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O 'Livro das Mil e Uma Noites' ganha nova edição no Brasil

Clássico árabe da literatura universal ainda tem o que dizer no século 21

Flávio Ricardo Vassoler*, O Estado de S.Paulo

24 Março 2018 | 16h00

Com exímia tradução de Mamede Jarouche, professor de Língua e Literatura Árabe da FFLCH, a Biblioteca Azul nos traz uma nova edição, revista e atualizada, do Livro das Mil e Uma Noites, obra magistral que, para o escritor argentino Jorge Luis Borges, já se tornou parte prévia do baú de nossa memória. Afinal, quem já não entreouviu a voz melíflua e cálida de Sherazade (pronuncia-se Xahrazád) em madrugadas insones e turvas pelo incenso da fantasia? 

É como se, a bordo de um tapete persa e voador, a imaginação surrupiasse as 1.001 estórias que a sábia e sagaz Sherazade narra para o rei Xariar (pronuncia-se Xahriár, aspirando-se o “h”); é como se, embalada pela astúcia de Ali Babá, a imaginação sussurrasse “abre-te, sésamo” antes de dizer “era uma vez”; é como se, antes mesmo do fiat lux (“faça-se a luz”) de Deus no Velho Testamento, a imaginação fosse iluminada pela lâmpada mágica de Aladim. 

Em dezembro de 2017, visitei o Grande Bazar, em Istambul, e lá encontrei a lâmpada de Aladim com o pavio prestes a ser aceso. Quando fiz menção de esfregá-la como a personagem das Mil e Uma Noites, o vendedor da lojinha, de bigode desgrenhado e olhos bem pretos e vivazes, me recomendou muito, mas muito cuidado: “Se o gênio da lâmpada escapulir, ninguém poderá fazê-lo voltar ao cativeiro – quem poderá, então, prever as consequências de sua magia?”

Demasiado humano, o novelo narrativo do Livro das Mil e Uma Noites é o filho dileto do ímpeto de vingança com a luta pela sobrevivência. O rei Xariar, membro de uma poderosa dinastia, descobre que sua mulher o trai com um escravo. (Dada a atroz desigualdade que faz o trono real ser soerguido pelo dorso prostrado da escravidão, sentimos bastante simpatia pela engenhosidade dos escravos que se fantasiam de mulheres para transar com a esposa e as concubinas do rei, na surdina, enquanto o monarca sai para caçar.) 

Quando Xariar descobre chifres em cabeça de cavalo, seu reino é tomado por sangue, choro e ranger de dentes. A mulher, as concubinas e seus escravos são executados bárbara e pedagogicamente. Ainda assim, Xariar não se conforma. Ora, como é possível que o governante tenha sido traído de maneira tão ardilosa e comezinha? Como é possível, a bem dizer, que meros escravos possam causar dor ao soberano? (Avesso a qualquer tipo de igualdade, eis que o rei descobre que a dor pode ser democrática e que a fragilidade daquele que precisa confiar nos outros acaba aguilhoando o senhor a seus escravos.)

Aflito com a possibilidade de voltar a ser traído, o rei Xariar então idealiza a mais sádica das vinganças: a partir de então, o rei se casaria à noite e, pela manhã, após a extração do prazer, condenaria todas e cada uma de suas sucessivas esposas à morte. É como se a misoginia do rei Xariar entrevisse em cada mulher uma descendente de Eva, a (suposta) culpada pelo fato de os seres humanos terem sido expulsos do Éden mitológico. 

Ora, a história nos ensina que os senhores têm o privilégio de alienar a própria culpa para os escravos. Por essa (pato)lógica, os pobres seriam culpados por sua pobreza, assim como as mulheres seriam responsáveis pelos abusos que sofrem. Em suma, a vítima seria culpada por ser vítima. 

O reino de Xariar se põe em polvorosa: pais e mães velam suas filhas assassinadas, mães e pais rogam clemência ao soberano, mas ninguém consegue demover o rei traído de sua sanha de vingança. Eis que surge, então, o destemor de Sherazade, moça que “tinha lido livros de compilações, de sabedoria e de medicina; decorara poesias e consultara as crônicas históricas; conhecia tanto os dizeres de toda gente como as palavras dos sábios e dos reis. Conhecedora das coisas, inteligente, sábia e cultivada, tinha lido e entendido”. 

