The Estate of Philip Guston
The Estate of Philip Guston

O multiforme Philip Guston

O pintor americano não hesitou em mudar radicalmente de estilo, mesmo estando no auge do sucesso

The Economist, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2017 | 16h00

Na série de telas Na Cama, de Philip Guston, atualmente expostas na Galerie dell’Accademia, em Veneza, o artista e sua mulher, já idosos, são retratados sob as cobertas — ora juntinhos, ora dormindo tranquilamente um ao lado do outro. A atmosfera afetuosa das obras é surpreendente, uma vez que elas são realizadas no curioso estilo que Guston desenvolveu no fim da década de 1960, e continuou a usar pelo resto da vida, em que sobressaem traços típicos das histórias em quadrinhos. Mas essa não é a única surpresa de uma exposição que convida o espectador a sondar a psique de um artista mais conhecido pelas violentas críticas de que foi alvo ao deixar para trás o expressionismo abstrato.

Nascido no Canadá, Guston (1913-1980) passou a infância e a adolescência em Los Angeles. Começou a desenhar ainda criança e logo se apaixonou pela arte da Renascença italiana. Conheceu Jackson Pollock ao ingressar no ensino médio, na Los Angeles Manual Arts High School, de onde a dupla seria expulsa por publicar um jornalzinho criticando o fato de os professores darem mais valor às atividades físicas do que à arte. O artista, que praticou o muralismo durante a Grande Depressão, abraçou com sucesso o expressionismo abstrato no pós-guerra e então retornou ao figurativismo, tem uma trajetória que não apenas é individualmente fascinante, como também sintetiza as idas e vindas da arte americana no período.

No início dos anos 1950, Guston foi uma das figuras de maior destaque da chamada Escola de Nova York, com telas que se distinguiam por suas tramas cerradas, urdidas com pinceladas em tom frequentemente rosa ou vermelho, em que alguns críticos viam elementos de Monet. Na década seguinte, porém, o artista, movido sobretudo por razões políticas, retornou ao figurativismo. Com as manifestações de protesto contra a Guerra do Vietnã se espalhando pelos EUA, Guston começou a se considerar um sujeito “esquizofrênico”. Indagava a si próprio: “Que espécie de homem sou eu? Alguém que fica em casa, remoendo a raiva com quase tudo que anda acontecendo por aí e depois vai para o ateliê a fim de ajustar um vermelho a um azul?”

Foi um retorno muito pouco convencional. Inspiradas em Goya, Daumier e nas tirinhas do personagem Krazy Kat, que divertiam o artista na adolescência, as novas telas de Guston, apresentadas ao público em 1970, na Marlborough Gallery, de Nova York, traziam figuras perturbadoramente encapuzadas, à semelhança dos membros da Ku Klux Klan, pintando e bordando a bordo de automóveis. A maioria dos críticos reagiu com indignação, em particular Hilton Kramer, que em outubro daquele ano publicou artigo célebre no New York Times, com o titulo Um Mandarim se Fazendo de Palerma. “Foi como se eu tivesse abandonado a Igreja”, diria posteriormente Guston. “Por um tempo fui um excomungado.”

Naquela altura, o expressionismo abstrato havia se tornado a nova ortodoxia; o establishment americano se apropriara do movimento e o exibia mundo afora como símbolo do domínio cultural do país — e Guston não foi o único a rejeitá-lo. Para artistas mais jovens, como Donald Judd, o impulso inicial se esgotara. Ainda em 1964, Judd havia dito: “Pollock morreu. É generalizada a sensação de que o expressionismo abstrato está morto, nada mais vai nascer daí.”

Foi o momento em que brotaram o minimalismo e a pop art, o momento em Robert Rauschenberg “reintroduziu o mundo” na arte. E, embora Guston não tivesse a menor queda pela pop art, pode-se dizer que nenhum outro artista se atracou com o mundo com tanta gana como ele. Prova disso são os desenhos não só selvagens, como selvagemente engraçados, que ele fez de Richard Nixon em 1971, atualmente expostos na galeria Hauser & Wirth, em Londres. A exposição termina com uma tela extraordinária, de 1975, em que Nixon é retratado já como um homem derrotado. Guston poderia ter suavizado o golpe; em vez disso, mostra o ex-presidente dos EUA arrastando a perna monstruosamente inchada (consequência de uma tromboflebite que o Nixon sofreu um mês depois de renunciar à presidência), deitando enormes lágrimas de autocomiseração.

O poder e o prazer desses desenhos derivam, em parte, da consistência de suas imagens: pregos enferrujados protuberam na cabeça do vice-presidente Spiro Agnew; Henry Kissenger é reduzido a um par de óculos. O intrigante, porém, é que as imagens criadas por Guston nessas caricaturas — de sapatos e pregos a pernas peludas e cabeças pontiagudas — reaparecem nas obras posteriores expostas em Veneza, cuja história é tudo menos política.

“Minha intenção foi explicar Guston com o auxílio dos poetas”, diz Kosme de Barañano, curador da exposição de Veneza. O resultado é uma mostra de caráter altamente especulativo, que faz breves incursões pelas obras de alguns poetas do século 20, como D. H. Lawrence, T. S. Eliot e Eugenio Montale, para encontrar significados nas imagens “simples porém estranhas” de Guston.

Transbordando com ideias sobre a vida, a morte, a criação artística e o envelhecimento, a exposição se encerra com um horripilante, ainda que sereno, retrato em perfil de Eliot em seu leito de morte, que Guston pintou também em seu último ano de vida. Ao ser vendida, a obra retornou quase de imediato às mãos do marchand: a mulher do comprador não suportava olhar para o quadro. “Velhos têm de ser exploradores”, diz a citação de Eliot estampada ao lado da tela na Galerie dell’Accademia. Isso Philip Guston certamente foi.

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