Operação realismo fantástico: Descobrindo o Brasil com a Lava Jato

Antes, suspeitávamos que o Brasil era inclinado ao delírio coletivo; 32 fases depois, temos certeza

Alexa Salomão, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2016 | 16h00

Há controvérsias sobre o exato momento em que tudo começou. Em retrospecto, historiadores argumentam que sempre fomos uma nação surreal. A mudança da rainha Maria I, a Louca, para o Brasil colônia já atestava a nossa predisposição ao delírio. Popularmente, há outras versões. O momento derradeiro seria o apito final do 7 x 1 da Alemanha sobre o Brasil na Copa. Ali, o eixo da Terra teria se deslocado, e nada mais seria ou voltaria a ser como antes. Imerso no turbilhão dos acontecimentos, o presidente de uma das empreiteiras investigadas pela Polícia Federal confidenciou ao Aliás que se deu conta do insólito só mais tarde, quando a ainda presidente Dilma Rousseff saudou a mandioca. “Recebi o vídeo pela manhã e compartilhei, já com a pergunta que me persegue, e que ninguém responde: esta loucura não vai ter fim?”

O fato é que o País segue embalado por revelações bombásticas. De duas a três vezes por semana, subverte-se a ordem razoável das coisas, das pessoas e dos acontecimentos. Na literatura, o nome disso é realismo fantástico. Na vida como ela é, no Brasil contemporâneo, responde pelo nome de nosso cotidiano.

Uma parte dos absurdos brota por geração espontânea. A mulher do ministro do Turismo que fez um ensaio (quase) sensual no gabinete oficial e postou as fotos nas redes está nessa categoria. Descobrir que ela também tinha sido Miss Bumbum nos Estados Unidos reforça a sensação de que, sim, o País ficou preso em alguma fenda do tempo. Mas as revelações mais estapafúrdias são flagras da intimidade do poder, trazidas a público pelo recente e imprevisível desnudamento jurídico e criminal instaurado pelo juiz Sergio Moro.

Nessa perspectiva, marco zero é o 17 de março de 2014. Naquela segunda-feira, a PF caiu da cama e anunciou a prisão de uma quadrilha que lavava dinheiro em postos de combustíveis. Batizaram de Lava Jato, numa alusão ao fato de que um dos postos de fato lavava carros, além de dinheiro. Como costuma acontecer nos momentos em que nossa existência muda de rumo, naquele dia nos ocupamos de banalidades. A notícia foi a apreensão de um Camaro amarelo. Mas foi a partir dali que se instaurou o imprevisível.

As 32 fases da Operação Lava Jato, com suas derivadas e correlatas, não apenas revelaram o que era sabido: a corrupção infesta o público e o privado no País. Confirmaram que o diabo mora nos detalhes – e os detalhes é que são insólitos.

Já se sabia que dá para parcelar iates e aviões de luxo no Brasil. Aqui até rico gosta de um carnê. Mas a Operação Zelotes, dedicada a desmascarar a compra de perdão para multas fiscais, mostrou que fomos além: há crediário para a propina. Um integrante do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, o Carf, cobrou suborno de R$ 1,5 milhão do Itaú Unibanco e propôs parcelamento em 10 vezes – sem juros. A Operação Boca Livre fez avant première de denúncias na área da Cultura. Segundo os investigadores, a melhor peça da temporada foi o casamento com patrocínio da Lei Rouanet numa praia chic em Santa Catarina. Evento sem paralelo: o primeiro caso em que noivos e convidados foram penetras em festa bancada pela população. Mas não sejamos injustos. Há diversidade na corrupção. Um dos muitos dutos do chamado petrolão canalizou dinheiro das obras do novo Cenpes, centro de pesquisas da Petrobrás, no Rio, diretamente para o financiamento de uma escola de samba do Rio Grande do Sul, onde nem se sabia haver carnaval. Entre os beneficiários, estava a madrinha da bateria, que teria recebido um mensalinho de R$ 61,7 mil.

