Wagner Almeida
Wagner Almeida

Onde a sombra faz a curva

Entrevista com

Wagner Almeida

Mônica Manir, O Estado de S. Paulo

31 Janeiro 2015 | 16h00

O primeiro crime ele não esquece: foi dentro do Ver-o-Peso, cartão-postal de Belém. Um homem fora baleado no mercado de carne, então bastante decadente. Era meio-dia, sol a pino, luz dura demais: “Foto poética ali, dificilmente eu conseguiria fazer”, diz Wagner Almeida, que cobre polícia para o Diário do Pará desde 2008. A poesia, e a dor da alma, ele encontrou no turno da madrugada, horário de pico dos assassinatos. Com uma Canon 60D, Wagner circula por Belém ocupada registrando cenas de crimes e corpos - em sua maioria jovens entre 15 e 19 anos, geralmente vítimas diretas ou indiretas do tráfico de drogas. 

As saídas renderam duas séries: Vale das Sombras, com imagens mais abertas, e Livrai-nos de Todo o Mal, focada nas tatuagens das vítimas e que lhe valeu o IV Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia. “Foi a coisa mais forte que vi nos dois últimos anos”, diz Diógenes Moura, curador da exposição A Arte da Lembrança - a Saudade na Fotografia Brasileira, que traz seis fotos de Wagner. “Aquilo não é apenas uma mancha fotográfica, aquilo é uma história, um homem que começou a fotografar 3 x 4 aos 12 anos, um homem que volta pra casa às 5 da manhã por vezes desesperado por um banho para se descarregar das cenas, que vê mãe, mulher, filho, irmão desesperados diante de um parente com dez tiros na cabeça, um homem que nos faz dar atenção à crueldade que está acima das nossas cabeças.”

Na semana passada, esse jovem homem, de 33 anos, saiu pela primeira vez do cordão de isolamento de Belém. Em São Paulo, deu esta entrevista sobre sua transição entre a vida e morte na terra natal, a 23ª cidade mais violenta do mundo. 

Por que fazer uma série com tatuagens?

Começou no início de 2012, quando cheguei num local de crime, na Rua Canal do Galo. Era um acampamento bem grande e as pessoas estavam rindo, comentando a morte de um jovem de 17 anos. Teve quem levou a família inteira, crianças de 10, 7, 3 anos pra ver o corpo. Só duas pessoas choravam no cordão de isolamento, dois idosos. A primeira imagem que eu vi foi “Fé em Deus” no braço do jovem. Não é uma coisa que geralmente eu faça, me aproximar muito do corpo, ainda mais quando tem familiar em volta. Mas não tinha jeito, eu tinha de fazer aquela foto. Ele levou sete tiros. Quando tiraram a camisa para fazer a perícia, vi no peito dele a imagem do palhaço com rosto de demônio, o revólver e o dinheiro. Se uma pessoa anda na rua expondo uma tatuagem dessas, a polícia para ele em tudo que é esquina e dá porrada, quando não mata. O palhaço é referência de quem mata inclusive polícia. Pensei: era um bandido filho da mãe, menos mal. Mas, quando viraram o corpo dele, estava escrito nas costas: “Só Deus pode me jugar”. Assim, sem “l” mesmo. Senti que ele “falou” comigo. Quem sou eu pra julgar o cara ali? Os idosos me disseram que eram avós dele e o criaram como filho. Foi doutrinado na Assembleia de Deus até os 13 anos de idade. As frases são recortes das vivências deles, a mistura da religião com o tráfico, Jesus Cristo e os deuses da simbologia do crime.

Você faz muitas fotos na madrugada, e em lugares bem escuros. Como lida com a luz?

A poesia da minha fotografia tem muito a ver com a iluminação. Algumas luzes são naturais, como a da iluminação de rua, que é amarela, quente. Mas às vezes eu “alugo” o cinegrafista da TV por um minuto e peço para jogar uma luz aqui, outra ali. Ou aproveito o farol do carro e a lanterna do perito. Ou então uso minha lanterna mesmo. Numa das fotos da minha próxima série, Ocupação Luz Divina, comecei com o corpo dentro da casa de madeira. Depois saí, deixei uma exposição de 30 segundos e fiquei pintando a casa com a lanterna, o carrinho de bebê ao lado da porta... O fato de eu iluminar com lanterna é uma identidade, uma assinatura. Não mexo nada no local, estou mostrando que o cara morreu. A minha intervenção é com a luz, geralmente uma luz fria.

Já sofreu alguma violência enquanto fotografava?

Já levei soco, tapa, fui até atropelado por uma moto. Mas é mais palavrão, ameaça. Uma vez um cara pegou uma ripa enorme e disse: “Se você fotografar meu filho, vou te meter uma porrada”. Ficava andando de um lado pro outro... Quando chegou um colega com a câmera, aquele led iluminando tudo, falei: “Pelo amor de Deus, apaga isso aqui”. Esse colega chegou afoito, coisa de foca, não sabia nem o que estava acontecendo. Mirou para bater a foto, todo mundo se assusta, especialmente familiar. Eu chego mostrando a câmera, até mesmo para a polícia me identificar, mas passo às vezes uns dez minutos só observando. Estudo primeiro a história, o lugar, a luz, como abordar os parentes. Depois começo a fazer.

É fácil cair no sensacionalismo com imagens assim...

O local de crime é um circo. “Fulano morreu, boralá ver.” E dá-lhe celular! Já fiz matéria especial sobre curiosidade mórbida pegando esse gancho de pessoas com celular. Mas não gosto de mostrar o rosto dos curiosos, gosto de mostrar as sombras. Também já fiz matérias de crianças, até bebês, no local de crime. Numa delas, deu uma vontade de pegar o bebê no colo... O jovem morto tinha o nome do filho num dos braços e uma fitinha no punho com “Jesus de Nazaré, proteja o meu lar”. Tenho quatro filhos, dois deles bem pequenos. Nessas horas, não vejo a hora de chegar em casa e dar um cheiro neles.

O que o atrai neste registro?

Não é um trabalho fácil. A polícia está apenas no local do crime. Até o repórter, eu e o motorista chegarmos lá, a gente entra em cada biboca, às vezes se perde em bairro perigoso, rodando como um peru tonto. Ninguém também vai comprar foto de assassinato. Mas esse trabalho me remete à infância. Eu podia muito bem ser um desses personagens, sabia? Me envolvi com gangue aos 17 anos, só saí desse mundo porque meu pai batalhou, chorou, orou muito. Conheço umas coisas da palavra de Deus, fui batizado na igreja batista, já doutrinei as pessoas, mas saí faz muito tempo. Não frequento mais. Também já teve uma ocupação na frente da minha casa, inclusive comecei limpando o terreno, puxando um mato dessa alturona para fazer um campo de futebol e jogar com os amigos. Dois dias depois estavam ocupando o meu campinho. Quer dizer, estou bem perto desse mundo, e acho que por isso procuro mostrá-lo com delicadeza. Não quero retratar uma cena horrível de assassinato, entendeu? Tenho respeito.

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