O LADRÃO QUE NOS HABITA

A cada tragédia reaparece a figura do saqueador, um aproveitador da noção de que, na urgência, bens materiais são o que menos importa

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2015 | 07h00

A avalancha de lama que enterrou casas e vidas na região de Mariana (MG) enterrou, também, o que não se menciona. A segurança do pertencimento, numa comunidade de mais de 200 anos, rodou lamaçal abaixo. Estranhos rondando trouxeram o medo de saqueadores. A apreensão dos antigos moradores dos povoados inundados é a do saque do pouquíssimo que lhes restou do que tinham. O temor é procedente. Os saques se tornaram endêmicos no Brasil e mesmo Minas tem tido reiterados episódios de saque das cargas de caminhões acidentados em suas estradas. Em outros Estados, a violência se repete até diante dos olhos dos policiais rodoviários, que acodem os acidentados e tentam evitar os problemas que sempre acompanham as ocorrências graves. Nessas horas de urgência, o saque é o que menos importa, e é disso que se aproveitam os saqueadores.

Tem sido suposição comum que os saques são praticados por pessoas pobres e famintas. Os pobres têm sido um pretexto para justificar todas as nossas anomalias de conduta, dos saques aos linchamentos. No entanto, os filminhos de celular e os documentários das emissoras de televisão mostram que os saqueadores de estrada são pessoas que estão longe da pobreza. É comum motoristas de automóvel ou de caminhão pararem perto dos locais de acidentes para furtar a carga dos veículos acidentados. É uma modalidade pós-moderna de roubo, praticado por quem não tem carecimentos nem é profissional, movido apenas pela oportunidade. Há um ladrão dentro de muitas pessoas que não o são.

Mesmo em casos de acidentes fatais, tem ocorrido o saque de objetos pertencentes aos feridos e mortos, preferindo os saqueadores pilhar a socorrer. Esse extremo comportamento anômalo e antissocial é indicativo da desagregação da sociedade, de que há sintomas e indícios vários. E, longe de propiciar respostas regenerativas da ordem, acaba gerando condutas populistas e demagógicas ou até o silêncio omisso e complacente. O que o legitima.

Não é raro que casas de obra inacabada sejam igualmente pilhadas, como aconteceu no Amapá, num conjunto do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento que, desacelerado, deixou um conjunto habitacional ao deus-dará. Janelas, portas, vasos sanitários, pias foram saqueados na maior tranquilidade, os verdadeiros destinatários da obra vivendo no desamparo da espera e da incerteza, vendo as construções inacabadas descambarem.

Não obstante a intensificação das ocorrências nos últimos anos, o saque não é uma novidade na história do Brasil. Tem raízes profundas nos costumes brasileiros das várias regiões. A novidade nos saques frequentes de agora é ver a classe média saqueando, mesmo seus setores abonados envolvidos em explícitos e públicos atos de pilhagem coletiva. A origem mais remota do saque entre nós está na cultura da sebaça, o direito de saquear o vencido nas lutas de famílias, que foram aqui comuns até o final da República Velha. O saque era praticado por jagunços e pistoleiros dos mandões locais como prêmio de sua subserviência e da vitória sobre o adversário. Na literatura brasileira, a sebaça comparece em O Tronco, do escritor goiano Bernardo Élis, relativo a caso verídico ocorrido no começo do século 20, em Dianópolis, no antigo sertão de Goiás. O cangaço foi uma variante dessa cultura, jagunços agindo autonomamente, saqueando por conta própria, o saque como tributo para pouparem suas vítimas da violência de que eram capazes.

São esclarecedoras, para sua compreensão, as variantes populares do saque, legitimadas pelo costume. Eu era menino e morava em Guaianases, então um distrito rural de São Paulo, em 1948 e 1949, quando vi, mais de uma vez, multidões de mulheres dirigirem-se aos lugares em que a revoada insistente dos urubus indicava que havia animal morto por mordida de cobra ou erva venenosa. Se fosse vaca ou boi, já iam munidas de facas e bacias para retalhar e recolher a carne do animal. Só abandonavam as vísceras. Dado como perdido pelo dono, o animal caía no direito do povo a se apossar do que já não pertencia a ninguém. As quebradeiras de coco, do Maranhão, também se valem desse direito popular para quebrar o coco babaçu das fazendas, cuja palma floresce nos pastos. No Nordeste, o direito da palhada ainda era praticado há alguns anos, o povo pobre colhendo para si os restos do algodão já colhido ou o restolho do milho da roça. Em nome dessas concepções antigas, até membros da Igreja justificaram invasões e saques praticados por famintos durante a seca nordestina de 1998.

Esses costumes persistem na consciência comum e são reavivados e reinterpretados sempre que um acidente cria a situação propícia ao saque. A novidade que alarma é a de que para muitos a fragilidade do outro, que há nessas situações, parece assegurar o direito de saqueá-lo, na concepção de que o ter e o ganhar são amorais. E que a adversidade é uma renúncia ao que se tem. Uma curiosa concepção rústica de capitalismo, distante da ética que lhe explica a origem histórica e o sentido.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS É MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS. ENTRE OUTROS LIVROS, AUTOR DE "A POLÍTICA DO BRASIL LÚMPEN E MÍSTICO" (CONTEXTO)

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