A equipe do Sensacionalista, site de humor que inventa notícias falsas a partir de fatos reais, atesta que a concorrência da realidade se tornou predatória. Como bem lembrou Martha Mendonça, uma das sócias, enquanto o Brasil pena na crise econômica, a indústria de tornozeleiras eletrônicas para presos cresce quase 300% e há falta do produto. “Mais surreal, impossível”, diz ela. Nelito Fernandes, criador do site, conta que o grupo troca ideias por WhatsApp. “Se a gente entra no meio da conversa, já não dá para saber se o tema é a nossa piada ou a notícia original”, diz. “Um dos elementos do humor é distorcer a realidade, surpreendendo com algo inesperado. Mas, com uma realidade já distorcida como a nossa, fica difícil.”

A política tem sido um ambiente fértil na produção de esquisitices do grupo. Fernandes prossegue: “O que era Eduardo Cunha tentando explicar que o dinheiro do trust no exterior não era dele? Claro que não: era nosso. E o Lula, que foi empossado ministro, depois deixou de ser, aí voltou... Nunca se viu algo assim. Na sequência vem outro governo, com o discurso da moralidade, mas que ao mesmo tempo carregou vários ministros acusados na Lava Jato. Esses fatos dificultam a piada, porque eles mesmos já são piadas.”

Outro sócio do Sensacionalista, o historiador Leonardo Lanna tem entre seus personagens favoritos o presidente em exercício Michel Temer, não pelo resgate da mesóclise nos discursos ou por desposar uma bela, recatada e do lar em pleno século 21, mas por sua suas reviravoltas neste ano mirabolante: “Ele é o vice que, até então decorativo, tira a presidente de cena com ajuda de um mega vilão, que acabou abandonado depois de cumprir seu papel”.

O assustador é que a loucura geral é documentada. Há escutas telefônicas. Computadores, celulares e tablets são apreendidos. Imagens de câmeras de segurança são confiscadas. Documentos em papel e pen drive são arquivados. Um arsenal de Big Brother com relatos de vícios, manias, desejos inconfessáveis.

Grampo vazado revelou que o ex-presidente Lula atende o telefone com a expressão “querido (a)”. Inclusive quando do outro lado da linha está Dilma, usuária contumaz do adjetivo. Afinal, o bordão “querido” foi criado por Lula ou Dilma?

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, numa escuta da PF, apareceu (com toda a finesse) dizendo a Lula o que muitos pensavam e não tinham coragem de falar sobre o tal sítio em Atibaia que o ex-presidente diz não lhe pertencer: “Agora, da próxima vez, o senhor me para com essa vida de pobre, com essa tua alma de pobre, comprando esses barcos de merda, sitiozinho vagabundo”.

Os registros só foram melhorando. Segundo a Força Tarefa da Lava Jato, a Odebrecht montou um departamento para fazer o pagamento das propinas e dispunha de planilhas listando cerca de 300 políticos, boa parte com codinomes. Não se sabe ainda se foram doações ou outra coisa, mas a papelada foi reproduzida na internet. É divertido tentar ligar o nome ao apelido. A deputada estadual gaúcha Manuela d’Ávila é “avião”, e o ex-presidente José Sarney, “escritor”. Faz todo o sentido. Assim como está explicado que Cunha seja “caranguejo”, o bicho que agarra e não solta – segue aí, grudado no mandato. Mas falta explicar por que o ex-ministro Jaques Wagner é “passivo”, e em que circunstância Jarbas Vasconcelos Filho ganhou o apelido de “Viagra”.

Há indícios de que alguns agora estão alucinando. Espalhou-se a convicção de que a PF pode rastrear conversas de celulares desligados. Há quem diga que até sem bateria. O aparelho é vetado em gabinetes da Esplanada dos Ministérios. Nem assim adianta. As revelações mais bombásticas vieram da intimidade. O empresário Marcelo Odebrecht tinha oito celulares e, aparentemente, sofre de hipergrafia – anota de tudo. A polícia estimou ter encontrado algo como 500 anotações de sua autoria, boa parte cifrada. Uma das mais polêmicas tratava de “Vaca”, “Vaccari”, “Vacareza”, e o número 2,2 M – gastou-se tempo e massa encefálica e os investigadores concluíram que se tratava de propina para o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto. No fim, era apenas Hamina, uma vaca (animal) de R$ 2,2 milhões.

Vaccari, aliás, foi pródigo em aparições. Em sua delação, o empresário Ricardo Pessoa, dono da empreiteira UTC, deixou registrado que o ex-tesoureiro não mencionava as palavras dinheiro ou propina. Pedia “pixuleco”, substantivo até então obscurecido. Vaccari contribui, assim, ao imaginário coletivo, pois o termo passou a designar o boneco inflável de Lula com roupa de presidiário.

