O mais longo beijo

O mais longo beijo

Lee Siegel, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2014 | 16h00

:::MUNDO REAL::: Esta ficção foi baseada nos seguintes fatos de 2014: No Brasil e no exterior, 2014 foi um ano de muitas perdas no cenário artístico. Entre os brasileiros, morreram João Ubaldo Ribeiro, Jair Rodrigues, José Wilker, Paulo Goulart, Hugo Carvana, Eduardo Coutinho, Ariano Suassuna. Lá fora, Gabriel García Márquez, Robin Williams, Philip Seymour Hoffman, Joe Cocker e Roberto Bolaños (o Chaves).

Poucas pessoas compreendiam por que ele precisava ficar alto, e quando tentava lhes explicar, isso as deixava incomodadas. As pessoas esperavam ouvir sobre seus demônios, sobre algum tipo de desespero quotidiano. Elas podiam compreender a necessidade de fugir da dor. Todo o mundo sofre e cada um tem os próprios meios de escapar da maneira como sofre. Mas quando Philip Seymour Hoffman começou a falar de seus vícios - e ele só discutiu isso com alguns amigos íntimos, e seu terapeuta, é claro - ele não falou de desespero. Falou da fama o alçando a tais níveis de excitação e poder que não podia suportar a descida deles.

Longe das câmeras, longe das multidões e das mulheres, para onde quer que virasse, quando estava sozinho sem nada para fazer, sem nenhum lugar especial para ir, e sem nada de irreal para comprar com dinheiro que jorrava de todos os lados, ele imediatamente ansiava voltar à névoa deslumbrante, porque era ali que, por mais que quisesse fugir dela, cada molécula dentro dele era como o big-bang, suas vísceras pareciam tangidas pela poeira brilhante e os gases iridescentes de um planeta girando em formação no espaço. Depois de ser amplificado pelas câmeras e as multidões, Hoffman não conseguia suportar o retorno às próprias proporções quando estava longe delas. Mesmo a bebida só o levantava até a metade da altura. A heroína o fazia subir o percurso todo. Quando estava alto, ele estava no lugar que lhe cabia. Qual personagem em qual filme disse que queria se tornar imortal primeiro, antes de morrer? Em qual filme mesmo? De todo modo, foi uma grande sacada. A coisa era exatamente assim.

Ele estava indo bem nos Alcoólicos Anônimos até um dia em que outro membro de seu grupo, um sujeito que possuía uma cadeia de lojas de sapatos de luxo no sul da Califórnia - Hoffman tinha dois pares de sapatos que havia comprado em uma das lojas - , se levantou e fez um solilóquio sobre sua necessidade de álcool que atingiu Hoffman com a força de um monólogo shakespeariano. “Eu bebo quando estou deprimido”, disse o homem, “e bebo quando estou eufórico. Bebo quando falhei e bebo quando triunfei. Bebo antes do sexo e depois do sexo, bebo quando estou cercado de amigos ou de estranhos, ou quando estou sozinho. Bebo para me punir e bebo para me recompensar. Bebo quando quero continuar vivendo e bebo quando quero morrer.”

“Bravo”, gritou Hoffman, levantando-se para aplaudir, a única vez em que manifestou sua vocação e, portanto, sua celebridade no grupo, uma erupção que momentaneamente empolgou as demais pessoas presentes e depois pareceu deixar todos cabisbaixos e deprimidos. Mas aquele homem havia falado uma verdade, pensou Hoffman. Aparentemente, ninguém podia suportar viver numa intensidade normal. Se pessoas comuns não podiam suportar suas vidas comuns, decorria daí que ele não poderia suportar a sua extraordinária. Drogar-se para ficar em seu nível apropriado era um dos riscos de sua profissão. Quando voltou para casa depois dessa reunião dos AA ele voltou à bebida e às drogas - mas não antes de pôr no lixo os dois pares de sapato que adquirira na loja do homem. A crença de que podia ligar e desligar seus vícios ao bel-prazer havia se degenerado em superstição.

Ele não poderia discutir essas coisas com as pessoas que às vezes o encontravam sentado a seu lado em um dos bares que ele havia transformado em seus segundos lares em Nova York e Los Angeles. Hoffman podia facilmente se infiltrar na vida do dono das lojas de calçados - essa era sua profissão, afinal -, mas era demais pedir que as pessoas vissem as coisas da perspectiva de Hoffman. Mas ele ansiava interpretar a si mesmo quando não estava interpretando algum outro. Philip Seymour Hoffman já não fazia sentido para ele, se algum dia fizera, a menos que ele estivesse interpretando Philip Seymour Hoffman.

