O risco da imagem excessiva

A invasão do hotel e a tomada de reféns por bandidos foram reais. Mas, ao reproduzir esses fatos, a mídia não funcionaria como o retrato de Dorian Gray, que se deteriora para preservar o original?

Muniz Sodré

31 Agosto 2010 | 09h11

Quanto haveria de real e de mortífero para o Rio de Janeiro na divulgação internacional das imagens da tomada de um hotel por bandidos organizados e fortemente armados?

 

Não é absurdo aventar a hipótese de que uma imagem possa matar - uma pessoa, uma situação, um lugar. A parte controversa é que toda imagem é um incorporal, aquela categoria que os estoicos reservavam para um nada de existência (assim como o tempo ou o espaço) e, no entanto, exprimível. Mas os perigosos efeitos desse "nada" suposto foram sempre temidos desde os antigos, a começar pelo duplo de si mesmo. Temia-se que o duplo, aparição material de um imaterial, acarretasse a morte do original. Edgar Allan Poe construiu o personagem "Wilson Wilson" com esse temor. O próprio Freud a ele sucumbiu, ao julgar entrever o seu duplo em uma viagem de trem.

 

Por isso e muito mais, a história cultural do Ocidente colocou em sua pauta filosófica e política a questão da imagem. Muitos séculos atrás, os teólogos cristãos debruçaram-se sobre a ambivalência do visível, tematizada na encarnação, que atribui corpo e carne a uma imagem para acessar a invisibilidade do modelo divino. Desde então, o Ocidente cultiva a paixão da imagem, e outro nome não há, senão Paixão, para designar a vida da imagem do Pai, que é a de Cristo.

 

Fora da esfera teológica, é notável a influência da imagem sobre operações do psiquismo como hábitos, percepções e sensações. Na verdade, ela é uma dessas operações. Trata-se da representação interna de um objeto concreto, formada em sua ausência. Os escolásticos chamavam-na de "fantasma". E é preciso levar em consideração a imagem subjetiva ou interna, uma vez que "imagem" faz referência não apenas ao sentido da visão, mas também a padrões mentais articulados com qualquer modalidade sensorial, como uma imagem auditiva. Embora diferindo da sensação, a imagem subjetiva a esta se assemelha em alguns aspectos, como o das mesmas reações diante de um objeto ou o do prolongamento imagético da sensação. Assim, as imagens internas podem ser visuais, auditivas, gustativas, olfativas e táteis.

 

Em termos objetivos, mais familiares ao senso comum, imagem é a reprodução externa de um objeto percebido pela vista. Guy Debord (o controvertido autor de A Sociedade do Espetáculo) insistia no aspecto visual e objetivo da imagem, considerando que a visão é o sentido privilegiado pela modernidade, em detrimento, por exemplo, do tato. A visão é a instância intelectual dos sentidos.

 

É esse tipo de imagem que a midiatização colou ao espetáculo para administrar uma variedade de fenômenos, sob a égide do tecnocapitalismo ou da sociedade de mercado global. A paixão da imagem serve agora para ajudar no funcionamento de uma sociedade regida por um tipo de administração social teleguiada pelo mercado. Por um lado, é o momento histórico em que "o consumo atingiu a ocupação total da vida social"; por outro, é o advento da exploração psíquica do indivíduo pelo capital - ou do que se vem chamando de exploração do valor-afeto.

 

Colada ao espetáculo, a imagem tenta impor-se como uma relação social graças às máquinas de visão operadas por organizações industriais, a maior das quais é a mídia. A imagem-espetáculo resulta dessa operação como uma espécie de forma final da mercadoria, que investe de forma difusa ou generalizada a trama do relacionamento social, reorientando intelectiva e afetivamente uma grande diversidade de aspectos da vida social - da política ao entretenimento.

 

Numa ordem social atravessada pela relação de incerteza que caracteriza o fluxo errático das imagens, é difícil de se determinar quanto de real ou de "corpo" de acontecimento há por trás do ocorrido no Rio. Reais foram a invasão do hotel, o tiroteio com vítimas e a tomada de reféns por bandidos armados, horas depois presos pela polícia. Real é o consumo das drogas de que vive o tráfico, no Rio, em São Paulo, em toda parte.

 

A partir daí, porém, entra-se na incerteza quanto às motivações do episódio, às ações da polícia, à força efetiva dos traficantes, etc. Na ausência da certeza cidadã, surge a sensação de catástrofe, isto é, da irrupção de algo que não funciona, ou talvez não venha mais a funcionar, segundo as regras do social a que nos habituamos a sentir. As imagens transmitem a sensação de "guerra" e é isso que dá corpo ao noticiário da mídia internacional e poderá de algum modo ferir a Cidade Humana. Transmitem igualmente a sensação de que, internamente, nada se faz a respeito.

 

Por outro lado, será também real esse efeito danoso? A mídia não funcionaria às vezes como o retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde), em que a imagem se deteriora à medida que rejuvenesce o original, o retratado?

 

O risco da imagem excessiva é o seu próprio apodrecimento.

 

 

* Muniz Sodré é professor da UFRJ e escritor

 

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