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KACPER PEMPEL | REUTERS

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Os dez anos do avatar da internet

Em uma década, o Twitter tornou-se o melhor feed de notícias do mundo digital e o caminho ideal para compartilhar observações cotidianas

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Sérgio Augusto,
O Estado de S.Paulo

27 Março 2016 | 06h00

Em 21 de março de 2006, o empresário e criador de softwares Jack Dorsey postou esta mensagem: “Just setting up my twttr” (Acabo de instalar meu twttr). Poderia ter-lhe acrescentado mais 116 caracteres, mas aqueles 24 continham o essencial: chegava à internet o suprassumo dos microblogs, o segundo prodígio da rede social, prometendo aos seus usuários o máximo em mobilidade, instantaneidade e capilaridade. Dois anos mais novo que o Facebook de Mark Zuckerberg, o Twitter (só lançado oficialmente em 15 de julho de 2006) festejou seu primeiro decênio na segunda-feira passada, com os salamaleques que sua transformação em fenômeno cultural e político merece.

O jornal britânico The Independent fez um balanço dos momentos importantes da plataforma; a revista Entertainment Weekly desencavou os primeiros tweets de diversos famosos; sob a hashtag #ILoveTwitter, o site da empresa promoveu a efeméride o dia inteiro, com uma sessão nostalgia das grandes amizades, paixões e badalações intermediadas pelo “SMS da internet” no mundo inteiro.

O Facebook ainda domina amplamente as redes sociais. Sem a constrição dos 140 caracteres, virou a ágora da internet. O Twitter está mais para o minarete e o alto-falante, é o grafitti (ou o haicai) da rede. Ajudado pelo advento dos tablets e a telefonia móvel, tornou-se o melhor feed de notícias do mundo digital, a plataforma preferida dos jornalistas. E também daqueles que precisam convocar manifestantes a uma passeata, caitituar eleitores ou apenas xingar alguém ou alguma instituição de forma instantânea, concisa e contundente. Ferramenta neutra, nem inerentemente boa nem má, o Twitter veicula mensagens positivas e negativas, amenas e explosivas, construtivas e destrutivas; cabe aos usuários humanizá-la.

Sua maior desvantagem em relação ao concorrente não é a avareza vocabular de seus posts, mas o laxismo de sua vigilância. Ao aderir ao serviço, o usuário ganha um ovo como avatar, que poderá manter, substituir por uma imagem sua (real ou desenhada) ou trocar por uma falsa identidade, e tuitar comodamente protegido pelo anonimato. Por isso, no Facebook, onde o internauta é obrigado a expor sua cara e sua verdadeira identidade, a punição por irregularidades consideradas graves, como bullying moral e agressões racistas, costuma ser mais rápida e rigorosa.

O Twitter não possui instrumental adequado para conter assédios violentos e moderar ou brecar hostilidades coletivas contra quem quer que seja. Em agosto de 2014, a filha do ator Robin Williams viu-se obrigada a cancelar sua conta depois que uma Blitzkrieg de posts vexaminosos quase a levou a um sanatório. Chuck C. Johnson, conhecido gozador (ou trollador, no jargão das mídias sociais) de direita, um Darth Vader digital, só teve sua conta cancelada ao cabo de inúmeras advertências e suspensões temporárias.

Por um longo tempo, o Twitter me pareceu um espaço congestionado de adolescentes de miolo mole, uma planície virtual colonizada por desocupados que fazem do narcisismo uma virtude e da evasão da privacidade uma filosofia de vida. A conversa fiada, as gracinhas de bebês e bichinhos, as piadinhas de gosto duvidoso ainda predominam, ultimamente acossadas por uma algaravia de insultos de caráter político-partidário, por uma retaliação insana e insopitável, mas vida inteligente é o que não falta no pedaço. Nem humor de primeira. Várias vocações para tiradas curtas fizeram da plataforma um trampolim para o teatro e a TV.

Não é nada estimulante descobrir que mais de 80% dos 100 tuiteiros com maior número de seguidores são artistas pop e celebridades esportivas chegados a uma platitude e incapazes de tirar os olhos do próprio umbigo por um post sequer. Entre os 20 primeiros, só Barack Obama, em quarto lugar (com 72,5 milhões de seguidores), não pertence ao show biz. Kate Perry, Justin Bieber e Taylor Swift lideram o ranking, tediosamente previsível. Vá lá que o Dalai Lama seja mais seguido que o papa Francisco, com menos tempo na rede, mas depõe um bocado contra a teoria evolucionista constatar que até Ivete Sangalo, Danilo Gentili e Luciano Huck superam o Sumo Pontífice em seguidores.

Ao redefinir a esfera pública, abrindo espaço para comunidades tradicionalmente marginalizadas e sem representação e possibilitando o compartilhamento de interesses e desejos em escala global, o Twitter, assim como o Facebook, fez uma revolução comparável ao Google. Com alcance limitado. Não foram as redes sociais que motivaram a Primavera Árabe. Elas apenas lubrificaram o levante, precipitaram os acontecimentos, permitindo que as pessoas se organizassem com mais rapidez e eficácia, mediante contatos de difícil controle pelos serviços de segurança.

O Twitter teve papel fundamental em outros movimentos como o #BlackLivesMatter e #OscarSoWhite, ambos antirracistas, e #12DaysOfRage, através do qual Margaret Cho ajudou dezenas de vítimas de estupro e agressão sexual. Atualmente, além de facilitar o trabalho das autoridades policiais, para o bem e para o mal, da investigação de ações criminosas à repressão ao ativismo político, presta ajuda à ciência, à medicina, à saúde pública e à economia, rastreando vírus, alimentos contaminados em restaurantes, monitorando o comportamento de investidores da Bolsa, avaliando o estado emocional de uma comunidade.

Sim, é um elemento de distração, incentiva a procrastinação, e pode tornar-se um vício compulsivo, como tantos outros playgrounds da internet. Em sua pior encarnação, soa como uma câmera de eco do que o jornalismo tem de mais nefasto. O astrofísico Neil deGrasse custou a vencer sua resistência “àquela pura perda de tempo”, até aprender a usá-la para “compartilhar observações cotidianas sobre o universo”.

Com 143 mil seguidores, Joyce Carol Oates, que nem de longe é a escritora com o maior volume de seguidores (a canadense Margaret Atwood tem pouco mais de 1 milhão), sempre encontra tempo para opinar e dar palpites no Twitter, sem prejuízo de sua fecunda produtividade literária. Para ela, o irmão caçula do Facebook cumpre uma missão social sem paralelos na era digital: “Se há décadas já tivéssemos um equivalente ao Twitter, todos aqueles crimes contra negros, minorias étnicas, mulheres e crianças, todos aqueles linchamentos não cobertos pela imprensa da época não teriam sido escondidos dos olhos da multidão”.

O Twitter


completou 10 anos com 320 milhões de usuários e


dificuldades para voltar a crescer. A


empresa não gera lucro e o número de


contas ativas estagnou. A aposta agora


é ser mais


plataforma de


conteúdo do que rede


social.

MARÇO

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