Ricardo Hantzschel
Ricardo Hantzschel

O sal por testemunha

Em 2014, Ricardo Hantzschel conquistou o Prêmio Marc Ferrez pelo projeto Sal. O trabalho se tornou um livro homônimo que será lançado em 28 de abril

Entrevista com

Ricardo Hantzschel

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S. Paulo

28 Março 2015 | 16h00

O sal foi moeda e pagamento na Roma antiga, salário. Estopim de protesto contra o jugo britânico na Índia, a Marcha do Sal de Gandhi. Foi conservante de alimentos na era pré-geladeira. Garantia de ruína às terras de Tiradentes, já morto e esquartejado. O sal salva e condena. Nas mãos do fotógrafo paulistano Ricardo Hantzschel, de 51 anos, virou um resgate. Dele mesmo e da técnica fotográfica primordial. 

Em 1834, o inglês William Henry Fox Talbot foi o primeiro a obter uma imagem fotográfica aceitável “impressa” num papel embebido em solução de cloreto de sódio e pincelado com nitrato de prata. Por 50 anos, foi o papel fotográfico básico. 

Hantzschel recuperou a nobreza da técnica ao documentar as salinas e os salineiros de pele curtida na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro. Aproximou a fotografia da pintura e da gravura, a imaginação da realidade. “Suas imagens nos fazem refletir sobre a efemeridade das novas tecnologias, do tempo e das relações humanas”, bem anotou a crítica Rosely Nakagawa no livro Sal, que Hantzschel lança daqui um mês.

Na obra, além do percurso criativo que percorreu em cinco anos de idas e vindas às salinas, o fotógrafo, que também é professor, ensina generosa e detalhadamente como confeccionou suas imagens banhadas em sal, rugas e aridez.

De onde veio o interesse pelo sal?

Há 15 anos eu viajava de carro para Búzios (RJ) e passei na frente das salinas da região de Araruama, Praia Seca e Arraial do Cabo. Senti uma enorme atração pelo lugar. Geometricamente era o cenário mais incrível que eu já tinha visto. Os quadrados, os montes de sal, os cata-ventos, os galpões. Foi amor à primeira forma. Aquilo ficou comigo por dez anos. Passei a chamar de “sal” o local e tudo que ele representou pra mim naquele primeiro contato. “Preciso voltar ao sal”, repetia. Então, em 2010, me separei, fiquei na pior e resolvi fazer algo a respeito. Me lancei ao sal.

Em busca do poder curativo dele?

De certa forma, sim. Eu precisava de uma depuração - palavra que tem a ver com o processo fotográfico também. A partir de 2010, foram cinco janeiros indo às salinas. Eu voltava pra casa e tinha um ano inteiro pela frente para pensar, depurar o que tinha fotografado e vivido lá. O tempo é tudo. E imagem é imaginação. Hoje, na correria, abrimos mão de imaginar. E isso é de uma pobreza atroz, existencialmente falando. Queremos imagens prontas, não queremos conquistá-las, imaginá-las, porque fotografar virou uma maneira de possuir. A internet nos legou um tempo pequeno. De avião, trocar de mundo leva dez horas. Na internet, um segundo. Mas nossa capacidade de nos adaptarmos a essa troca continua igual. Isso nos achata como seres humanos, é uma violência. Por isso prefiro continuar imaginando. Prefiro o tempo grande. Quando deixei de ser um intruso nas salinas, o que só aconteceu depois de muitas idas, cheguei a deixar uma pinhole (câmera artesanal sem lente que captura imagens através de um orifício do diâmetro de uma agulha) dentro de um galpão durante um ano inteiro, a fim de registrar o acúmulo do sal. Sem dizer que ampliar uma única imagem em papel salgado leva no mínimo três horas.

Você começou o projeto já querendo usar o sal na ampliação das fotos?

Não. Quando me encantei pelo sal, minha ideia era só conhecer o lugar e as pessoas. Mas coincidiu de, no meio de 2013, por causa de minha atividade como professor, eu estar pesquisando processos fotográficos históricos, entre eles o papel salgado. Aí, claro, uma hora deu o estalo: e se eu incorporasse no processo o sal que estou fotografando? Enchi um saquinho nas salinas e comecei a testar. O projeto cresceu. 

Quem são os trabalhadores do sal?

No geral, são nativos ou pessoas que se fixaram lá há 40, 50 anos. Poucos são donos da própria gleba. Trabalham como meeiros e moram nas mansões dos patrões, que, depois de certo apogeu nos anos 1980, abandonaram o local com a queda da atividade. O principal problema é o preço. Uma tonelada de sal hoje vale R$ 50 - chegou a valer o equivalente a R$ 500. Aquelas salinas são as primeiras do Brasil, criadas no século 18 com a chegada de d. João VI. Hoje há concorrência do sal produzido no Rio Grande do Norte e no Chile. Além disso, a chuva mais abundante e o esgoto reduziram a salinidade da laguna de Araruama. Por fim, os salineiros não conseguem mais fazer sucessores. Seus filhos querem trabalhar noutras coisas, noutros lugares. Então, eu diria que, naquela região, a atividade está com os dias contados.

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