Andres Stapff|Reuters
Andres Stapff|Reuters

O primeiro ano depois de Guantánamo

A difícil reinserção dos refugiados que conheceram o horror na prisão americana e foram acolhidos por Pepe Mujica no Uruguai

Andréia Lago, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2015 | 17h00

MONTEVIDÉU - As fotos que surgem na tela do celular mostram um homem pouco grisalho, barba e cabelo bem aparados, feições árabes com uma expressão feliz. De uma sacada estreita, ele acena para os fotógrafos com uma mão, com o masbaha – o terço muçulmano – entre os dedos. Na outra, segura um símbolo do país que o acolheu: a cuia de chimarrão, um hábito dos uruguaios. “Eu era assim. Desde então perdi uns 20 quilos.” Nervoso, o tunisiano Abdul Bin Mohammed Abis Ourgy é um homem pequeno dentro de roupas que não parecem suas – e não se deixa fotografar. Tem um ar cansado e impaciente, olheiras e barba por fazer.

No primeiro ano de liberdade após 12 anos, seis meses e cinco dias preso em Guantánamo, a prisão militar americana em Cuba para onde foram levados centenas de suspeitos de terrorismo após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2011, Abdul parece longe de estar feliz e adaptado à nova vida em Montevidéu. As fotos que ele mostra na tela do celular são de 7 de dezembro de 2014, quando chegou ao Uruguai junto com outros cinco ex-presos de Guantánamo. Desde então já morou em duas casas, casou-se com uma uruguaia, que espera um filho, fala uma mistura de italiano com espanhol e ajuda num estacionamento.

Cheguei ao local à procura de Abdul sem entrevista marcada. Após semanas tentando contato com os seis ex-presos de Guantánamo que vivem no Uruguai, um interlocutor do grupo se dispôs a intermediar uma conversa. No dia em que desembarquei em Montevidéu, percebi que não seria fácil: apenas dois deles talvez aceitassem falar. Talvez. No dia seguinte, até mesmo essa possibilidade caiu por terra. Nenhum queria dar entrevista. “Eles são de poucas palavras”, disse a fonte.

As pessoas que trabalham para adaptar o grupo ao país que os acolheu me deram apensa uma pista: o único que está trabalhando é Abdul, num estacionamento perto do Centro Islâmico do Uruguai. Não foi difícil localizar a casa com pintura branca gasta e uma placa com inscrição em árabe. Ao lado, um grande galpão com a placa “parking”.

Quando entrei, contei quatro ou cinco homens no estacionamento. Nenhum me remetia às fotos do grupo que havia desembarcado no país. Pergunto por Abdul, e um homem alto e forte responde que não há ninguém com esse nome. A câmera pendurada ao meu pescoço não estava ajudando, mas insisti: Abdul, refugiado de Guantánamo, que trabalha no estacionamento. Os demais se aproximam, dizem que ele só “vem de vez em quando”. Quando me identifico como jornalista brasileira, eles trocam palavras em árabe. Abdul está rezando, traduz meu interlocutor.

Enquanto peço para aguardar, uma porta ao fundo se abre e um homem aparece. Conversam em árabe e Abdul se aproxima. Direto, diz que não quer dar entrevista. Com a aproximação de clientes, o homem que me recebeu pede que passemos a uma sala. Abdul senta-se, na defensiva, mas na primeira pergunta pega o celular para apresentar provas de que já esteve melhor do que agora. É o começo de uma conversa de 30 minutos pontuada por reclamações.

“O povo aqui é bom, não há o que falar, mas e quando a ajuda financeira acabar? São quatro bocas pra alimentar”, diz, em tom exasperado. Embora não passe necessidades, Abdul dá a entender que a preocupação com o futuro está consumindo-o. Seis meses após desembarcar, ele se casou com a uruguaia Roma Blanco, de 24 anos, que se converteu ao islamismo e passou a se chamar Samara. Além do filho Mohammed, de 5 anos, de um casamento anterior, ela está no quinto mês de gestação. Quando o parabenizo, ele sorri. Foi o único momento em que mostrou alegria.

Nascido em Túnis, Abdul completou 50 anos em 25 de julho. Antes da prisão, trabalhou com o pai, proprietário de uma loja de roupas de segunda mão. Fez várias viagens à Itália a serviço do negócio da família, até que decidiu emigrar. De 1989 até 1998, trabalhou na construção civil e em um restaurante italiano. Nos documentos oficiais das autoridades americanas, o processo de Abdul diz que ele traficava drogas, foi preso em Roma por três anos e voltou a traficar ao sair da prisão. Em Milão, passou a frequentar uma mesquita, onde conheceu Abu Abdullah, que o ajudou a abandonar as drogas e o recrutou para um campo de treinamento de jihadistas no Afeganistão. O plano, diz o documento, era retornar à Itália e depois fazer a jihad na Tunísia.

Durante a breve conversa que tivemos, Guantánamo só é mencionada quando Abdul diz que a ajuda de cerca de US$ 500 mensais que os refugiados recebem do governo uruguaio mal cobrem os gastos básicos. “Só a conta de energia consome US$ 100. É um país caro, o dinheiro não é suficiente, nem roupas podemos comprar.” Como exemplo, mostra o moletom que está vestindo. Uma blusa surrada, num tom de verde militar, dois números acima do seu peso atual. É parte do uniforme de Guantánamo, afirma. Aproveito a brecha para perguntar onde ele estava quando foi preso pelas forças americanas. “No Paquistão”, ele diz, sem querer prolongar o tema da conversa.

