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Obra original de Volpi surge adulterada no mercado

Quadro da fase concreta do artista, concebido nos anos 1950, estava desaparecido

Antônio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

21 Janeiro 2017 | 16h03

Nem Elmyr de Hory (1906-1976), o mais famoso falsificador de obras de arte, inspiração para o filme F for Fake (Verdades e Mentiras, 1973), de Orson Welles, teria pensado em adulterar uma tela original, mas foi exatamente isso o que aconteceu com uma pintura do pintor Alfredo Volpi (1896-1988). E não é uma tela qualquer, mas uma raríssima, produzida na fase concreta do artista, período correspondente a três anos da segunda metade da década de 1950.

A obra, sem título, uma composição geométrica de 70 x 140 cm, assinada no verso, está registrada sob o número 1993 no catálogo raisonnée do pintor, publicado pelo Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna, mas não é a mesma tela que veio parar numa galeria de São Paulo. A obra catalogada, uma das 2.600 atribuídas ao pintor, sumiu sob uma espessa camada de tinta e ganhou novas formas. Isso mesmo: era uma pintura retangular com quadrados brancos sobre fundo vermelho e virou uma tela em que os quadrados foram divididos ao meio, formando triângulos azuis e brancos sobre um fundo preto.

Primeira pergunta: o que levaria alguém a adulterar uma tela original que vale milhões no mercado? Resposta imediata: a necessidade de vender com urgência uma pintura (com assinatura verdadeira no verso) que faz parte de um conjunto de 36 telas do espólio do artista, relacionadas como desaparecidas pelo Instituto Volpi e que correm o risco de apreensão pela Justiça. Se tivesse reaparecido na forma original no mercado, certamente teria o mesmo destino das 10 telas hoje cedidas em comodato ao Museu de Arte Contemporânea (MAC) de São Paulo pelo instituto. A tela em questão é uma das 47 obras da coleção particular de Volpi que estavam no ateliê do artista por ocasião de sua morte, segundo o advogado Pedro Mastrobuono, cofundador e diretor do Instituto Volpi.

Segundo ele, quando o pintor morreu, em 1988, todas essas pinturas ficaram com a filha do artista e inventariante, Eugênia Maria Volpi Pinto, cujo destino é ignorado pelo instituto. Com a sua destituição do posto de inventariante, as telas que restam em suas mãos não podem ser vendidas por questões legais, segundo o novo inventariante, o advogado Guilherme Charles Sant’Anna. No livro Alfredo, publicado pelo fundador do Instituto Volpi, o engenheiro Marco Antônio Mastrobuono, morto no ano passado, ele sugere que as últimas obras que saíram do ateliê do artista e assinadas depois de 1985 são falsificações.

Segundo Marco Antônio Mastrobuono, um dos maiores conhecedores de sua obra, que legou aos herdeiros uma das maiores coleções de Volpi no Brasil, ninguém o viu pintando entre 1985 e o ano de sua morte, 1988. O colecionador escreveu em Alfredo, biografia do pintor, que o artista sofria do mal de Alzheimer.

A filha de Volpi, Eugênia Maria, não teria repassado direitos autorais recolhidos aos outros irmãos herdeiros e foi destituída judicialmente da posição de inventariante. Algumas telas que estavam em seu poder foram retomadas por meio de mandados de busca e apreensão, entre elas dois retratos dos anos 1940, Nu de Judite e Retrato de Hilde Weber, cujo valor de mercado, hoje, ultrapassa a faixa dos R$ 5 milhões (cada uma das pinturas). Elas fazem parte do conjunto que foi entregue pelo Instituto Volpi ao MAC, provável destino da tela adulterada, se ela tiver condições de ser restaurada.

O laudo pericial para verificar a autenticidade da pintura, assinado pela perita nomeada Eva Kaiser Mori, concluiu que, desta vez, não se trata de falsificação, mas adulteração – e há muitas telas falsificadas de Volpi no mercado. A pintura estudada por ela corresponde à tela catalogada no raisonné do artista. “Ela foi, sim, adulterada, tendo sua superfície coberta com camadas de tinta preta e azul, restando como original somente metade dos quadrados brancos”, afirma.

Considerando o estilo de Volpi, a pintura, segundo a especialista, “carece de rigor técnico, tendo pouca precisão nos limites cromáticos, além de serem nítidos os borrões e a falta de pureza das cores, características que não condizem com a obra do pintor”. Ela comprovou, nas análises estratigráficas, que a tinta preta, aplicada com grande diferença de tempo entre as outras cores, permitiu que ela penetrasse nas fissuras, chegando até o linho da tela. É possível ver na análise a tinta vermelha original do quadro.

