PHILIPPE WOJAZER/REUTERS
PHILIPPE WOJAZER/REUTERS

Os bufões

O grotesco, o incestuoso, o burlesco e o patético entram em cena no teatro da família Le Pen

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

09 Maio 2015 | 16h00

Essa família é uma ópera. Um teatro. E como em todas as belas peças (de Shakespeare ou Bertolt Brecht) ela combina todos os gêneros. Ora é burlesca, enternecedora, ora grotesca, odiosa, incestuosa, excêntrica, patética, sem esquecer, na transparência de cada cena, as luzes e sombras da tragédia, a grande tragédia, dos gregos antigos, de Sófocles, Eurípedes ou mesmo Ésquilo.

O que quer dizer que nos regalamos esta semana, porque a louca família estava em grande forma. E ofereceu um “pot-pourri” dos seus melhores espetáculos, concluindo com um fato prodigioso, ao vivo, sob os olhos da França inteira: o combate do pai Jean-Marie, criador há 50 anos do partido fascista Frente Nacional, com a filha, Marine Le Pen, que dirige atualmente o partido criado pelo pai e que, sem hesitar, decidiu pela sua degola: a exclusão de Jean-Marie do partido que ele criou e sempre exaltou.

Virtuoses do teatro, tanto um como o outro, pai e filha têm o dom de produzir imagens. Neste sentido, sábado retrasado foi um sucesso. A Frente Nacional desfilou como faz anualmente num lugar simbólico, diante da estátua de Joana D’Arc, uma das mais belas heroínas da história francesa.

O velho Pai, Jean-Marie (86 anos), viria à festa, embora estivesse proibido, por ter assegurado, mais uma vez, como um velho que repete sempre as mesmas coisas, que não existiram as câmaras de gás nazistas? Ora, ele veio. Vestido com um manto escarlate, ele saudou os partidários, impedindo a filha Marine de proferir seu discurso. Em seguida levantou a cabeça para Joana D’Arc em seu cavalo e gritou, com voz rouca por causa da idade e da indignação: “Socorro, Joana!”. A filha Marine, então, proferiu seu discurso, mas com uma voz arruinada.

Melhor ainda: a família infernal também tem o dom de engendrar, para os seus inimigos, imagens fortes. Foi assim que, no mesmo dia, enquanto Marine Le Pen vociferava ao microfone, três “femens” (integrantes do grupo feminista ucraniano) irromperam no balcão de um hotel na frente da praça, os seios nus, o peito decorado com a inscrição “Heil Jean-Marie Le Pen!”

Como esquecer este episódio ridículo? O velho chefe vestido de escarlate, a filha tentando falar e, ao fundo, três mulheres gritando, enquanto os cabeças raspadas da Frente Nacional tentavam agarrar pela cintura as mulheres que protestavam.

À nossa frente cenas burlescas, de teatro de revista, mas em segundo plano havia figuras da tragédia antiga. Temos um certo pudor de evocar aqui a tragédia de Édipo, tão banal se tornou depois que Freud fez desta figura a chave secreta das relações psicológicas, mas como evitar?

Édipo é o príncipe da cidade de Tebas, filho de Laio e Jocasta, que mata o pai por engano e em seguida casa-se com a viúva de Laio, ou seja, sua mãe, com quem tem quatro filhos. Nada faltou na reconstituição feita pela família Le Pen da tragédia grega: Marine, a filha, mata em público o pai. E isso depois de uma longa sequência em que, entre Jean-Marie Le Pen e sua filha, se desenvolveu uma relação incestuosa, pois foi ele que, ao se aposentar, conseguiu que ela fosse nomeada em seu lugar. 

A família Le Pen aprimorou o drama grego, pois, na segunda-feira, depois de ser excluído do partido que fundou, Jean-Marie gritou: “Tenho vergonha de a presidente da Frente Nacional levar o meu nome. Gostaria que o perdesse o mais rápido possível”. Como? Casando-se com alguém. Em resumo, Jean-Marie, que acaba de ter sua cabeça cortada pela filha, mata-a, por sua vez. Que proeza!

Há algo perturbador em se tratando de Jean-Marie: o homem passa o tempo fazendo elogios à família francesa, com seus valores tradicionais. Ora, suas relações com a própria família sempre foram mordazes. Acabamos de ver com Marine. Mas ele também teve brigas com a outra filha.

E com sua mulher, o ar era mais respirável? Nem tanto. Há alguns anos, após um entrevero político-doméstico, o casal se separou. E sua mulher, para se vingar, não encontrou atitude melhor do que posar nua para a revista Lui (a Playboy francesa), passando aspirador de pó em sua casa.

Mas, na época, o grupo Femen não existia, e não pudemos ler nos seios da senhora Le Pen a inscrição “Heil, Le Pen”.

/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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