FOTOS SIMON FONTVIEILLE
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Ontem é hoje

O aniversário das grandes batalhas entrelaça o tempo cíclico das estações com o "never more" de nossas vidas

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

25 Julho 2015 | 16h00

A Europa é um continente que recorda. Adora comemorações, aniversários e celebrações. Todo verão, de julho a setembro, mas também no outono e mesmo no inverno, ela reedita as grandes batalhas que marcaram sua tumultuada história.

Se passarem pela Áustria, poderão assistir à Batalha de Wagram, travada por Napoleão em 1809. Ou então, se chegarem até as Ardenas, verão milhares de soldados americanos, ingleses e alemães recomeçarem sem fim as batalhas de 1944, quando Hitler viveu seu derradeiro furor. A guerra mundial de 1914-18 também é um fantástico catálogo de batalhas, como Verdun, o Marne ou Les Éparges, que costumam ser reeditadas.

Às vezes, remontamos no passado longínquo. Reproduzimos até mesmo a Batalha de Bouvines, na qual, em julho de 1214 (isto é, há mil anos), o rei da França, Felipe Augusto, enfrentou três poderosas monarquias europeias - Otão IV de Brunsvique, o inglês João Sem-Terra e o português Fernando.

Essas batalhas fantasmas, essas batalhas mortas, exumadas do passado, como se exuma uma ossada do paleolítico ou um vaso da antiga Grécia, são executadas com um rigor escrupuloso. Os soldados, milhares, dezenas de milhares de soldados, são voluntários. Eles envergam os uniformes da época com um realismo alucinante, seguram arcabuzes ou fuzis de época. As enfermeiras têm os mesmos uniformes de então. Para as batalhas recentes, são encontrados automóveis de 1916 ou tanques de 1945. Supermercados gigantes de uniformes e de material antigo surgiram principalmente na Bélgica. Um tanque de guerra de 1944 americano ou alemão vale uma fortuna, mesmo se alugado.

Todos os “soldados” conhecem a batalha na ponta dos dedos: passaram o inverno recapitulando a história. O desenrolar do combate foi elaborado por velhos militares eruditos que prefeririam morrer a dar aos seus soldados fuzis de uma outra guerra. Cada gesto é a cópia de um gesto feito há 100, 500, às vezes mil anos. É o realismo! Nada de imaginação, nem de poesia! O embate terá de ser reproduzido - como um falsificador refaz um quadro de Rembrandt ou de Veronese.

Esses simulacros de batalhas inscrevem-se num vasto movimento de ressurreição do tempo perdido. Nostalgia! A Europa e principalmente a França são ávidas de aniversários. Celebram-se sem cessar datas passadas: o nascimento de um rei, sua morte, seu casamento, sua primeira gripe, a invenção do avião, da fotografia, um naufrágio, uma lei, a abertura de um bordel, o desmoronamento de uma igreja.

Neste verão, os organizadores não sabiam como estabelecer uma ordem para tantos aniversários. Era preciso encontrar um espaço para as batalhas de 1945, mas também um lugar para a última batalha de Napoleão, Waterloo, em 1815. Revivemos o momento em que os hussardos de Napoleão surpreenderam o pobre “soldado Ryan”.

Há uma fila de comemorações. Há um verdadeiro congestionamento de memórias. Os anos se misturam, se entrechocam. Cada dia é uma bonequinha russa. Se a abrirmos, encontraremos em seu interior cinco ou seis jornadas antigas. Não se pode arrancar uma folha de calendário sem topar com um domingo antigo, uma segunda-feira desaparecida. A véspera e o amanhã se sobrepõem. Os aniversários dão topadas entre si. A vontade é distribuir senhas, como nas repartições do seguro social. 

O tempo é o combustível comum a todas essas “reproduções de antigas batalhas”, a todos esses aniversários. Há o tempo circular que não morre jamais e retorna a cada ano ou a cada século, e o tempo linear, o tempo da História, que se consome, morre e jamais recomeça.

Algumas festas comemoram o tempo circular, o tempo natural, o tempo sem começo nem fim, um tempo ao mesmo tempo rápido e insubmergível, frágil e no entanto indelével, pois ele retorna no ano ou no século seguinte. É o tempo dos pagãos, mas também o dos filósofos gregos antigos, Parmênides ou Pitágoras, o tempo que percorre o quadrante do relógio e que recomeça a cada doze horas sua ronda eterna. Esse tempo do Eterno Retorno não quer conhecer nada da História, pois o tempo da História, justamente, não retorna jamais.

Ao contrário, outras comemorações, por exemplo as reconstituições de batalhas antigas, consomem o tempo histórico, ou seja, um tempo linear que é o de Heráclito (“Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio”). A batalha de Waterloo ou a chegada de Cabral ao Brasil ou o suplício de Tiradentes aconteceram em dado momento e não se reproduzirão jamais. Mas o aniversário, a comemoração ou a reprodução de uma antiga batalha fazem reviver todos os anos acontecimentos que desapareceram irrevogavelmente. Os dois modelos de tempo - o linear e o circular - então se conjugam. Um aniversário realiza esse “tour de force”: ele entrelaça a doce, monótona e repetitiva ciranda das estações com o curso cego e irremediável da História, com o “never more” das nossas vidas.

