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Aliás

Mãe

Omindarewá dos olhos azuis

Com a morte da mãe de santo francesa, o destino de um dos mais famosos terreiros do Rio está nos búzios

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Luciana Nunes Leal / RIO,
O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2016 | 06h01

Vestida com indumentária do candomblé em estilo africano, Yasmin, de três anos, dança, canta, recita rezas. “Sou Agbomin, filha de Xangô”, diz a menina, no barracão (local das festas e cerimônias) do terreiro da francesa Gisèle Cossard, Omindarewá, uma das mais respeitadas mães de santo do País, que morreu no dia 21 de janeiro, aos 92 anos.

Yasmin foi a última filha de santo iniciada por Gisèle, no dia 24 de outubro do ano passado. A iniciação não é comum em crianças de tão pouca idade, mas Yasmin cumpriu todos os procedimentos da iniciação. Deixou até que os cabelos cacheados fossem raspados com navalha. Apesar da saúde frágil, Gisèle cuidou de tudo pessoalmente. “Essa criança trouxe uma renovação muito grande ao axé (a casa de candomblé)”, diz Simone da Silva Ferreira, Katiokê, que cuida do terreiro. Gisèle era chamada apenas de Mãe por cerca de trezentos filhas e filhos de santo iniciados por ela ao longo de quatro décadas.

Yasmim mora no terreiro – um sítio na localidade de Santa Cruz da Serra, em de Duque de Caxias (Baixada Fluminense) – com a mãe de sangue, Estela Maria Nunes Pereira, Inãdjo. Simone também mora lá, com a mãe natural, Maria José Ferreira da Silva, Taió, a quem cabe cuidar do ipadê, ritual em homenagem a Exu, que abre as cerimônias do candomblé. Outro morador é Cipriano Cunha, Jiluô, que exerce a função de alabê, o responsável pelos atabaques, agora recolhidos em sinal de luto. A “família” se completa com o arquiteto francês Claude Binon, de 68 anos, filho natural de Gisèle que há 16 anos se mudou de Paris para Santa Cruz da Serra. Claude é ogan (auxiliar que não incorpora orixás), cuida dos afazeres do sítio, mas não é praticante do candomblé.

Reunidos no terreiro na última terça-feira, o filho natural e os filhos de santo lembraram a dedicação de Gisele ao candomblé e a história da francesa nascida em Tanger (Marrocos), em 1923, e criada em Paris. O pai professor e a mãe pianista, franceses, voltaram do Marrocos para a França quando Gisèle tinha um ano e meio.

Na juventude em Paris, ela participou da Resistência na Segunda Guerra. Repassava aos ingleses informações sigilosas sobre a localização dos alemães. Nessa atividade clandestina conheceu o professor, depois diplomata, Jean Binon, com quem se casou e teve dois filhos – Claude e Bertrand, que vive na Ilha Margarita, na Venezuela. O casal morou por oito anos na África. Primeiro em Camarões, depois no Chade, onde Gisèle tinha um jipe que lhe garantiu autonomia para viajar, caçar e se aproximar da cultura africana. Na varanda da casa onde a mãe de santo vivia, dentro do terreiro em Duque de Caxias, ainda estão expostos chifres de gazelas caçadas por ela.

Depois de uma rápida passagem pela França, os Binons se estabeleceram no Brasil, em 1958. No ano seguinte, a francesa de pele muito branca e olhos azuis, frequentadora da alta sociedade carioca, visitou pela primeira vez um terreiro. Conheceu o famoso pai de santo Joãozinho da Gomeia, que a iniciou, em 1960. “Meu pai não sabia de nada”, lembra Claude.

Em 1962, a família voltou a Paris. Gisèle separou-se de Jean Binon, reassumiu o sobrenome de solteira, Cossard, e continuou ligada ao candomblé, tema de sua tese de doutorado em etnologia apresentada na Sorbonne em 1970.

Já de volta ao Brasil, em 1973, Gisèle, filha de Yemanjá, antropóloga e professora, iniciou o caminho que a tornou uma referência nas religiões de matriz africanas. Conheceu o pai de santo Balbino Daniel de Paula, apresentado por um amigo em comum: o fotógrafo Pierre Verger. Quando Gisèle sofreu um grave acidente de carro, em dezembro daquele ano, Balbino foi decisivo para a recuperação da francesa. O pai de santo a ajudou a transformar o sítio de Santa Cruz da Serra no terreiro e Ilê Axé Atara Magbá.

Gisèle morreu na casa onde viveu por quase 43 anos, de câncer. A saúde estava frágil, mas ela manteve a lucidez até o fim. Destinava à manutenção do terreiro toda a aposentadoria de professora e o dinheiro obtido com jogos de búzios e trabalhos do candomblé. “Ela vivia para o candomblé, o resto quase não a interessava”, conta Claude.

A chegada de Gisèle ao candomblé não foi pacífica. Ela enfrentou preconceito dos praticantes brasileiros, que não aceitavam uma branca francesa no comando de um terreiro. Também houve resistência à determinação de Gisèle em recuperar as tradições africanas do candomblé, sobretudo nas roupas. “Ela era muito mais africana que os negros no Brasil”, diz Cipriano.

No dia 29 de fevereiro terá início no barracão o axexê, a despedida dos mortos. Como Gisèle, da nação ketu, era uma autoridade de grande importância na hierarquia, a cerimônia, aberta à comunidade do candomblé, vai durar sete dias. Pai Flaviano, amigo da mãe de santo há 40 anos, virá de Salvador para dirigir o axexê e também será o responsável iniciar os jogos de búzios que darão os rumos da sucessão de Gisèle.

Sairão dos jogos as determinações sobre quando e como será escolhido o herdeiro ou herdeira de Omindarewá. “É uma conversa direta com o egum (alma ou espírito de pessoas falecidas) da Mãe e com os orixás. Os jogos vão dizer quanto tempo a casa deverá ficar fechada para trabalhos, mantendo apenas atividades internas, se a casa vai continuar, se haverá sucessão, quem será o sucessor ou sucessora”, explica Simone. Sem Gisèle, o destino de um dos mais famosos terreiros do Rio de Janeiro está nos búzios.

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