Filippo Massellani/The New York Times
Filippo Massellani/The New York Times

O retorno de Hirst em uma fantasia subaquática

Trata-se de uma aposta financeira gigantesca para o artista que é rei da controvérsia e está tentando voltar

Carol Vogel, The New York Times

22 Abril 2017 | 16h00

Veneza, Itália – Damien Hirst examina os olhos do Buda de jade, que tem o rosto desgastado pelos vestígios do tempo. "Eu acho que ele está muito bom se considerarmos que tem dois mil anos", disse, esforçando-se para manter a expressão séria. Ali perto, a escultura de um faraó feito de granito azul com um piercing de ouro no mamilo tem uma estranha semelhança com Pharrell Williams.

É mesmo a cara do cantor? "Pode-se dizer que sim. O lance está no que você quer acreditar", respondeu Hirst.

Após anos de silêncio pouco característico, o artista conhecido por obras que inspiram amor ou ódio está orquestrando seu próprio retorno. Em uma manhã recente, todo vestido de preto, Hirst podia ser visto na entrada do Palazzo Grassi, observando sua equipe dar os últimos retoques em um espetáculo digno de Cecil B. DeMille – sua primeira grande exposição de novos trabalhos em 10 anos.

Aberta ao público no dia 9 de abril e chamada Treasures From the Wreck of the Unbelievable (Tesouros do Naufrágio do Inacreditável), ela é uma fantasia subaquática, com esculturas como a do Buda e centenas de outros objetos feitos para se parecerem com antiguidades desenterradas do fundo do mar. As obras ocuparão o Palazzo Grassi e a Punta della Dogana, dois museus comandados por François Pinault, o colecionador parisiense que também é dono da casa de leilões Christie's.

O show é visto como uma tentativa de Hirst, aos 51 anos, de renovar sua carreira, que sofria desde 2008, quando o mercado financeiro e o de arte despencaram. Referindo-se ao romantismo milenar dos naufrágios, ele e seu patrono embarcaram em uma gigantesca jogada artística e financeira. Treasures custou a Hirst milhões de dólares na produção e a Pinault, milhões para a exibição (números exatos não foram divulgados por nenhum dos dois). Colecionadores que receberam ofertas dos trabalhos contam que os preços começam em torno de US$500 mil por peça, chegando a passar de US$ 5 milhões.

O mercado de Damien Hirst nunca foi testado em uma escala tão grande, por isso o mundo das artes se pergunta se vai ele se recuperar ou afundar de vez em Veneza.

Francesco Bonami, curador que organizou uma grande exposição da obra do artista em Doha, Qatar, há quatro anos, disse que a última produção de Hirst "vai além do bom ou do ruim", e acrescentou: "À sua maneira bombástica e exagerada, Damien criou uma narrativa que o público nunca viu antes. Muitos acharão de mau gosto ou brega, mas é mais do que tudo isso. É Hollywood".

Para estar de acordo com sua reputação de artista de espantos em série, Treasures apresenta um conto de fadas visual, tipo acredite-se-puder, enraizado na mitologia, na teologia e na imaginação do artista.

A história é a seguinte: em 2008, um navio naufragado foi descoberto na costa do leste da África, e diziam que continha tesouros pertencentes a Cif Amotan II, um escravo liberto do noroeste da Turquia que viveu entre o século I e início do II, e tinha acumulado uma grande riqueza. Sua coleção lendária de arte e artefatos foi colocada em um navio, o Unbelievable, que afundou. Mergulhadores resgataram mais de 100 obras – esculturas gigantes de monstros marinhos, incrustadas com coral e pedras semipreciosas, macacos dourados, unicórnios e tartarugas, além de uma deusa cujo rosto se parece estranhamente com o de Kate Moss, um faraó de mármore que se assemelha a Rihanna e uma estátua de bronze de Mickey Mouse, coberta por séculos de deterioração causada pelo mar.

Será que o público – e os colecionadores – vai embarcar nessa? No mês passado, uma campanha publicitária cuidadosamente orquestrada divulgou pistas que levariam à Grande Revelação (o projeto ficará na coleção de Pinault durante a Bienal de Veneza em maio).