Enquanto estava sentado ao lado de algum estranho esforçando-se para fingir ser blasé ao falar de sua celebridade, ele sentia aquela coceira de começar a interpretar Hoffman e falar de sua necessidade de um Hoffman melhor, maior e mais forte. Mas não sabia tentar. O álcool o ajudava nisso, também. Mesmo quando estava se expandindo sobre algum assunto trivial como beisebol e política (sem perigo de falar sobre a última: todos que ele encontrava em Nova York e Los Angeles amavam a esquerda, odiavam a direita e gastavam uma pequena fortuna toda primavera com contadores procurando brechas fiscais) ele continuava entornando a bebida, trancando Hoffman dentro de Hoffman; ficando nos bastidores, por assim dizer. 

Assim, naquela tarde chuvosa em que entrou no Mud, um buraco indescritível que ele frequentava em Greenwich Village, Nova York, que não tinha nome ou algum traço distintivo indicando que era um lugar público, e viu a figura familiar sentada no bar acalentando uma cerveja e olhando pensativamente para o espaço, ele se sentiu ligado, tenso de antecipação, pronto para começar a se interpretar. Havia encontrado Robin Williams algumas vezes, aqui e ali, e tinha um relacionamento apenas superficial com ele. Sentia-se mais próximo do Williams real, de fato, sempre que o via representar na TV a cabo do que quando haviam trocado gentilezas em vários ambientes sociais.

Williams também era, como Hoffman, impelido pelas Fúrias, mas enquanto Hoffman enterrava seus demônios nos personagens que fazia, Williams usava seus personagens e sua persona cômica para deixar seus demônios à solta. Com os olhos cravados nos tênis finos branco, preto e laranja de Williams, Hoffman pensou que ele e o cômico eram como o yin e o yang de Hurtsville. Ele se imaginou dizendo isso a Williams e Williams rindo e replicando, “ei, posso usar essa fala?”

Ele se sentou ao lado de Williams num banquinho alto de alumínio, o desconforto do banquinho na proporção inversa das virtudes de seu estilo. Williams bebericava sua cerveja e fitava algum ponto aparentemente no outro lado do espelho antigo que estava meticulosamente salpicado de pequenas manchas. Hoffman conhecia aquele olhar. Bloquear tudo ao redor era um dom de ator de cinema, uma habilidade necessária quando se está diante da câmera e na frente de dezenas de pessoas, e um dom facilmente convocado quando não se está diante da câmera, mas no meio de dezenas de pessoas.

“Curti os teus pisantes”, disse Hoffman.

Williams captou Hoffman pelo canto do olho sem virar a cabeça e sorriu. Depois, virou-se para ele, ainda sorrindo, curvou-se para baixo e deu uns tapinhas com a mão nos tênis. 

“Nike”, ele disse. “A deusa do pedaço.” 

Hoffman deu uma risadinha. “Oi, Robin”, ele disse, estendendo a mão ao cômico. Williams a apertou. “Oi, Philip, meu chapa.”

Foi divertido, tudo que os dois homens sabiam um do outro eram os mesmos detalhes sobre as vidas alheias que as pessoas que leem as revistas de celebridades conheciam. Vícios, casos amorosos, adultérios, casamentos, compras extravagantes, fofocas sobre jogadas de carreira, valor em alta ou em baixa como artistas, valor líquido flutuante. Quem foi mesmo que disse que a fama era a soma dos mal-entendidos que se acumulavam em torno de um nome? A fala pipocou na cabeça de Hoffman e sumiu rapidamente. Ele já fora um homem culto. Agora, apenas lia roteiros ou assistia à CNN e quando não estava trabalhando passava o resto do tempo alto, ou tentando não ficar alto, com seus amigos procurando decidir em que restaurante comer. Ele raramente via a mulher e os filhos, embora amasse os filhos ainda mais desesperadamente por isso, e o desespero com que os amava o consolava um pouco por raramente os ver. Também amava a mulher, mas havia tal distância entre eles agora que ficavam mais próximos quando separados. Essa era uma grande tirada sobre a fama. Quem foi mesmo que a disse? Hoffman se preocupava com seu cérebro, que parecia se sacudir em sua existência surreal como uma maçã num barril.

