REUTERS/Laszlo Balogh
REUTERS/Laszlo Balogh

O mundo fora dos trilhos

Enquanto mercadorias atravessam fronteiras com extrema facilidade, os muros entre os homens estão cada vez mais intransponíveis

Entrevista com

Francis Wolff

Andrei Netto | PARIS, O Estado de S. Paulo

05 Setembro 2015 | 16h00

No 10º distrito de Paris, próximo às estações de trem Gare du Nord e Gare de L’Est, zona conhecida - de forma pejorativa - como Little India, vivem milhares de estrangeiros provenientes de países como Sri Lanka ou Bangladesh e, em menor escala, da Índia e do Paquistão. Eles compõem, em sua maioria, uma massa de refugiados e asilados políticos que encontraram na França, suposta “terra de acolhimento e dos direitos humanos”, um porto para recomeçar suas vidas em meio ao desenvolvimento econômico europeu. 

Nessa região “guetoizada” e onde é difícil cruzar com um “francês de origem” vive o filósofo Francis Wolff. Professor da Escola Normal Superior (ENS) de Paris, este discípulo de Louis Althusser fez parte entre 1980 e 1984 de uma linhagem de pensadores franceses que passaram pela cátedra permanente no Departamento de Filosofia da USP sucedendo Gilles Gaston Granger e Gérard Lebrun. Especialista em filosofia antiga e em Aristóteles, Wolff trabalha temas como a metafísica e o político, alimentando-se da antropologia e do humanismo para construir sua obra. No Brasil, publicou Sócrates, Aristóteles e a Política, Dizer o Mundo e Nossa Humanidade - De Aristóteles às Neurociências e participou em agosto do ciclo Mutações: O Novo Espírito Utópico, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. 

Nessa conferência, Wolff abordou o tema das Três Utopias da Modernidade, uma oportunidade para retornar à ideia de utopia, tema que motivou desde paixões políticas a ideologias cegas a totalitarismos sanguinários que marcaram o passado recente, em especial na Europa. Dentre essas três utopias, explicou, está sua preferida: a que chama de “humanismo cosmopolita”, marcada por um mundo sem fronteiras.

Em entrevista ao Aliás concedida na sexta-feira em sua residência, Wolff analisou à luz da utopia do humanismo cosmopolita a tragédia da crise imigratória na Europa, agora eternizada pela foto de Nilufer Demir, jornalista de 29 anos da agência turca DHA. Na imagem, vê-se o corpo do pequeno Aylan Kurdi, uma das vítimas do naufrágio de um barco que trafegava na faixa marítima entre Bodrum, na Turquia, e a ilha de Kos, na Grécia.

Segundo o filósofo, os engajamentos assumidos pela comunidade de nações no pós-guerra, como a liberdade de circulação e o direito ao refúgio e ao asilo político, são violados pelos mesmos Estados que os estabeleceram ao incluí-los na Declaração Universal dos Direitos do Homem. “Os engajamentos são tão pouco respeitados”, relembra Wolff, “que as autoridades de todos os países, em especial os europeus, cogitam, publicamente e sem reservas, com o mais perfeito cinismo, destruir os barcos dos que tentam exercer seus direitos”. Ou seja: ilegais não são os imigrantes em fuga de guerras, da fome ou em busca de oportunidades de trabalho - mas os países que não cumprem tratados internacionais. 

A seguir, a síntese da entrevista.

Qual a sua reação após ver a foto da criança morta na praia da Turquia?

Minha reação é mais uma reflexão sobre o poder da imagem do que sobre a realidade. É a imagem da vergonha que a Europa deve sentir neste momento. Mas tudo o que foi dito há meses sobre a realidade é ainda pior do que essa imagem e não teve o mesmo efeito. Milhares de palavras, de descrições, de estatísticas… tudo foi impotente frente ao impacto dessa foto. Uma criança é a encarnação da fragilidade, da inocência. Nessa imagem ela também encarna a solidão. Espero que tenha o efeito que milhares de discursos não tiveram. 

E o que a crise imigratória lhe inspira?

A minha primeira observação é que estamos em meio a uma globalização econômica e financeira. As mercadorias nunca atravessaram as fronteiras com tamanha facilidade. Em segundo lugar, vivemos uma uniformização cultural profunda, na qual a informação e a grande mídia também são globais. Não digo que essa uniformização seja total, porque a civilização chamada ocidental não é mundial. Mas todas as pequenas culturas estudadas ao longo de muito tempo pela etnografia estão se dissolvendo em um mundo sem fronteiras culturais nítidas. Em terceiro lugar, os grandes conflitos são cada vez mais transnacionais. Ou seja: vivemos de certo modo em um mundo sem fronteiras. Mas, ao mesmo tempo, algumas fronteiras físicas entre Estados-nação, nascidos em geral no século 19 ou 20, são cada vez mais altas. Eis o grande paradoxo.

