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Os dilemas éticos do novo livro de Gay Talese, sobre dono de hotel que espiona sexo dos hóspedes

Em obra sobre dono de hotel que espiona a vida sexual dos hóspedes, o célebre jornalistanorte-americano Gay Talese se indaga: “Eu me tornei cúmplice de um projeto repugnante?” Ou a repulsa deve ser do personagem, mentiroso compulsivo que vê no voyeurismo "um estado natural do homem"?

Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2016 | 16h00

Somos a primeira civilização que pode julgar-se autorizada por seus aparelhos a acreditar em seus olhos.

(REGIS DEBRAY, TRECHO DE VIDA E MORTE DA IMAGEM)

“O voyeurismo é um estado natural de ser”, declara Gerald Foos. “Esse desejo está presente em todos os homens.” Ele entende do assunto. Casado, pai de dois filhos, é um praticante do esporte, um fanático, um viciado, a ponto de ter comprado um hotel inteiro só para si – e, nesse hotel, realizou sem restrições o seu “desejo natural”. Seus fregueses eram suas presas. Foos abriu pequenas frestas de ventilação no teto dos quartos e, através delas, dedicou horas seguidas, dias seguidos, anos seguidos, a espiar as intimidades sexuais dos hóspedes. Deitado no forro, ouviu as conversas, respirou os cheiros e contemplou os corpos que se contorciam dois metros abaixo de seus olhos. Às vezes se masturbava durante o espetáculo. Outras vezes, não. Depois, ou mesmo durante, escrevia relatos caprichados. E não só. Com base nas notas que tomava, tabulava estatísticas, fazia classificações, registrava as mudanças que, de um ano para outro, verificava nos padrões das conjunções carnais. Mais lesbianismo aqui. Mais relações “inter-raciais” lá. O sexo grupal se alastrou por isso e mais aquilo. O incesto mais comum é entre irmãos.

Sim, estamos falando de um tipo deveras esquisito, talvez repulsivo, e nada crível. Tão improvável que, mesmo como personagem de ficção, seria pouco plausível. Há voyeurs mais convincentes na literatura e no cinema. As plateias brasileiras viram, lá se vão mais de 20 anos, o thriller Invasão de Privacidade (filme de 1993, dirigido por Phillip Noyce, baseado no romance homônimo de Joe Eszterhas). William Baldwin interpreta o dono de um prédio residencial que mandou instalar câmeras ocultas em todos os apartamentos. Era um alucinado, por certo, mas conseguia despertar a cumplicidade do público, ao menos em parte. No pôster do filme, uma frase promocional – “You like to watch” (“Você gosta de olhar”) – interpelava o espectador como quem dizia “Eu sei o que você adora, pode confessar”. Também no pôster, o voyeurismo era anunciado como uma paixão “natural”, muito embora inconfessável.

Voltando a Gerald Foos, ele é menos provável, bem menos provável que o vilão carismático de Invasão de Privacidade. Ninguém embarcaria numa trama fictícia que trouxesse Gerald Foos como protagonista. Sua falta de charme desencoraja qualquer identificação. Ele usa bigode, óculos de aros metálicos e, na reta dos 30 para os 40 anos, carrega uma pança rechonchuda. Seu maior problema é o caráter, que tem um pé em cada canoa, e sua personalidade discrepante, suas pulsões meio estrábicas, divergentes, tão antagônicas ficam inverossímeis. Ao mesmo tempo em que viola as regras mais básicas da convivência em comunidade com seus olhos criminosos, escreve relatos politicamente corretos sobre homossexualidade feminina (“os únicos casais que parecem gostar de agradar um ao outro na cama e ter a paciência e o desejo de dar orgasmos uns aos outros são compostos por lésbicas”), enuncia conselhos conjugais sobre quem não investe nas preliminares (“é provável que o casal venha a ficar para sempre entrincheirado nessa confusão e ignorância”) e chega a ser moralista quando amaldiçoa a televisão (“nós nos tornamos um país de maníacos por TV e dependemos desse meio para suprir todas as nossas necessidades emocionais”). Você pode argumentar que todo ser humano é contraditório ou mesmo “complexo”, para usar a palavra curinga, mas, em Gerald Foos, pode apostar, as contradições e as complexidades só o tornam inconsistente e sem graça. Se ele fosse um personagem literário, não pararia de pé.

Acontece que ele não é. Gerald Foos existe, em carne e osso, com suas manias constrangedoras e suas filosofias sobre “o voyeurismo como um estado natural”. Existe e tem testemunhas. O jornalista americano Gay Talese, autor de reportagens e livros que se tornaram clássicos (Frank Sinatra está Resfriado e O Reino e o Poder, para ficarmos em apenas dois), um autor cuja credibilidade e cujo talento lhe rendem copiosos milhões de dólares, garante que conheceu Gerald Foos pessoalmente, que subiu com ele ao teto de seu motel em Aurora e que, agachado lá em cima, meio de joelhos, meio de quatro, viu um casal praticando aqueles contorcionismos a que as pessoas se entregam quando acreditam que estão a sós. Pior que isso: Gay Talese confessa que acreditou nas histórias de seu entrevistado, de quem leu todas as anotações, tanto que publicou um livro inteiro com a história dele.

