O pântano

No curso de três dias em agosto de 1991, durante o fracassado putsch contra (o ex-presidente soviético Mikhail) Gorbachev, o decadente império soviético oscilou e começou a cair. Alguns amigos e eu nos vimos na Praça Lubianskaya, no lado oposto da temível e poderosa KGB. Uma enorme multidão estava se preparando para derrubar o símbolo dessa sinistra instituição - a estátua de seu fundador, (Felix) Dzerchinski, "Felix de Ferro" como seus camaradas bolcheviques o chamavam. Alguns rapazes ousados haviam escalado o monumento e enrolado cabos em volta de seu pescoço, e um grupo os estava puxando sob os gritos e berros cada vez mais altos da multidão presente.

Vladimir Sorokin, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2014 | 02h21

De repente, apareceu do nada um aliado de Boris Yeltsin com um megafone e pediu que os presentes se contivessem, porque, assim ele disse, quando a estátua de bronze caísse, "sua cabeça poderia arrebentar a calçada e danificar importantes equipamentos de comunicação subterrâneos". O homem disse que um guindaste já estava a caminho para remover Dzerchinski do pedestal sem efeitos colaterais danosos. A multidão revolucionária esperou duas boas horas por esse guindaste, mantendo o ânimo exaltado com gritos de "Abaixo a KGB!"

Naquelas duas horas me assaltaram dúvidas sobre o sucesso da iminente revolução antissoviética. Tentei imaginar a multidão parisiense, em 16 de maio de 1871, esperando polidamente por um arquiteto e trabalhadores para remover a Coluna Vendôme. E caí na risada. O guindaste finalmente chegou. Dzerchinski foi baixado, colocado num caminhão, e levado embora. As pessoas corriam ao seu lado e cuspiam na estátua. Desde então, ele pode ser visto no parque de monumentos soviéticos desmontados perto da Galeria Nova Tretiakov. Há pouco tempo, um membro da Duma (a câmara baixa do Parlamento russo) propôs uma resolução para devolver o monumento ao seu antigo local. Tendo em vista os eventos recentes em nosso país, é bem provável que este símbolo do terror bolchevique retorne à Praça Lubianskaya.

O rápido desmonte recente dos monumentos soviéticos restantes na Ucrânia me fez lembrar do episódio com Dzerchinski. Dezenas de estátuas de Lenin caíram em cidades ucranianas; ninguém na oposição pediu para as pessoas as tratarem "de maneira civilizada", porque, neste caso, um desmonte "polido" só poderia significar uma coisa: preservar um símbolo potente do poder soviético. "Djugashvili (Stalin) está lá, preservado num jarro", como escreveu o poeta Joseph Brodsky em 1968. Este jarro é a memória do povo, seu inconsciente coletivo.

Em 2014, Lenins foram derrubados na Ucrânia e deixaram que eles caíssem. Ninguém tentou preservá-los. Esta "queda-de-Lenin" ocorreu durante o brutal confronto na Praça da Independência (Maidan) de Kiev, quando o poder de Viktor Yanukovich também ruiu, demonstrando que uma genuína revolução antissoviética finalmente ocorrera na Ucrânia. Na Rússia, não houve uma verdadeira revolução. Lenin, Stalin e seus associados sangrentos ainda repousam na Praça Vermelha, e centenas de estátuas continuam de pé, não só em praças e pracinhas da Rússia, mas nas mentes de seus cidadãos.

A fúria da resposta de nossos políticos e burocratas à destruição em massa de ídolos soviéticos na Ucrânia é reveladora. O leitor poderia pensar: por que lastimar a perda de símbolos do passado? Mas os burocratas russos entendem que seu amado Homo sovieticus desmoronou com Lenin. "Eles estão destruindo monumentos a Lenin porque ele personifica a Rússia!", exclamou um político. Sim: a Rússia soviética e a URSS, o império implacável, construído por Stalin, que escravizou povos inteiros, criou uma fome devastadora na Ucrânia e realizou expurgos e repressões em massa. A revolução ucraniana recente foi, de fato, dirigida contra os herdeiros desse império - Putin e Yanukovich. É revelador que as manifestações pró-russas na Crimeia e nas partes orientais da Ucrânia tenham ocorrido invariavelmente perto de estátuas de Lenin.

