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ENTREVISTA: Ana Lucia Villela

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Educação infantil

O peso de ser criança

Pais incentivam superstars mirins a ocupar o lugar dos filhos. Mas nesse quadro não há lugar para a infância, alerta pedagoga

Mônica Manir

07 Fevereiro 2015 | 16h00

No começo ela mesma postava imagens do look do dia. “Coisa normal.” Então a mãe, que tirava fotos de si mesma no treino da academia, passou a registrar o treino da filha com o “paisonal”, mistura de pai com personal trainer. Só que a série vazou. E a blogueira fitness de 9 anos, que sonhava chegar aos mil seguidores, acordou da noite para o dia turbinada com mais de 20 mil.

Num primeiro momento, questionou-se o tamanho do peso para os bíceps da garota. Depois as críticas foram para a carga emocional. Uma criança dessa idade teria estrutura para aguentar essa superexposição? Ana Lucia Villela entende que não. Uma das fundadoras do Instituto Alana, ONG com sede em São Paulo, ela vê certa aberração em colocar uma menina na vitrine midiática, e com tamanho aval. “É dever da família, do Estado e da sociedade cuidar da criança”, diz, resgatando um princípio constitucional brasileiro. 

Essa jovem de 41 anos, uma das maiores acionistas individuais do grupo Itaúsa, investiu suas fichas no campo da educação. Começou com um projeto social no Jardim Pantanal, bairro da zona leste paulistana, deu aulas em escolas públicas e particulares, fez pós nos Estados Unidos e na Espanha e fincou pé no Brasil, onde decidiu criar as duas filhas e alimentar um sonho: o de rastrear o que falta para honrar a infância em todas as suas cores. 

Um comentário frequente dos internautas depois de ver as imagens da garota de Goiânia foi ‘deixem esses pais fazerem o que acham melhor para a filha, isso não é da nossa conta’. Quão da nossa conta é esse vídeo?Nossa Constituição fala que a criança é prioridade absoluta em nosso país. É dever da família, do Estado e da sociedade cuidar dela. Não é como nos Estados Unidos, onde a família pode fazer o que quiser. Se lá os pais desejam usar o filho para fazer marketing de algum produto, eles resolvem. Aqui não. Aqui a criança é de todo mundo, como se fosse da aldeia. É dever de todos cuidar, proteger e fazer com que a criança se desenvolva de uma forma saudável. Não à toa temos um projeto no Alana chamado Prioridade Absoluta. Ele busca mobilizar os operadores do direito para que defendam os direitos das crianças nas suas comunidades. Lembro da prioridade absoluta quando penso se a gente está protegendo essa menina de 9 anos. Será que a superexposição é a melhor coisa que pode acontecer pra vida dela neste momento? Do que ela precisa? Ser popular? Isso é valor que a gente deva passar para uma criança? Por que será que essa família precisa ser tão observada?

Por que precisaria?

Acho que é uma carência. Se as pessoas estão tranquilas com elas mesmas, com o que são, com o que acreditam, não precisam de exposição alguma, jamais colocariam a filha nessa posição. Mas entendo que é complicado porque esse mundo em que a gente vive, da indústria do consumo, ensina que o legal é ter milhões de seguidores no Facebook, no Twitter, no Insta, é postar um vídeo e ter milhões de views. Bacana para a sociedade é isto: ser popstar. Não importa o conteúdo. O importante é estar bonito, é ser jovem, é aparecer, aparecer, aparecer. 

Outro comentário: ‘É melhor ficar na academia do que na rua, aprendendo o que não presta’. No que se transformou a rua?

Talvez seja melhor começar pela academia. Como tudo na vida, ela tem seu lado bom e ruim. Sou a primeira a dizer que tem o lado bom do condicionamento, da postura. Mas é um lugar de espelhos. A preocupação maior é com o externo, o pra fora, todo mundo precisa olhar pra você. Se você é um ator, um jornalista, ficou conhecido e vive da imagem, ok. Outra coisa é buscar isso por uma questão que não está percebendo, algo mal cuidado internamente. Há meninas usando saltos maiores que o meu, de quatro dedos, saias justíssimas.... É o que elas veem o tempo todo na televisão, na internet e nos shoppings, lugar pra onde essas crianças mais vão. “Você já foi com seu pai pra um parque?”, perguntamos nas entrevistas do nosso próximo filme, aquele sobre crianças e natureza. “Não, nunca.” Conhece a praia? “Não.” O que adora fazer no fim de semana? “Ir ao shopping.” 