A perita Eva Mori trabalha há 15 anos na área de restauração, dos quais os quatro últimos foram dedicados a testes científicos de pinturas como a de Volpi. Na análise de sua tela, realizada no departamento de Física Nuclear do Instituto de Física da USP, ela comparou a assinatura do artista no verso com um cromo da obra catalogada pelo Instituto Volpi, concluindo que são idênticas. Também as obras do período concreto contêm quadrados divididos na diagonal, como a pintura examinada, formando o mesmo movimento helicoidal que teria “inspirado” a adulteração da obra original.

O que o falsário clone tropical de Elmyr de Hory não previu é que o craquelamento da tinta antiga, sinônimo de envelhecimento, iria colocar em evidência a camada pictórica mais nova. Outro detalhe: Volpi tinha o costume de fazer esboços a grafite sobre a base de preparação, antes de passar à pintura. A reflectografia de infravermelho que a perita obteve não indica qualquer sinal de esboço a grafite.

O que fazer com a obra adulterada, mas original, ainda é uma questão difícil de resolver. Segundo o novo inventariante, Guilherme Charles Sant’Anna, tal decisão depende ainda do inquérito que será instaurado para apurar a responsabilidade pela fraude. “Há indícios de que esse não seja o único caso”, admite. “Houve lesão aos direitos dos herdeiros e isso foi feito para obstruir o processo”, conclui. 

Por ser ainda objeto de investigação, nem o nome do proprietário da obra nem a galeria que a recebeu – e encaminhou a tela para exame, por meio do Instituto Volpi – podem ser divulgados. “O certo seria o dono da obra sinalizar de quem comprou a tela, se for de boa fé, mas há muita gente que compra para fazer caixa 2 e não confirma a origem das obras”.

Esse episódio, incomum na história recente do mercado de arte, prova a valiosa contribuição que pode fornecer um bom catálogo raisonné de um artista para a preservação de sua obra, segundo o diretor do Instituto Volpi. Pedro Mastrobuono, que também é advogado, lembra que a existência de um cromo com a frente e verso da tela adulterada no catálogo do artista foi fundamental na hora de identificar a obra registrada. “A análise do detalhe do quadrante superior direito do verso da obra e da assinatura do artista só foi possível graças a esse cromo, que revelou serem idênticas as assinaturas e que há similaridade em locais de defeitos do tecido e furos em lugares em que havia pregos”, confirma a perita Eva Kaiser Mori.

Ela, que passou um mês para concluir o laudo pericial da adulteração da pintura, ainda não analisou a possibilidade de restauro da rara obra concreta de Volpi. O uso da tinta preta pelo falsificador, segundo a perita, coloca por terra a possibilidade de um pentimento do pintor. “Não há sentido em recobrir as sutis e requintadas sobreposições das cores originais com uma tinta preta, que tudo absorve, sendo este um argumento técnico e estilístico contra a autoria do preto por Volpi”.

Sobre o linho da tela original existem camadas pictóricas. A tinta preta, aplicada com grande diferença de tempo entre as outras cores, penetrou até a base do tecido, o que talvez inviabilize o restauro da pintura, originalmente uma têmpera, que exige por si ainda mais cuidado que um óleo sobre tela.

“Tudo isso comprova a necessidade de um catálogo raisonné que reúna a fortuna crítica, bibliografia e documentos sobre cada obra do artista, para que os dados possam ser confrontados e fraudes como essa sejam evitadas”, observa Pedro Mastrobuono. “Os colecionadores de Volpi conviveram com ele e conhecem bem a sua obra, o que explica a surpresa de ver uma pintura como a adulterada ser colocada no mercado, ainda mais que a original estava catalogada no instituto”.

Para o diretor do Instituto Volpi, o caso já ultrapassou a fronteira do privado para ganhar a esfera pública. “Deixou de ser uma discussão sobre a quem pertence a obra para configurar um crime contra o nosso patrimônio cultural, o que certamente vai sensibilizar o Ministério da Cultura”, espera Mastrobuono. E também o Ministério Público, pois o quadro é objeto de um mandado de busca e apreensão. Perdem os herdeiros e perde a sociedade, que talvez nunca mais veja o quadro concreto de Volpi como ele o concebeu nos anos 1950.

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