Infelizmente, o que houve nas últimas semanas na Ucrânia não ocorreu na Rússia em 1991. A revolução de Yeltsin acabou sendo de "veludo": ela não enterrou o passado soviético e não fez o julgamento de seus crimes, como foi o caso na Alemanha após a 2ª Guerra Mundial. Todos aqueles funcionários do partido que se tornaram "democratas" do dia para a noite simplesmente empurraram o cadáver soviético para um canto e o cobriram de serragem. "Ele vai apodrecer sozinho!", disseram.

Ai de nós, ele não apodreceu. Em sondagens recentes de opinião pública, quase metade dos pesquisados considerou que Stalin foi um "bom líder". Na nova interpretação da história, Stalin é visto como "um administrador competente", e os expurgos são caracterizados como uma rotação de quadros necessária para a modernização da URSS. A União Soviética desmoronou geograficamente e economicamente, mas ideologicamente ela sobrevive nos corações de milhões de Homo sovieticus. A mentalidade soviética se revelou tenaz; ela se adaptou ao capitalismo selvagem dos anos 1990 e começou a sofrer uma mutação no Estado pós-soviético. Foi essa tenacidade que preservou um sistema piramidal de poder que remonta a Ivan, o Terrível, e foi fortalecido por Stalin.

Yeltsin, que estava cansado após ter subido ao topo da pirâmide, deixou a estrutura absolutamente intacta, mas trouxe consigo um herdeiro: Putin, que imediatamente informou à população que via no colapso da URSS uma catástrofe geopolítica. Ele também citou o conservador tzar Alexandre III, para quem a Rússia tinha somente dois aliados: o Exército e a Marinha. A máquina do Estado russo se moveu para trás, para o passado, tornando-se cada vez mais soviética a cada ano.

Para mim, esta jornada de 15 anos de volta à URSS sob a liderança de um ex-tenente-coronel da KGB mostrou ao mundo a natureza viciosa e os sustentáculos arcaicos da estrutura de "poder vertical" do Estado russo, mais do que qualquer "grande e terrível" Putin. Com semelhante estrutura monárquica, o país fica automaticamente refém dos caprichos psicossomáticos de seu líder. Todos seus medos, paixões, fraquezas e complexos se tornam política de Estado. Se ele for paranoico, o país todo deve temer inimigos e espiões; se tiver insônia, todos os ministros terão de trabalhar à noite; se for abstêmio, todos terão de parar de beber; se foi um bebum, todos deveriam encher a cara; se não gostar dos EUA, contra os quais lutou sua amada KGB, a população toda não deve gostar dos EUA. Um país assim não tem um futuro previsível, estável; o desenvolvimento gradual é extraordinariamente difícil.

A imprevisibilidade já era o trunfo da Rússia, mas desde os eventos ucranianos, ela atingiu níveis sem precedente: ninguém sabe o que ocorrerá com nosso país daqui a um mês, uma semana, ou no dia seguinte. Eu acredito que nem mesmo Putin sabe: ele é hoje refém de sua própria estratégia de se fazer de durão com o Ocidente. A roda da imprevisibilidade girou: as regras do jogo foram estabelecidas. O trunfo da primeira década de Putin foi a estabilidade, que ele usou para destruir a oposição e empurrá-la para a clandestinidade. Agora, ele está se fazendo de caprichosa, imprevisível, Dama de Espadas. Esta carta vencerá qualquer ás.

A expressão "Rússia nas Sombras", como H. G. Wells intitulou seu livro sobre a Rússia bolchevique, esteve na lembrança de muitos cidadãos russos ultimamente. Ouvem-se coisas como "O chão tremeu sob nossos pés!" o tempo todo. O enorme iceberg Rússia, congelado pelo regime de Putin, rachou após os eventos na Crimeia; ele se separou do mundo europeu e flutuou para o desconhecido. Ninguém sabe o que ocorrerá ao país agora, para que mares ou pântanos levará sua deriva. Em momentos assim, é melhor confiar mais na intuição do que no senso comum. Meus compatriotas mais perceptivos sentem que quando a Rússia tomou a Crimeia da Ucrânia, ele abocanhou mais do que poderá mastigar ou digerir. Os dentes do Estado já não são o que eram, e aliás, seu estômago já não funciona como antigamente.