Ele não conseguiria lembrar, mesmo se tivesse sabido, onde Williams estava no arco da vida. Tinha se casado com a namorada do colegial, não era? Juntos todos esses anos, apesar das brigas, tentações, traições, permutações incríveis de identidade. Que doçura, pensou Hoffman. Como Mastroianni e sua mulher, certo? Ou era Yves Montand? Provavelmente Mastroianni. E real: como com Williams. Espere aí, pensou, não foi Williams que largou da mulher pela criada, muito mais jovem? Hoffman balançou a cabeça. Isso também seria típico de Williams. Uma criatura impulsiva: real.

“Gosto deste lugar”, disse Williams.

“Sim”, concordou Hoffman.

“É o seu canto?”, perguntou Williams.

“Quando estou na cidade”, disse Hoffman. Ele ficou chocado com o modo como os cantos da boca de Williams desciam e começou a sentir involuntariamente sua boca fazer o mesmo. De repente, ele se sentiu impelido a contar a Williams que se sentia como que morrendo, o tempo todo. Em vez disso, porém, disse quase reflexivamente, como se parando para beijar uma medalha religiosa, “amei o teu último”. “E eu o teu”, respondeu Williams prontamente. Eles se entreolharam e ruborizaram.

Hoffman pediu uma cerveja. Williams olhou para ele e sorriu. “Uma cerveja chuvosa num lugar escuro e quente”, disse Hoffman, querendo dizer mesmo é que admitia estar bebendo de novo, mas estava tudo ok. “Tão difícil de achar em Los Angeles como uma folha de outono”, disse Williams, querendo na verdade dizer que sabia que não estava tudo legal e lamentava, mas compreendia. Falava com um leve sotaque, como se mantendo seu talento em marcha lenta. Quanto mais ele sorria, mais inexpressivamente triste parecia, pensou Hoffman. De repente, o próprio Hoffman se sentiu inexpressivamente triste. Queria dizer a Williams que às vezes podia sentir o metal do revólver na boca. Sentia que podia lhe contar isso, que Williams lhe diria alguma coisa que o faria jamais querer ficar alto de novo.

Em vez disso, porém, perguntou a Williams se ele ainda estava com a mesma agência, embora não tivesse a menor ideia de qual agência era. “A mesma, e ainda mais”, disse Williams, modulando ligeiramente seu sotaque como se estivesse começando a engrenar a marcha do seu talento. 

Williams deixou algum dinheiro no balcão, pôs a mão sobre o braço de Hoffman e disse: “Como Chaplin disse certa vez a Groucho Marx quando estavam ambos em seus anos crepusculares e saindo de uma festa de ano-novo: ‘Continue vivo’”. Hoffman se sentiu compelido a jogar os braços em torno de Williams e chorar. “Você também”, respondeu, pondo a mão sobre a de Williams.

Depois que Williams saiu, ele sentiu como se tivesse entrado em comunhão de alguma maneira misteriosa com um espírito afim. Isso, pensou, era o mais afim que teria. Mas se sentiu mais forte, como se tivesse realmente se debruçado sobre o ombro de Williams e posto tudo para fora em vez de apenas imaginar. Era mais jovem que Williams, também. Ainda estava no auge de sua carreira. Williams, pobre cara, parecia esgotado.

Hoffman pensou que iria para casa comemorar: sua carreira, seu estoque de energia, a admiração de um ator mais velho que ele próprio admirava e o fato de que tinha tido uma comunhão com outra alma irmã. Ele não ia morrer, afinal. Iria para casa, tiraria a roupa como alguém que se prepara para o leito nupcial, sentaria no vaso sanitário e injetaria o mais longo beijo de toda a criação em suas abençoadas veias. Depois poderia continuar com o que parecia, dia após confuso e desconexo dia, o negócio cada vez mais inútil de viver para sempre. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

ESCRITOR, ENSAÍSTA E CRÍTICO CULTURAL AMERICANO, ESCREVE PARA O JORNAL THE NEW YORK TIMES E AS REVISTAS THE NEW YORKER E THE NATION, ENTRE OUTRAS. NASCEU EM NOVA YORK

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