REPRODUÇÃO
REPRODUÇÃO

O início da guerra

‘A pequenina Bélgica está invadida, mas vencida ainda não, pelo menos à hora em que escrevemos, meia-noite’

Julio Mesquita, O Estado de S. Paulo

13 Junho 2015 | 16h00

A não querermos admitir que as nações da Tríplice Entente tivessem mandado matar em Sarajevo o príncipe herdeiro da Áustria, é forçoso confessar que esta guerra foi provocada em primeiro lugar pela Áustria, com o seu ultimato à Sérvia, e em segundo lugar pela Alemanha, com o seu apoio incondicional às descabidas exigências austríacas. A Inglaterra, logo no começo da agitação, propôs que o conflito austro-sérvio fosse resolvido numa conferência em que tomassem parte, além da potência que a propunha, a Alemanha, a França e a Itália. A Rússia, apesar de excluída, também o aceitou, reconhecendo que não podia deliberar com calma em uma reunião em que se iam decidir dos destinos da Sérvia. Mas a Áustria repeliu firmemente a proposta da Inglaterra, e a Alemanha, em vez de aconselhá-la a moderar a sua perigosa intransigência, conselho que certamente a Áustria não deixaria de ouvir, a Alemanha sustentou-a com a maior energia, declarando embora que também se empenhava cordialmente pela manutenção da paz e que o governo de Berlim também não tivera prévio aviso do ultimato à Sérvia. Daí, da intransigência da Áustria e da contraditória teimosia com que a pacífica Alemanha se pôs a seu lado, a conflagração que já apanhou grande parte do mundo e que a outra parte contempla com assombro e terror.

Apesar de tudo, porém, cada vez nos sentimos mais convencidos do que já dissemos nesta mesma coluna, nos primeiros dias da imensa calamidade: o kaiser realmente não queria a guerra. Para ceder aos pangermanistas, dia a dia mais irritados contra a expansão dos eslavos para o Ocidente, disse à Áustria que não recuasse e fez saber à Europa que a Áustria em hipótese alguma recuaria. Para conseguir o que intimamente desejava, ergueu a voz em tom intimativo e ameaçou. Nunca lhe falhou este sistema. Falhou-lhe agora. Faltou-lhe apenas compreender que era demais. A Tríplice Entente formou-se e revestiu-se dos seus formidáveis armamentos para estabelecer definitiva e solidamente o equilíbrio europeu. Ela não podia ceder neste conflito às ameaças do kaiser, como cedeu nos outros, porque seria reconhecer e confessar fraqueza irremediável. Lá se iria para sempre ou, pelo menos, para muito tarde a almejada compensação. A hegemonia alemã ficaria evidente, ninguém sabe até quando.

Não é isto uma simples conjectura sem fundamento. Se for conjectura, é bem fundada. No dia 25 de julho, o sr. Schoen, embaixador da Alemanha em Paris, foi ao Quai d'Orsay e leu, com toda a solenidade, ao ministro dos Estrangeiros da França, uma nota, cujo texto exato não se conhece, mas na qual havia três afirmativas categóricas: primeira, a Áustria não podia proceder de outra maneira; segunda, o debate devia ficar circunscrito entre Viena e Belgrado, e não se transformaria numa questão de aliança; terceira, tomando-se qualquer outro caminho, haveria motivos para que se receassem conseqüências incalculáveis. Que o soubesse a França, para seu governo, e que, para governo da Rússia, o soubesse a Rússia por intermédio da França!

Nada mais claro: ou a França e a Rússia também se opunham à proposta da Inglaterra, e se curvavam à vontade inabalável da Alemanha, ou a Alemanha declararia guerra à Rússia e à França. Mas a França e a Rússia não se curvaram, e a Inglaterra, leal aos seus compromissos, declarou que iria com elas até o fim. O kaiser, percebendo o seu enorme erro, mudou de atitude, como que por encanto. Antes de ser declarada a guerra, o sr. Schoen voltou várias vezes ao Quai d'Orsay, mas falando sempre em tom conciliador. O telégrafo trabalhou febrilmente de Berlim para Londres e para São Petersburgo, chegou mesmo a afirmar-se que, de Berlim para São Petersburgo partiu, no dia 26 de julho, um príncipe alemão com uma carta de Guilherme a Nicolau. Mais: já se tinha iniciado a mobilização alemã quando se abriu no céu tempestuoso um clarão de esperança. E a mobilização suspendeu-se por duas horas. Mas o clarão apagou-se e a tempestade desabou com toda a sua inaudita violência.