São crianças de uma classe social específica?

São pré-adolescentes na faixa de 8 a 12 anos de todas as classes econômicas. Todas correm risco igual. Realmente acredito que houve um grande esforço do mundo corporativo, da indústria, dos marqueteiros e da mídia em investir bilhões para as pessoas acreditarem que as ruas são violentas, que os shoppings são seguros e que o mundo virtual é muito mais interessante que o real, em especial para a criança. Afinal, a priori, ele não oferece perigo. Isso cresceu de tal forma que gerou um grande medo coletivo de sair à rua. Claro que não dá pra negar que existe uma guerra quase invisível de jovens sendo mortos, em especial nas periferias. Mas essa realidade não vai mudar enquanto a gente não acreditar que a rua é nossa, que a cidade é nossa. Tanto que hoje existe um movimento mundial para usufruir dos espaços públicos. É lá que a gente conhece as pessoas as mais diversas, e essa interação faz com que a criança cresça, se fortaleça, entenda o mundo como é, aprenda coisas novas, faça pontes de conhecimento. 

A escola está sintonizada com esse movimento?

Escolas com professores melhores, com uma outra cultura, levam as crianças pra museus, viagens, isso, aquilo. É evidente que isso expande a cabeça do aluno. Mas a escola também precisa saber trabalhar com tecnologia. A tela pode trazer um monte de coisa boa. Imagina a força de uma rede social, que pode fazer com que uma comunidade inteira se mobilize para tratar um rio, por exemplo. Mas não pode deixar a criança no Insta postando aparência, fazendo selfie, malhando com roupinha sexy, esperando curtidas. Isso vai deixá-la ansiosa, sem dúvida. Uma exposição precoce a essas mídias faz com que aberrações aconteçam. Sem falar que o mundo virtual tem predadores.

Você fala da pedofilia.

Sim, de repente um psicopata acha essa menina sexy. É real, a gente não está sonhando. Acontece, e muito. Se os pais não querem que o filho frequente um baile funk, se o proíbem de beber álcool, por que deixam tudo entrar pela internet? As regras têm de ser as mesmas. É muito difícil criar um filho, especialmente nessa idade. Antes a gente já ficava com os cabelos em pé só com o mundo real. Agora temos dois mundos: o real e o virtual. 

As meninas são mais vulneráveis à superexposição e seus efeitos?

Os meninos sofrem tanto quanto elas. Só fica mais óbvio o sofrimento da menina porque está mais na cara, você a olha e já identifica o que está vivendo. Com os meninos é mais discreto, mas tem essa coisa de ser forte, bombado, meio violento, fazer bullying com outras crianças.

O bullying está mais frequente?

Ele sempre existiu. Na nossa época tinha, mas não tenho a menor dúvida de que isso se acentuou à enésima potência com o uso malfeito da tecnologia. É tudo essa história de ser popstar. Nos EUA, a gente sabe de empresas que, desde a década de 1990, descobrem quem é a criança mais popular da escola, oferecem um tênis para ela usar todo dia, pagam US$ 500. A criança começa a achar aquilo divertido. Muitas vezes os pais nem sabem o que está acontecendo. Quando recebem a informação, tem família que fica horrorizada, mas alguns incentivam. O que quer dizer ser popular? É exibir um jeans de marca aos 7 anos, um celular não sei das quantas? No nosso filme Criança, Alma do Negócio, aparece uma menina que tem sete celulares. A gente pergunta pra ela: “Você liga pra quem? Quem te liga?” Ela não diz nada. É uma criança de 11 anos que tem sete celulares e nenhum amigo. Ela acha que aquele monte de celular é uma coisa importante, só esqueceu que não se socializou com ninguém, não brincou com ninguém, não saiu de casa. E os pais também se esqueceram disso. Acharam que era importante suprir a própria falta dando, dando, dando... 

Como tornar o ambiente da criança uma aldeia, onde todos possam cuidar dela? 