O Voyeur, lançado há três meses nos Estados Unidos, está chegando agora às livrarias brasileiras – e mais não conto porque, se você leu esta resenha até aqui, é candidatíssimo a ler o livro, e eu é que não vou estragar as (muitas) surpresas.

É bem verdade que o próprio Talese, do alto de sua tarimba consagrada, ficou em dúvida muitas vezes sobre as inconsistências de Foos. “Um homem desse tipo poderia ser uma fonte confiável?”, pensou Talese em janeiro de 1980, pouco depois de ler uma carta que recebera do sujeito, apresentando-se candidamente como um voyeur. Informado de que Talese preparava um livro sobre a sexualidade nos Estados Unidos, A mulher do Próximo, Gerald Foos achou que o famoso jornalista poderia se interessar por suas aventuras secretas. Isso mesmo, secretas – embora tivesse mandado uma carta revelando seu segredo ao repórter, o voyeur do Colorado não queria se expor publicamente. Tinha planos de tornar a sua história conhecida, mas com uma condição: a sua própria identidade nunca poderia ser aberta. Como Talese se recusa a escrever reportagens com nomes falsos, os planos do dono do motel tiveram de esperar. O livro só começou a ser feito quando, muito tempo depois, Foos mudou de ideia e aceitou ser nomeado.

Entre 1980 e 2016, muitas cartas e entrevistas se sucederam entre os dois. Gay Talese sempre manteve um pé atrás. Não aprovava o vício do outro. E também não acreditava muito nele. Lá pelas tantas, o jornalista se pergunta: “Eu me tornara cúmplice do seu estranho e repugnante projeto?” Mais adiante, chama seu personagem de “um mestre da enganação”.

Em mais de uma passagem, o autor expõe suas hesitações. “Ao longo das décadas decorridas desde que nos conhecemos, em 1980, eu notara várias inconsistências em sua história: por exemplo, as primeiras anotações no ‘Diário do Voyeur’ estão datadas de 1966, mas a escritura de venda do [HOTEL]Manor House, que obtive recentemente do secretário do Condado de Arapahoe e do Registro de Imóveis, mostra que ele comprou o motel em 1969. E há outras datas em suas notas e diários que não batem. Não tenho nenhuma dúvida de que Foos era um voyeur épico, mas às vezes podia ser um narrador impreciso e não confiável. Não posso garantir a autenticidade de todos os detalhes que ele narra em seu manuscrito.”

Para complicar um pouco mais a aflição do repórter, veio um aborrecimento adicional. O Voyeur já era um dos lançamentos mais esperados do ano. Em abril, a revista The New Yorker publicou um excerto em primeira mão, preparando o lançamento agendado para o dia 12 de julho. Então, duas semanas antes de o livro chegar às livrarias, um artigo do Washington Post contou que Gerald Foos vendera seu hotel em 1980 – e uma das cenas de voyeurismo registrada no livro é posterior a essa data. A notícia abalou a já rarefeita confiabilidade do personagem. Gay Talese deixou escapar que não participaria dos eventos de promoção da obra e o clima pesou.

Depois, mais calmo, Talese encarou normalmente o seu road show, disse que, se necessário, corrigirá “alguns detalhes nas próximas edições”. A polêmica esfriou e tinha mesmo que esfriar. Obras de autores célebres como Richard Kapuscinski e Truman Capote sofrem até hoje contestações bem mais graves e nem por isso perdem a vitalidade. O detalhe da data da venda do motel, ainda que seja chato a não mais poder, não fere o nervo de O Voyeur.

O protagonista mente, sim, mas sua enganação maior não está na cronologia. As maiores mentiras estão em seus relatos escritos, fartamente reproduzidos no livro. Ele mente em seus juízos de valor moralistas, em suas justificativas opacas, e também mente no seu modo de escrever com alguma concatenação (Talese não conta como seu personagem aprendeu a escrever daquele modo) e sem nenhum pensamento que preste.

Sua grande mentira é ver no voyeurismo um “estado natural”, uma pulsão da natureza, e não uma afecção da civilização do olhar, em que as imagens respondem pelo estatuto mais alto da verdade. Ora, acreditar no que vemos é acreditar em mentiras, como Platão tentou ensinar com o seu mito da caverna. Se Gerald Foos mente para todos nós – e não há dúvida de que ele mente, e muito –, isso não o faz menos verdadeiro como o sintoma acabado de uma civilização inteira que se sente autorizada a acreditar em seus olhos, certa de que o nervo óptico seria o caminho da verdade.

Gerald Foos é improvável. Impossível. Se você não acredita, terá de ler para crer. Ele é tão fanático que escreve em seu diário: “A única maneira de nossa sociedade alcançar a estabilidade sexual e a saúde mental adequadas, que são requisitos incontestáveis para a maturidade, é saber a verdade sobre o que as pessoas estão de fato fazendo na privacidade de seus quartos”. É claro que não conheceu Nelson Rodrigues, que ensinou o contrário: “Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentava ninguém”. O voyeur de Aurora não entendeu que, sem uma folha de parreira para cobrir suas vergonhas, não haveria humanidade. Ele, como tantos outros, segue prisioneiro do poder de seus olhos, sem enxergar um palmo abaixo do teto em que se deita de bruços.

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