Sherazade, ademais, era a primogênita do vizir encarregado de matar as esposas do rei. A filha pede ao pai que a entregue em casamento ao rei Xariar e permita que o soberano a mate. (A simbologia moral do Livro das Mil e Uma Noites nos sugere que o potencial martírio de Sherazade, a filha do carrasco do rei, toma para si a culpa por todas aquelas que pereceram pela espada do pai.) 

É assim que, para desespero do vizir, a filha do carrasco real se vê entregue ao vingativo Xariar, que já sonha com a degola de mais uma esposa/potencial traidora. Ocorre que Sherazade, lançando mão de todo o seu talento, começa a envolver o rei com os fios de uma teia sumamente inusitada: a cada noite, ela conta ao senhor de sua morte uma estória repleta de aventura e desejo, fúria e perdão. Quando Xariar descobre que seu reino se expandira pela anexação do arquipélago da fantasia, o rei se torna súdito da imaginação. 

A cada narrativa noturna de Sherazade, a vida prolonga o xadrez com a morte. Enquanto nossa contadora de estórias conseguir fisgar – ou melhor, inebriar – o imaginário do rei Xariar, as 1.001 (1.002, 1.003, ...) noites adiarão o xeque-mate ao amanhecer. Ao fim de cada estória, Sherazade sentencia: “Isso não é nada perto do que lhe contarei na próxima noite, se eu viver e o rei me poupar.”

Como as narrativas de Sherazade despontam com sumo lirismo e criatividade mesmo sob a lâmina afiada da guilhotina, as Mil e Uma Noites nos revelam a cumplicidade entre o belo e o bélico. Afinal, como a expansão do reino literário de Xariar (e da humanidade como um todo) vai acontecendo enquanto nossa heroína beira a morte, somos obrigados a concordar com a dolorosa máxima segundo a qual a necessidade é a mãe da invenção – no caso de Sherazade, o cadafalso é o pai da ficção, e a iminência da degola, a madrasta da fantasia. 

É assim que, ao longo das 1.001 noites de lirismo e medo, Sherazade vai afagando Xariar com estórias e máximas repletas de alçapões e sentidos. Na 773.ª noite, por exemplo, nossa heroína fita os olhos do rei com decisão e ternura – combinação bem própria à sedução – para lhe contar que “palavras suaves suavizam mesmo os corações mais duros que o ferro, e palavras ásperas tornam ásperos mesmo os corações mais suaves que a seda. (...) A tristeza é um mal do coração, tal como a dor é um mal do corpo; a alegria é o alimento do espírito, tal como a comida é o alimento do corpo.”

Ora, o rei irado pela vingança, que antes só fazia beber de um cálice de fel, vai arrefecendo suas trincheiras – é como se Sherazade insinuasse ao senhor de sua morte que é preciso tirar os coturnos da guerra para sentir o frescor das gotículas matinais de orvalho pela campina. Assim, prossegue nossa narradora noturna, “quem nada planta, mesmo tendo sua terra umedecida, não vale nada. Quem não tem coração e elevação é árvore sem fruto.” 

Imaginemos, agora, como os olhos negros de Sherazade fixaram-se no semblante do rei Xariar antes de lhe narrar – ou, melhor ainda, antes de lhe ensinar – que “quem desembainha a espada da injustiça acaba se matando com ela; quem não é equânime consigo próprio não se livra da tristeza; quem, por sua vez, libera a mão no doar tem o rosto iluminado pela luz. Aquele que não se previne do seu pecado o tem sempre a seu lado. A juventude é amamentada pela loucura, e a velhice é companheira da respeitabilidade e da placidez.”

É bem provável que, enquanto ouve tais máximas, o rei Xariar cofie a barba como a imagem tangível das ruminações que ficam dando cambalhotas ao redor de si mesmas. Para não perder a bela oportunidade de cicatrizar as feridas do soberano cada vez mais sensibilizado, nossa heroína emenda uma brevíssima estória de um homem misterioso que caminhava a esmo por uma estrada vestido com uma roupa grosseira. Súbito, “o sapiente Luqmän [uma das fontes literárias de Sherazade] perguntou ao andarilho: ‘Quem és tu, ó homem?’ Respondeu: ‘Um filho de Adão’. Perguntei: ‘Qual o teu nome?’ Respondeu: ‘Tenho de ver como me chamarei’. Perguntei: ‘O que fazes?’ Respondeu: ‘Abandono o mal’”. 

*Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela USP, com pós-doutorado em literatura russa na Northwestern University 

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