Estamos num país em que trabalhar oito horas por dia é absolutamente normal, demorar três horas para chegar em casa num ônibus, no metrô é normal, um professor não conhecer nenhuma tecnologia é normal. Essa criança está solta, sem adulto do lado, e tem todos esses perigos acontecendo. O Raffi, um músico que conheci há uns dez anos numa passeata em Boston, lançou um livro que eu folheava na semana passada, Light Web, Dark Web, ainda sem tradução em português. Trata do uso da internet pelas crianças, como se regula isso, da parte luz e da parte sombria da rede. Raffi é muito popular no Canadá, um autor de canções infantis que não aceitou fazer programa de TV porque tinha um comercial no meio. Daí ofereceram um programa sem comercial, mas para criança bem pequenininha. “Criança muito pequenininha tem que ter o pai cantando pra ela, tem de ter o colo, tem que ter contato com o mundo tridimensional, não tem que estar me vendo na televisão”, disse. O mais interessante é que foi o músico que mais vendeu disco para criança no Canadá. Ele conseguiu ultrapassar essa cultura de consumo de alguma forma que ninguém sabe direito explicar como. É um artista e um exemplo de que é possível driblar isso aí.

Falando em lado luz e lado sombra, muitos pais não sabem quando dar o primeiro celular para uma criança.

Não gosto de falar que tem que ser nessa idade ou naquela. Os pais sabem da maturidade em que o filho está. Mas parto do princípio de que, se sou a responsável por aquela criança, ela está comigo ou com um adulto responsável, que tem telefone. Se eu tenho um celular, por que ela precisa de um pra si? Quando começa a dar os primeiros voos, quando começa a sair sozinho pra lá e pra cá, está virando adolescente e os pais começam a ficar preocupados, faz sentido. “Ah, eu quero falar com os meus amigos nas redes sociais porque senão vou ficar por fora.” Ok, usa o computador de tal a tal hora com supervisão de algum adulto. A criança não vai cheirar uma flor pelo tablet, não vai ter o prazer de ver a estrela cadente no tablet, não vai ter o prazer de dar risada com um monte de amigos ao mesmo tempo. São prazeres e vivências fundamentais para o ser humano, mas os pais acham que está tudo bem ficar apenas no virtual. 

É preciso ter um cuidado intensivo?

Se todo mundo doasse um final de semana de sua vida levando uma molecada de escola para um lugar bacana e ter conversas construtivas com eles, isso pode ser life changing. Tem uma ONG na Califórnia que seleciona os piores alunos das escolas públicas. Chegam para o diretor e perguntam: quais seus casos mais complicados? Os que roubam, os que fazem bullying, os que repetem, aqueles com obesidade mórbida? Eu quero esses. Então pegam uma autorização dos pais para acampar com eles por 15 dias. São três adultos, um monitor com cancha para adolescentes, uma assistente social e um psicólogo, e vão acampar no meio da floresta. Nos primeiros dias os jovens parecem os caras que estão em abstinência de álcool. Eles quase se matam, ficam agressivos pra caramba, fazem greve de fome, só choram. Querem o celular, querem o salgadinho, mas precisam pegar fruta na árvore, verdura na horta, peixe no rio. E todo dia os monitores fazem fogueirinha à noite, tocam, ensinam exercícios de respiração. Chega a ser hilário. Passados uns dias, eles começam a trocar as raivas entre si, começam a se unir, acabam descobrindo que pensam da mesma forma. Pronto, forma-se o grupo. Começam a chorar juntos, à noite estão cantando, descobrem do que de fato sentem falta. Era do computador ou do abraço da mãe? Voltam pra casa e têm acompanhamento da assistente social. As mudanças são incríveis. Um ano depois, uma mãe que estava totalmente desestruturada ficou mais próxima do filho; outra que era superobesa mudou a alimentação porque o filho passou a cobrar dela que comessem diferente; numa outra casa os irmãos não brigaram mais; a diretora diz que outro parou de fazer bullying. É um esforço? É. Mas vale a pena. Vai ser um supercorte de dinheiro e de despesa para o governo, inclusive na área de saúde. Por que não fazer isso desde pequenininho? Minha sensação é esta: vamos cuidar! Mas é um cuidar amoroso, é embalar, não é colocar um iPad no berço. É o básico do básico do básico.

ANA LUCIA VILLELA É MESTRE EM EDUCAÇÃO E PRESIDENTE DO INSTITUTO ALANA

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