Como esse paradoxo se traduz?

No século 19 era mais fácil atravessar o Atlântico do que hoje o Mediterrâneo. No início do século 20, em 1903, mais de 12 mil pessoas chegavam por dia ao porto de Staten Island, de Nova York. Hoje sabemos que algumas fronteiras são mais difíceis de atravessar - para as pessoas, claro, não para as mercadorias. A invenção do passaporte é invenção recente. A noção de fronteira nítida também só aparece na modernidade. As pessoas que podem viajar viajam e circulam cada vez com mais facilidade. Para elas, as distâncias são cada vez mais curtas. Mas há outras para as quais existem fronteiras. Esse é o paradoxo e o drama que estamos vivendo, em especial na Europa, embora exista o mesmo problema em outras partes do mundo, como entre o México e os Estados Unidos. É um drama absoluto.

Logo há pessoas que têm o direito de se deslocar, e outras não. 

Minha revolta é contra essa dificuldade do humanismo prático nos nossos dias. Existe uma única humanidade. A maior parte dos sonhos e das reivindicações políticas sempre foi feita em nome de um Estado. Desde Aristóteles, todos os teóricos da Justiça imaginam a República com suas fronteiras. Mas hoje não poderíamos mais pensar a Justiça que não fosse de forma internacional, transnacional, sem fronteiras. Temos todas as condições para pensar assim, mas será cada vez mais difícil aplicar esse pensamento. Essa é a grande lição, a meu ver, do que está se passando nessa crise na Europa.

Na Europa há o princípio da livre circulação, mas não para quem vem de fora.

A noção da construção da União Europeia desde a 2ª Guerra é um projeto muito bonito à medida que as nações que foram o foco do mais importantes conflitos da história, França e Alemanha em especial, decidiram acabar de forma progressiva com as fronteiras. Mas uma grande parte da população europeia esqueceu que nós o fizemos para acabar com conflitos seculares. Hoje a maior fronteira que existe é entre a Europa e seus confins, entre a Hungria e a Sérvia, por exemplo. Essa crise, além do desastre humanitário, pode ter mais uma consequência nefasta: retornar ao mundo com fronteiras - o que para mim seria não o fim de uma utopia, nem de um sonho, mas de uma realidade construída passo a passo após a 2ª Guerra.

Isso é impulsionado pela reação de grupos identitários, contrários à globalização, como a Frente Nacional, na França, ou o Ukip, no Reino Unido?

Eles não são dois movimentos contrários; são um só. As populações que se sentem mais inseguras na Europa reagem assim por não mais perceberem a existência de fronteiras, sejam elas reais ou metafóricas. É uma insegurança cultural, religiosa, econômica que gera um populismo de extrema-direita, instrumentalizador da noção de identidade. Para boa parte da classe operária, por exemplo, os sindicatos, as organizações sociais de base, as redes de solidariedade, o pertencimento a um partido político não existe mais. Tudo isso está desaparecendo, e essas pessoas se sentem nuas frente a uma globalização considerada a grande culpada. 

Essa reação é de uma minoria que grita mais forte por se sentir oprimida?

Há casos diferentes em regiões diferentes. Em países que estão nas fronteiras da Europa, como os antigos membros do bloco soviético, as opiniões são muito mais contrárias ao fluxo de imigrantes, em parte por terem o sentimento de serem o primeiro front. Em outros países, como a França, infelizmente, a Inglaterra, a Holanda, a Itália, há movimentos de extrema-direita muito fortes, enquanto na Espanha e Grécia os núcleos são populistas de extrema-esquerda. De uma forma geral, a fraqueza da Europa é não ter uma política bem definida do que significa a ideia europeia. Ela tinha um fundamento universalista. Hoje, essa mensagem parece estar se perdendo.

Talvez por ser um projeto político inacabado? Uma certa ideia de Europa pressuporia o caminho em direção a um governo europeu sólido.

A União Europeia foi um pouco construída pelo avesso. Fizeram uma Europa econômica e financeira, com o euro, antes que as condições de transferência de riqueza de uma região para outra estivessem criadas. As redes de solidariedade e o sentimento europeu ficaram para trás na construção europeia. 

A Europa se perdeu em seu humanismo?

Valores foram compartilhados quando as populações tinham o sentido do progresso, quando o futuro parecia belo. Mas, a partir do momento em que se estabelece a ideia de que o futuro será bem pior do que o passado, então já se entra em uma espiral de defesa da sua identidade, de seus bens, etc. 

O senhor mencionou em uma conferência no Brasil duas utopias que ocupam o vácuo das grandes utopias do século 19, fracassadas. Estas desmoronaram e abriram um vazio filosófico e moral?