Já Sergio Machado, ex-presidente da Transpetro, desenvolveu o curioso hábito de gravar conversas. O senador Romero Jucá, registrado falando mal da Lava Jato, nunca desconfiou. Não ficou uma semana na cadeira de ministro do Planejamento no governo interino após suas opiniões virem a público. Conta-se que Lúcio Funaro, preso acusado de lavagem de dinheiro e atuar como operador de Cunha, tem 18 meses de gravação que prometem desnortear ainda mais a cena. Dizem que vai causar inveja a Machado.

O estágio atual é o da paranoia. O herdeiro da maior construtora do País está na cadeia há mais de um ano. Um banqueiro foi parar em Bangu 8. Até o tal do japonês da Federal, que escoltava os criminosos, foi preso. Amanhã pode ser o vizinho que faz barulhos estranhos na madrugada. Pode ser aquela tia solteirona. Você mesmo começa a temer pelo que andou fazendo. E espera a PF bater na sua porta.

A Lava Jato surpreendeu a colega Luciana Amaral, repórter de Política do Estado. Ela e Haroldo, um filhote de Yorkshire, foram acordados por batidas fortes na porta e gritos de “abre, é a Polícia Federal”. De pijama, descabelada e descalça, viu pela fresta três homens fortes e paramentados exibindo um mandado assinado por Moro. Estavam ali para a busca e apreensão de R$ 50 mil. Aos 24 anos, no início da profissão, Luciana bem que desejou que o tal dinheiro existisse. Era tudo um mal entendido. “O Brasil está uma maluquice e escrevemos sobre isso todo dia, mas de repente eu fazia parte daquilo. É como entrar numa realidade paralela, num sonho surreal”, diz ela.

No diagnóstico do economista e cientista social Eduardo Giannetti, sofremos a recaída de uma doença antiga. “A realidade no Brasil sempre foi surreal”, diz ele. Citando um texto de Hélio Beltrão, ex-ministro da Desburocratização (sim, houve esse cargo), ele lembra que tudo no Brasil é feito de cima para baixo e de trás para diante, sem nunca romper com um padrão torto. “O Brasil vive ciclos: vem confiante, as coisas parecem se encaminhar, acreditamos ter encontrado o nosso destino, mas aí as coisas desabam.”

Após a 2ª Guerra, já houve três ciclos seguindo esse padrão, pontua Gianetti. Fomos dos anos dourados de JK, com Bossa Nova, Cinema Novo, capital nova, fusca zero quilômetro, à derrocada fiscal e uma crise institucional que levaram ao golpe de 64. O segundo momento começa no Milagre Econômico dos anos 70 e termina na Década Perdida de 80. Depois vem o ciclo atual, que nasce no Plano Real, atravessa a transição serena de FHC para Lula, e milhões de brasileiros emergem da pobreza e ingressam no mercado de consumo. Até que tudo começou a ruir, no primeiro mandato de Dilma. “Neste momento, estamos atordoados, no pior estágio dessa síndrome: predomina a desesperança, a percepção da realidade está distorcida, e a Lava Jato escancara a corrupção, endêmica, mas que agora subiu de patamar: dá impressão de que ganhou uns três zeros.”

Difícil arriscar palpite para quando e como encontraremos a cura. No livro de citações Antologia da Maldade, os economistas Gustavo Franco e Fabio Giambiagi lembram uma frase de Isaac Newton a propósito dessa limitação: “Eu consigo calcular o movimento dos corpos celestes, mas não a loucura das pessoas”. Neste momento, em viagem pelo Velho Mundo, Franco manda um recado: “Aqui, entre os gringos, só se fala na corrupção do Brasil, não há outro assunto. Como disse Millôr, só muda o corrupto, jamais o tema. Mas também não há um gringo que não confirme que no seu país a coisa já foi preta, embora tempos atrás, há 50 ou 100 anos”, diz Franco. Assim, imerso em outros ares, ele vislumbra que o tempo e o amadurecimento podem nos levar, enfim, à sanidade: “A corrupção é uma doença da juventude dos países. Ou seja, não somos estragados de nascença, somos apenas jovens. Vamos nos corrigir, como aconteceu com franceses, japoneses e americanos”. Até lá, haja Rivotril.

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