Quando se compara o urso pós-soviético ao soviético, a única coisa que eles têm em comum é o rugido imperial. Mas o urso pós-soviético está infestado de parasitas corruptos que o infectaram durante os anos 1990, e se multiplicaram exponencialmente na última década. Eles estão consumindo o urso por dentro. Alguns poderiam tomar esse movimento fremente sob o couro do urso por músculos poderosos em ação. Isto é uma ilusão, contudo. Não há músculos, os dentes do urso estão gastos, e seu cérebro está tolhido pelos disparos aleatórios de impulsos neurológicos contraditórios: "Ficar rico!", "Modernizar!", "Roubar!", "Orar!", "Construir a Grande Mãe Rússia!", "Reviver a URSS!", "Precaver-se contra o Ocidente!", "Investir em imóveis ocidentais!", "Manter as poupanças em dólares e euros!", "Férias em Courchevel (estação de esqui nos Alpes franceses)!", "Ser patriota!", "Buscar e destruir inimigos internos!"

Por falar em inimigos internos... Em seu discurso sobre o ingresso da Crimeia na Rússia, o presidente Putin mencionou uma "quinta coluna" e "traidores nacionais" que supostamente estão impedindo a Rússia de avançar vitoriosamente. Como muitos já podem ter notado, a expressão "traidor nacional" vem de Mein Kampf. Estas palavras, ditas pelo chefe de Estado, causaram grande alarme em muitos cidadãos russos. A intelligentsia entrou em choque. A intelligentsia russa, melhor dizendo, está especialmente alarmada. Enquanto o povo grita "A Crimeia é nossa!" em manifestações do governo, nossa intelligentsia prossegue com suas conversas derrotistas usuais: "Haverá expurgos como em 1937..."; "Ele não vai parar na Ucrânia..."; "Parece que chegou a hora de sair do país..."; "Não consigo mais assistir à TV, tudo que eles mostram é propaganda"; "O Ocidente vai virar as costas para nós..."; "A Rússia será um pária..."; "Tudo isso está me deixando realmente deprimido..."; "A Samizdat (cópia e distribuição de livros e textos proibidos, a fim de driblar a censura na era soviética) e a clandestinidade voltarão..."

Eu confesso que conversas como essas me deixam mais doente do que a anexação da Crimeia. Eu quero dizer a meus colegas da intelligentsia: "Amigos, nos últimos 15 anos, o camarada Putin se tornou o que ele é agora somente por causa de nossas próprias fraquezas".

A Ucrânia ensinou à Rússia uma lição de amor à liberdade ao se recusar a tolerar um regime vil, ladrão. A Ucrânia encontrou forças para se desgarrar do iceberg pós-soviético e navegar em direção da Europa. Maidan - a Praça da Independência - mostrou ao mundo o que um povo pode realizar quando assim o deseja. Mas quando vi as reportagens sobre Kiev não pude imaginar nada semelhante na Moscou de hoje. É difícil imaginar moscovitas lutando dia e noite contra as forças especiais do governo na Praça Vermelha e enfrentando as balas de franco-atiradores com escudos de madeira. Para isso, alguma coisa precisa mudar não só no ambiente, mas nas cabeças das pessoas. Mudará?

Não devíamos ter esperado a chegada do guindaste na Praça Lubianskaya em agosto de 1991. Devíamos ter derrubado o ídolo de ferro mesmo que sua cabeça arrebentasse o calçamento e danificasse "importantes equipamentos de comunicação subterrâneos". Estaríamos vivendo num país diferente agora.

É importante deixar o passado ruir na hora certa... / Tradução de Celso Paciornik

 

Vladimir Sorokin é escritor e intelectual russo, nos anos 80, teve sua obra banida da União Soviética. Atualmente, vive em Moscou e escreveu este texto para o The New York Review of Books. Em julho/agosto estará na Feira Literária Internacional de Parary, a Flip.

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