Assim como Abdul, outros 778 muçulmanos de diversas nacionalidades passaram pela prisão de Guantánamo sem acusação formal ou julgamento – apenas um foi transferido para ser julgado nos EUA. Embora o presidente Barack Obama tenha prometido acabar com o campo de detenção em Cuba, ainda restam 107 presos, sendo 37 com recomendação de soltura. Relatos de prisioneiros libertados vêm detalhando o que as autoridades americanas chamam de “técnicas avançadas de interrogatório”, que significam diversas formas de tortura, incluindo abuso sexual dos detidos por agentes da CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos.

Os seis ex-presos de Guantánamo acolhidos pelo Uruguai há um ano foram recebidos pelo ex-presidente José Mujica, pouco antes de concluir seu mandato. Além de Abdul, os sírios Ahmed Adnam Ahjam (38), Ali Husein Shaaban (33), Abu Wael Dhiab (44) e Abd Hadi Omar Faraj (40) e o palestino Mohammed Abdullah Tahamuttan (35) foram abrigados em uma casa mantida pela Pit-CNT, principal central sindical do país. Após a atenção inicial das autoridades e da imprensa, bastaram poucos meses para que o novo governo, de Tabaré Vázquez, percebesse que a iniciativa exigiria mais do que asilo e um casarão emprestado.

Em abril, um mês após a posse, Vázquez já avisava: o Uruguai não receberia mais ex-presos de Guantánamo. “Não houve uma mudança de postura do governo, mas não há intenção de trazer outros porque não há como pagar pelas despesas”, afirma o sociólogo Christian Mirza, designado para intermediar as demandas do grupo com as autoridades. “É um programa financiado pelo Estado uruguaio, a Acnur só colabora”, explica, referindo-se à agência das Nações Unidas para refugiados.

Nascido no Cairo, Mirza conduziu as negociações com o grupo de ex-presos quando as condições do asilo levaram quatro refugiados a acamparem, no fim de abril, em frente à embaixada dos Estados Unidos em Montevidéu. A pedido do ministro de Relações Exteriores, Rodolfo Nin Novoa, e com ajuda de um tradutor, Mirza precisou de quase um mês para convencer Abdul e três sírios – Omar, Ali e Ahmed – a assinarem um convênio que define as responsabilidades do Estado com o grupo até maio de 2017. Além da moradia individual, eles recebem tratamento médico, aulas de espanhol e preparação para o mercado de trabalho.

Apenas Dhiab não assinou o documento. Nascido no Líbano, ele tem cidadania síria e aparece nos registros de Guantánamo sob o nome de Jihad Ahmed Mujstafa Diyab. É o que tem a saúde mais debilitada e também o que tem dado mais trabalho. Foi o último a deixar o casarão da CNT, e há meses cobra do governo uruguaio a vinda da família. “Estou em contato com a Cruz Vermelha Internacional, que está cuidando da transferência da mulher e dos três filhos de Dhiab”, afirma Mirza. O Comitê Internacional da organização trata o assunto como confidencial. De muletas, o sírio tem sequelas das diversas greves de fome realizadas na prisão e processa o governo americano por tê-lo alimentado à força.

Desde que chegaram, os refugiados fizeram oficinas para desenvolver habilidades profissionais, mas são grandes as dificuldades. “Eles não trabalharam por 13 anos, ainda estão aprendendo o idioma, e fazem pausas a cada duas horas para rezar. Não é simples”, diz uma fonte ligada ao Pit-CNT. Pergunto a Abdul com o que gostaria de trabalhar, e ele conta que pediu ajuda ao Serviço Ecumênico para Direitos Humanitários, uma ONG ligada à Acnur, para montar um negócio de comida árabe. O tunisiano diz que a ajuda não veio, e me mostra uma carta. É um convite para comparecer a uma reunião com a participação de psicólogos para ajudá-los com as dificuldades de adaptação. A data e horário coincidem com o momento da nossa conversa. Uma fonte próxima do grupo diz que os refugiados resistem à consulta com psicólogos. “Eles não creem em ajuda psicológica. Dizem que Alá vai ajudá-los.”

Mirza admite problemas na implementação do programa de reinserção, mas acha que a decisão de Mujica foi acertada. “Ele foi fiel às melhores tradições de política externa do Uruguai. As dificuldades são compatíveis com 13 anos de prisão sem autonomia sequer para ir ao banheiro, diz. “A capacidade de decisão deles foi reduzida à mínima expressão, não é sensato imaginar que irão prontamente aprender outra língua, trabalhar e tomar decisões.”

Além de Abdel, Mohammed e Ali também se casaram com uruguaias. Omar e Ahmed têm companheiras uruguaias, e Dhiab aguarda a chegada da família síria. “Sempre que me perguntam, afirmo que eles vão ficar no Uruguai”, afirma Mirza. Mas Abdul tem outra resposta: quer vir para o Brasil. Pergunto se sabe que a economia brasileira está em recessão e que o custo de vida em São Paulo não está distante do de Montevidéu. “Sim, mas tem mais oportunidades.”

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