le Monde, ele declarou: “Somente serei reconhecido oficialmente quando a Suíça me condenar”. E num arroubo hollywoodiano, pediu: “Gostaria de ter um apelido: o Informante, o Insider. Essa terá sido minha real medalha, uma espécie de reconhecimento e respeito pelos riscos que enfrentei”.

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