Não tem outra explicação certa morosidade que se nota, e que desde o começo se vem notando, nas operações do exército alemão. Tudo se preparou às pressas, à última hora, e, por conseguinte, ao contrário do que sucedeu em 1870, nada estava perfeitamente preparado. Se tudo estivesse perfeitamente preparado, o exército alemão, que é incontestavelmente o primeiro exército do mundo, teria sido capaz, nestes vinte e tantos dias de luta, de maior esforço não diremos, mas de êxito visível.

A Bélgica, a pequenina Bélgica, está invadida, mas vencida ainda não, pelo menos à hora em que escrevemos, meia-noite. Liège foi ocupada, mas os seus fortes ainda não se renderam. Namur só ontem começou a ser bombardeada, e se Bruxelas, cidade aberta e indefesa, caiu em poder dos invasores, Antuérpia, cidade fortificadíssima, ainda não sofreu a menor hostilidade e abriga, além da corte e do governo do país, a massa mais considerável das suas forças - talvez também as forças inglesas, porque é hipótese perfeitamente aceitável o terem desembarcado naquele porto os batalhões com que a Inglaterra concorre para os grandes encontros de terra, enquanto se não realizam os do mar.

É claro que ainda não está, como já deveria estar, suficientemente garantida a situação dos alemães no pequenino reino. Diz-se que, neste momento, uma grande batalha se fere na linha de Namur a Charleroi, entre alemães e franceses, que tomaram a ofensiva. É preciso que, neste primeiro embate sério, a vitória da Alemanha seja completa e esmagadora para que a sua situação na Bélgica comece a melhorar. Só então ela poderá invadir a França, e vencer a resistência desesperada que vai encontrar, livre dos receios que atualmente deve ter, ameaçada como se acha por um dos flancos, pelas forças ainda vivas da Bélgica e pelo reforço folgado da Inglaterra.

Na fronteira da Alsácia e da Lorena, não têm sido mais felizes as armas alemãs. Vitoriosos embora em alguns dos muitos pequenos combates que ali se têm dado, os alemães ainda não puseram o pé em terra da França, ao passo que os franceses já se instalaram em terra alemã. Há um mês apenas, antes de a guerra começar, todo o mundo diria que vinte dias depois dos primeiros tiros a França teria de resignar-se à defensiva, heróica, sublime se quiserem, mas em todo caso simples defensiva, que é o único recurso dos que se sentem mais fracos. Entretanto, o que, com surpresa geral, se vê, é que tanto na Alsácia e na Lorena como na Bélgica os franceses é que estão na ofensiva e os alemães na defensiva. Não é fácil prever qual seja o resultado dessa inesperada inversão de papéis, tal e tanta é a confiança que ainda inspira o poder da Alemanha.

O colosso do extremo norte, terminada a sua lenta mobilização, iniciou os seus movimentos agressivos com êxito notável, dizem os nossos telegramas, como se sabe, de origem francesa ou inglesa. Mas um telegrama recebido da Alemanha, via Nova York, pelo senhor cônsul alemão desta capital, diz, ao contrário, que o êxito é dos alemães. Para nós, tão digna de crédito é uma como outra informação. Está estabelecida a dúvida. Esperemos que o tempo a desfaça.

No mar, retraída como continua a esquadra alemã, o domínio dos seus inimigos é absoluto. A esta hora, os navios japoneses imperam nos longínquos mares asiáticos. E está assim mais apertada, mais asfixiante, a boycottage comercial ideada pela Inglaterra, que decididamente é quem rege, com mão segura, esta terrível sinfonia de destruição e de morte...

Mais conteúdo sobre:
crônica primeira guerra julio mesquita

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.