Os coveiros na era do funeral estelar: Leonard Cohen e a hora do adeus à última geração de imortais

A senhora morte não está maisimplacável do que em outros anos, mas chegou a hora de dizer adeus à última geração de imortais

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2016 | 17h00

Há algum tempo que os anos parecem especialmente cruéis, ceifando vidas que deveriam gozar do mais absoluto salvo-conduto divino justamente por terem se dedicado a salvar outras vidas. A triste e impiedosa realidade se impõe diante do fim de uma geração estelar que tem sido levada pela ação do tempo. A morte dos gênios nada mais é do que a natureza fazendo o trabalho sujo. Não são os últimos anos que estão ingratos, mas sim nosso involuntário papel de testemunhas do mais espetacular funeral coletivo da história. A cada dois ou três meses escreve-se o epitáfio em uma lápide de ouro: David Bowie: “Só morre o homem que não se transforma”. Prince: “Apenas uma vida foi pouco, que venha a segunda”. Leonard Cohen: “Eu já disse tudo o que tinha a dizer. Com licença?”

O fato biológico é que esses homens, os mesmos que sempre acreditamos serem imortais, não são. Apesar de alguns deles acabarem acreditando, conforme lhes dizem desde crianças, que se tratam de seres especiais enviados dos céus, suas veias também entopem de gordura, seus órgãos vitais são devorados por tumores e seus corações, por inacreditável que pareça, param de se movimentar. Quando isso acontece, amaldiçoamos as divindades, nos sentimos traídos e um vazio nos joga por uma escadaria que termina no porão. E esquecemos que aquelas pessoas, em sua maioria, entraram na casa dos 70, dos 80, e que, para os agentes funerários do outro mundo, eles já haviam cumprido suas missões.

Viver em 2016 é especialmente cruel não apenas por tornarmos os coveiros da última era dos gênios pop de massa, surgida para o mundo entre as décadas de 1960 e 1970, mas também por termos a ligeira sensação de que não estamos fazendo o replantio com a mesma velocidade que sofremos a devastação. Ou ainda, se estamos, os frutos dessas novas árvores só serão degustados por nossos bisnetos. Afinal, quantos anos são necessários para se produzir um novo David Bowie. OK, seria demais, mas pelo menos alguém com o mesma capacidade de consagrar-se de dia, implodir-se à noite e começar de novo um novo trabalho, renovado e surpreendente? Em quantas décadas teremos um novo Prince? OK, um delírio, mas então, ao menos, uma cabeça a serviço da música de massa capaz de confeccionar os mesmos biscoitos finos para o público mais leigo e o mais especializado.

Estamos entrando no vácuo, na era do grande silêncio. Em não mais do que dez anos, não teremos mais nenhum dos heróis clássicos nos palcos. O tempo tarda mas não falha. Paul McCartney: 73 anos. Eric Clapton: 70. Elton John: 68. Mick Jagger: 72. Keith Richards: 72. Roger Waters: 72. Jimmy Page: 72. Chuck Berry: 89. Little Richard: 82. David Gilmour: 69. Ringo Starr: 75. Neil Young: 70. Pete Townshend: 70. Roger Daltrey: 71. John Fogerty: 70. Jeff Beck: 71. Robert Plant: 67. Brian Wilson: 73. Bob Dylan: 74. Ou a ciência se apressa em esticar o elástico da vida, ou estaremos órfãos em muito pouco tempo.

A resposta imediata é desesperadora. Saímos agora às pressas para chegarmos na frente da tinhosa, nos anteciparmos à “caetana”, como a morte era chamada pelo imortal Ariano Suassuna. Antes que a foice se aproxime, é preciso estar a postos diante de nossos ídolos para sugarmos o que podem nos deixar de melhor. Uma relação sempre egoísta. Saímos de casa repetindo a frase “vou ver fulano antes que seja tarde demais” e prontos para assistirmos não ao presente, mas ligarmos nossas experiências ao passado. Quem esteve na casa Via Funchal, em 2012, para ver BB King, tinha a clara sensação de que aquela se tratava de uma despedida. BB fez um de seus piores shows, derrapando em solos e esquecendo-se de músicas, mas nunca foi tão aplaudido. Ao sair, deixou um sorriso do qual ninguém se esqueceu.

A morte é saudada pelo próprio artista como a glória final de uma vida sombreada pela profecia. Falar sobre ela enquanto se está no palco, como faz Gilberto Gil em suas canções, é um ato epicurista, poético, lírico. E encará-la à beira do precipício, como fez Renato Russo, Cazuza e Cartola, é trágico e consagrador, traumático e edificante. Alguns poucos ainda se dão ao luxo de despedirem-se com classe, pavimentando o caminho para a beatificação póstuma. David Bowie escondeu da humanidade o câncer que o consumia e morreu dois dias depois do lançamento de seu derradeiro álbum. Leonard Cohen foi ainda mais profético. Fez um disco sobre a morte pouco antes de escorregar, bater a cabeça e ir dormir sem saber que jamais acordaria.

Os versos de Gil em Não Tenho Medo da Morte, cantados pelo próprio no momento em que ele está ao lado de Caetano Veloso, submetendo-se a um tratamento delicado de insuficiência renal, provocou uma catarse na mais recente apresentação dos dois cantores em São Paulo. Gil estava na escuridão, iluminado por apenas um holofote, enquanto Caetano o assistia ao lado. A conversa do baiano com a morte é tocante. “Não tenho medo da morte / mas sim medo de morrer / qual seria a diferença / você há de perguntar / é que a morte já é depois / que eu deixar de respirar / morrer ainda é aqui / na vida, no sol, no ar / ainda pode haver dor / ou vontade de mijar / a morte já é depois / já não haverá ninguém / como eu aqui agora / pensando sobre o além / já não haverá o além / o além já será então / não terei pé nem cabeça / nem fígado, nem pulmão / como poderei ter medo / se não terei coração?” Não seria uma despedida pelo simples fato de que, para alguns homens, ninguém tem coragem de dizer adeus.

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