Exatamente. O que podemos ver com clareza é que alguns movimentos hoje não existem em nome de uma classe social, por exemplo, mas sim em nome de uma utopia que eu chamei de biosférica. Na Califórnia, a utopia máxima é o transumanismo. Nos campos americanos, é a apologia ao animalismo, ao vegetarianismo - o vegano -, cada vez mais forte, com uma moral que põe no mesmo plano o homem e os animais. Essas duas utopias parecem profundamente morais. Toda moral é por conceito universalista. Mas o que constatamos é que a verdadeira universalização hoje é econômica, e não moral. A utopia animalística, que faz do homem um animal como os outros, e a utopia transumanista, que pretende fazer do homem um ser imortal, são ambas perigosas. Deveríamos pensar uma nova utopia, que eu chamo de utopia humanista, ou seja, a reflexão sobre o mundo a partir da ideia de homem. Essa é a utopia do sem fronteiras.

A expressão "utopia" foi no último século muito associada às ideologias, grande parte delas autoritárias ou totalitárias. Mas o senhor faz parte de um grupo pequeno de intelectuais que recupera essa expressão. Por quê?

A utopia é a maneira de criticar o presente sem os limites do realismo, ou seja, sem precisar procurar os melhores meios para chegar ao fim desejado. Não estou defendendo a utopia em geral ou a ideia de que a partir de agora devemos defender novas utopias. Muito menos estou defendendo as utopias passadas ou que estão se desenvolvendo hoje. O que estou dizendo é: se realmente queremos uma utopia, a coisa mais desejável e mais impossível é o mundo sem fronteiras. Se desejamos um ideal sem consideração do possível, então a mais bela, a mais impossível, a mais racional e mais difícil de se atingir seria o mundo sem fronteiras. 

O senhor define utopia como algo que não tem um projeto de realização. Mas, se classificarmos um mundo sem fronteiras como utópico, então não seria desejável construir esse mundo sem fronteiras. É isso?

Tomemos o exemplo do Estado Islâmico. Esse grupo carrega consigo um projeto político sem consideração alguma pelas fronteiras. Eles não consideram os limites entre a Síria e o Iraque porque acreditam que a única distinção que faz sentido é entre os muçulmanos e os não muçulmanos, entre xiitas e sunitas e, entre sunitas, aqueles que fazem uma leitura literal do Corão. Portanto, é um projeto político, não uma utopia. Assim como o imperialismo, o colonialismo, o comunismo, o socialismo o foram no passado, o Estado Islâmico é um projeto político transfronteiriço, que não reconhece fronteiras nem os Estados históricos. É um projeto construído em nome de uma certa definição religiosa do homem, mas eles não estão fundados na ideia do homem. Existem atualmente projetos políticos totalitários - muito diferentes daqueles do século 19 ou 20 - que procuram todos os meios de se tornarem reais, e muitas vezes se realizam pela força. Algo diferente é a utopia. Eu não defendo nenhuma utopia. Apenas digo que a mais desejável e mais impossível é o humanismo cosmopolita. 

Em muitos ambientes hostis, em guerras ou em campos de refugiados, fica claro que não só pessoas desesperadas pelos conflitos ou pela fome estão deixando seus países em busca de liberdade e segurança, mas também os que o fazem por razões econômicas, porque querem participar de um certo Ocidente onde buscarão emprego, desenvolvimento e acesso a bens de consumo.

Sim, concordo que ela existe e é forte. Minha primeira observação sobre isso é de que a pobreza se transforma em miséria quando se tem consciência de que seria possível viver sem pobreza em outro mundo - que pode ser um outro país ou um outro continente. Uma situação que não necessariamente seria vivida como miséria, mas como pobreza, passa a ser vivida como miséria a partir do momento em que se pensa que poderia existir acesso aos bens de consumo. Na Idade da Pedra não havia miséria, mas pobreza. Nessa época, havia poucas coisas, mas não havia o sentimento de que poderia haver muito mais, ou de que algumas pessoas têm muito mais do que outras. Podemos verificá-lo em pequena escala em sociedades tribais que nunca haviam vivido em situação de miséria, mas sim de pobreza. No momento em que se deparam com os bens de consumo, passam a se sentir em situação de miséria. Esse é um lado da globalização. Hoje, em quase qualquer lugar do planeta, as pessoas têm a informação de que seria possível viver em um lugar no qual haveria acesso a bens de consumo, e isso cria uma consciência de sua miséria. E esse sentimento de miséria não se limita a um sentimento, mas se transforma em miséria real, alimentado pelas sensações de desigualdade, de injustiça, de impotência, da falta de respeito a si mesmo, combustíveis de novos conflitos e novos movimentos migratórios.

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