Alguns já começaram a criar caso. Em março, ativistas dos direitos animais jogaram 40 kg de estrume em frente ao Palazzo Grassi, incluindo uma mensagem na porta do museu que dizia "Vá para casa, Damien Hirst". (A exposição não contém nem animais mortos, nem borboletas, outra marca registrada de Hirst.) A razão do protesto, disseram eles, é que a exposição é "um insulto a uma cidade de arte REAL".

Porém, para cada crítico, há um fã de Hirst. "A carreira de Damien foi feita sem considerar curadores ou críticos. Isso deixa o mundo dos museus um pouco nervoso", disse Nicholas Serota, diretor do Tate, que realizou uma retrospectiva Hirst em 2012.

Durante quase quatro meses, Elena Geuna, curadora da exposição, orquestrou o mastodôntico transporte das esculturas – algumas pesando quase 3,6 toneladas – por navio, muitas vindas de uma fundição em Gloucestershire, Inglaterra, e instalou vídeos e incontáveis objetos pequenos que enchem quase duas dúzias de vitrines da exibição (cada vitrine é considerada uma obra de arte). Ao todo, mais de mil fornecedores em lugares como Itália, Alemanha, África do Sul e Estados Unidos estavam envolvidos na montagem.

"É como se o Elvis voltasse para cantar em Las Vegas. Depois de mais de uma década, Damien, de novo, permite que seu trabalho seja examinado por um grande público, e ao fazê-lo, definitivamente está se arriscando", disse Oliver Barker, presidente da Sotheby's Europa.

Barker testemunhou de perto algumas apostas de Hirst. Em 2008, ajudou no planejamento da audaciosa tentativa do artista de deixar seus marchands de lado, com a organização de um leilão épico na Sotheby's de mais de 200 de seus trabalhos. O evento ocorreu no mesmo dia fatídico em que o Lehman Brothers declarou falência, mas mesmo assim Hirst conseguiu vender US$ 200 milhões.

Desde então, os preços de seu trabalho caíram e subiram descontroladamente. Uma das pinturas da série das bolinhas foi vendida na Sotheby's em novembro por apenas US$396.500 – um declínio acentuado do US$ 1,7 milhão que outra alcançou em 2013 –, mas os preços começaram a subir. A White Cube, uma galeria em Londres, afirmou ter vendido um quadro de 2015 de Hirst, Holbein (Artists' Watercolors), medindo 4 metros de largura, por 750 mil libras (US$935 mil, na época), mostrando que ele ainda poderia conseguir um preço razoavelmente alto.

O novo trabalho é uma aposta mais alta, com uma cabeça decepada da Medusa que aparentemente custa US$ 4 milhões. Com o mercado de arte contemporânea mostrando sinais de fortalecimento, Barker considera os preços "bem moderados", mas a escala monumental de muitas peças pode dificultar a venda para quem não possui uma casa do tamanho de um museu.

Já faz 13 anos desde a última grande exposição de Hirst, uma retrospectiva no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. Mesmo assim, não estava totalmente fora dos holofotes: em 2015, inaugurou a Newport Street Gallery, um espaço no sul de Londres onde apresentou exposições de sua coleção pessoal, com obras de artistas como Jeff Koons. Muita gente no mundo da arte se perguntava se Hirst havia se transformado em um curador discreto e elegante.

"Após o leilão da Sotheby's e depois da caveira, comecei a pensar sobre o que fazer depois", recorda-se Hirst, referindo-se ao crânio humano de 2007, feito em platina e coberto por 8.601 diamantes, que foi comprado por um consórcio de investidores que, dizem, incluía o próprio Hirst.

A ideia de ambiguidade – é velho ou foi feito ontem? Real ou faz-de-conta? – sempre existiu em sua carreira de 30 anos, mas desta vez, ele levou o tema ao extremo, contratando uma equipe de filmagem para gravar uma missão de resgate no mar de Zanzibar, documentando a retirada das esculturas do mar. E quanto às inexplicáveis referências à cultura pop, figuras como Mickey Mouse e a ex-namorada do artista, a cantora Yolandi Visser, que aparece como uma deusa mesopotâmica?

"Acreditar. Acreditar é diferente de ter uma religião. É o que precisamos fazer hoje", repetia Hirst.

 

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