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'O Ofício', do escritor russo Serguei Dovlatov, é traduzido no Brasil

Autor emigrou da União Soviética e publicou 12 livros nos Estados Unidos

Aurora Bernardini*, Especial para O Estado de S. Paulo

31 Março 2018 | 16h00

Concomitantemente com o filme de Aleksei Guerman Jr, Dovlatov, que estreou no recente Festival de Berlim, onde ganhou o Urso de Prata com o jovem Milan Marić no papel do escritor Serguei Dovlatov (1941-1990), a editora Kalinka lança O Ofício. Trata-se de mais um livro do escritor emigrado já conhecido no Brasil pelo hilariante Parque Cultural, publicado pela mesma editora, em 2017. “Ler Dovlatov é algo leve. Ele como que não reivindica atenção, não insiste em suas conclusões ou observações sobre a natureza humana, não as impõe ao leitor. Eu devoro seus livros em três ou quatro horas de leitura ininterrupta: justamente porque é difícil escapar de seu tom despojado. Ao ler seus contos e novelas, invariavelmente nos sentimos gratos pela ausência de pretensão, pelo olhar ponderado sobre as coisas...”

+++Nobel de Literatura em 1970 condena a opressão na União Soviética

Assim escreveu o poeta Joseph Brodski, dois anos após a sua morte repentina numa ambulância em 1990, num elogio ao amigo, também emigrado nos EUA, onde Dovlatov, a partir de 1979, publicara nada menos que 12 livros. E é isso é o que sentimos nós, leitores, ao lermos O Ofício que, na sua primeira parte, retoma os motivos do filme que se passam em 1971: alguns dias na vida do jovem Dovlatov. Seu entourage, a boemia de Leningrado e suas vicissitudes, os cafés e as redações que não queriam saber de publicar seus escritos, seus galanteios, suas bebedeiras. 

Há caracterizações engraçadíssimas no Livro Invisível (é assim que ele chama a primeira parte), cujos comentários reserva para si próprio, nas considerações que ele denomina Solos na Underwood: Pelo bulevar, ao longo de banquinhos amarelos, diante das lixeiras de gesso, caminha um homem de baixa estatura. Seu nome é Anatóli Náiman.

Suas pernas lestas são revestidas por jeans claros americanos. Em seus movimentos se nota a graça de um jovem príncipe. Náiman é um cowboy intelectual. Ele aperta o gatilho antes de qualquer oponente. Seus chistes afiados estão repletos de veneno. Uma mulher no bonde diz a Náiman:

“Ah, não me toque!”

“Não faz mal ,depois vou lavar as mãos...”

Ou então: “Tólia,” digo a Náiman, vamos visitar Liova Rýskin.”

“Não vou. Ele é um tanto soviético.”

“Como soviético? Você está equivocado!”

“Então é antissoviético. Qual a diferença?...”

Paradoxos dessa natureza tornam não menos divertida (e, mesmo assim, percuciente) a descrição, na segunda parte do livro, de suas experiências na América, muito próximas da autobiografia. Querendo publicar um novo jornal russo (O Espelho), ele e um grupo de companheiros emigrados resolvem procurar um financiador.

Na casa da tal Cíntia – prosseguiu Móker – volta e meia aparece um italiano. Eu topo toda hora com ele no elevador. Por sinal, ele só vai visitá-la de dia. Daí Cíntia imediatamente corre as cortinas. Que conclusão podemos tirar?

“Daí podemos concluir que Rizzo é dono de um estabelecimento noturno. Por isso faz amor apenas de dia. E todos os estabelecimento noturnos são controlados pela máfia.”

Os amigos marcam encontro com o “mafioso” na esquina da 17.ª com a 5.ª Avenida e, depois de vários coquetéis expõem ao italiano seu projeto.

“Não tocaremos em seu programa ideológico”, diz Móker. “Nós apreciamos lutadores honestos, pouco importam suas convicções. Ouvi falar muito de sua organização. Pessoalmente, os objetivos e, especialmente os métodos dela não me são familiares. Mas estou habituado a honrar a firmeza e a valentia em qualquer forma de manifestação... Estou ciente que as leis da organização são severas.”

Rizzo assentiu com a cabeça, orgulhoso: “Sim, a organização liquida instantaneamente quem a trai. Não é de se invejar o destino de quem descumpre a palavra dada à organização...”

Qual não é o espanto da turma quando, ao falarem em dinheiro, assim responde Rizzo: “Claro, eu falarei com o Rafael. Ele administra o caixa do partido. Francamente, duvido que aceite. Rafael é um pouco conservador. Estou certo que ele é muito mais conservador do que seu ídolo, Trotski. Nossa facção de maoistas de esquerda se encontra bem distante do centro...”

Sempre à procura do capital inicial para o jornal, Lémkus, outro companheiro que também escrevia para o Palavra e Ação, explica:

“Vocês simplesmente não conhecem a vida na América. (...) Você anda pela luxuosa avenida Madison. Em sua direção vem um cachorro, um puro dobermann. Você diz: “ Ah, que cachorro bonitinho!” E, com um movimento rápido, dá-lhe um piparote no nariz. O dobermann engancha sua perna. Você desmaia. Constatam um choque nervoso. Você telefona para um bom advogado. Processa o dono do dobermann. Pede uma indenização por danos físicos e morais. O dono-milionário assina um cheque de pelo menos vinte mil...”

Apesar do sucesso de público e de crítica do novo periódico, finalmente financiado por Larry e de seu fracasso financeiro (a redação acaba incendiada), o narrador em primeira pessoa consegue, graças à ajuda da atraente tradutora, Lynn Farber, ter contos seus publicados pela New Yorker. E mais, há um agente literário, Charlie, que lhe encomenda vários romances.

“Eu só pensava: acontece cada coisa! Um americano, falante de outra língua, ainda por cima ‘meio vermelho’, de esquerda, tornou-se mais próximo e mais compreensível do que meus velhos amigos. As relações humanas possuem um quê de mistério...”

*Aurora Bernardini é professora de pós-graduação em literatura russa na USP 

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