Embora sejam incompatíveis, os dois modelos de tempo, o histórico e o circular, desempenham a mesma função. Arquimedes traça seus círculos (que procedem do atemporal) na cidade de Siracusa à qual a História acaba de atear fogo.

O caso de Jesus Cristo esclarece essas sutilezas. Jesus é um atleta do aniversário do aniversário, da comemoração. Está à vontade no tempo humano. No entanto, no início, teve dificuldade em penetrar nele. A própria data do seu nascimento é um segredo. Tácito, que é seu contemporâneo, assinala simplesmente que algo aconteceu no reinado de Tibério, lá, ao lado da Judeia, mas não sabe bem o quê.

Mas, em seguida, Jesus está muito à vontade no tempo circular. Jesus adora os aniversários ou, antes, seus fiéis o adoram. Ele se apodera do tempo redondo das estações, dos solstícios, dos equinócios e dos aniversários. Celebra o retorno regular do seu nascimento, de seu suplício, de sua ressurreição, da Páscoa, da ascensão, de seu reencontro com os peregrinos de Emaús. Cada domingo, há 2 mil anos, as igrejas e os templos reproduzem a subida aos céus de sua mãe, suas atribulações com Judas ou a sua crucificação, exatamente como no ano 2015 soldados voluntários reproduzem a Batalha de Wagram, de Waterloo ou das Ardenas. Há dois mil anos, Jesus Cristo diz todas as manhãs, ou todos os anos, a Lázaro: “Levanta-te e anda”.

Assim, à primeira vista, Cristo parece um especialista deste tempo, sempre recomeçado, que é o tempo das antigas civilizações, por exemplo, dos gregos, o de Parmênides ou de Pitágoras.

Mas Cristo é também um enérgico adepto do tempo irreversível, do tempo da História. Por quê? Sua vinda à terra quebrou o tempo antigo. Graças a Jesus, há um começo da história e haverá um fim, o apocalipse, o Juízo Final e o fim do mundo. A irrupção de Jesus, em certo momento do tempo, foi um acontecimento extraordinário que determinou o ano zero e que desenredou o tempo circular das antigas civilizações, substituindo-as pelo tempo mortal e irreversível da História.

Jorge Luis Borges teve a percepção disso: “Aristóteles nos diz que os pitagóricos professavam a crença, o dogma do Eterno Retorno que Nietzsche descobriria tempos mais tarde, ou seja, a ideia do tempo cíclico refutado por Santo Agostinho na Cidade de Deus. Santo Agostinho disse, empregando uma extraordinária metáfora, que a cruz de Cristo nos salvou do terrível labirinto circular dos estoicos”.

A análise de Borges é correta. No entanto, é incompleta. O grande cego de Buenos Aires se esquece de dizer que, se a Igreja de Jesus pôs em movimento o tempo linear, o tempo histórico, permanece igualmente uma grande produtora do tempo circular. É o que testemunham, sobre o tímpano das catedrais, a Roda da Fortuna assim como o retorno anual das mesmas missas, das mesmas cerimônias, Páscoa e Natal, Pentecostes e Todos os Santos, etc. Combinar os dois registros do tempo é o gênio do cristianismo. Teremos de escolher entre esses dois modelos de duração? Certamente, o tempo circular, o Eterno Retorno, tem seu encanto. É tranquilizador. Ele elimina o inesperado, a surpresa ou o desconhecido, e mesmo a morte, mas é monótono, destila um enfado infinito. Quando aprendeu que Nietzsche havia introduzido na filosofia o modelo do Eterno Retorno, Woody Allen se desmanchou em lágrimas e disse ao professor: “Então, terei de rever eternamente Holiday on Ice?”

O aniversário, a reprodução maníaca das antigas batalhas, são o ponto de articulação desses dois filósofos do tempo. Eles asseguram sua sutura. Combinam as figuras incompatíveis. É ali que floresce o seu gênio. Seu estofo é tecido com lãs e sedas de todas as cores. O que lhes confere seus moirés e suas seduções, suas complexidades, seus paradoxos e suas verdades.

O aniversário decorre de dois modelos de tempo. Ele nos ensina que o presente só existe porque morre, e que ele renasce no momento em que acreditamos que morreu, como de resto fez Jesus Cristo. Nas curiosas cerimônias que o aniversário fomenta, a memória e o esquecimento cessam de ser irreconciliáveis.

Todas as coisas, sempre, morrem e entretanto renascem. Cada instante é sem antecedentes e sem posteridade, mas ele jamais se apaga.

O passado, o presente e o futuro se confundem, tornam-se indiscerníveis uns dos outros. Todas as coisas se vão e todas retornam. Hoje pela manhã o sol nasceu há mil anos e se porá em seguida, em cinco milhões de anos, ou seja, há vinte séculos. O tempo é uma trágica linha reta. E é redondo como uma bola.

“Tudo está no presente, entenda isto”, escreve William Faulkner. “Ontem só acabará amanhã e amanhã começou há dez mil anos.” 

/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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