Julio Maria
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Os filhos da garapa, dez anos depois

As três famílias que aparecem no documentário de José Padilha ainda vivem na extrema miséria de um Brasil esquecido

Julio Maria / ENVIADO ESPECIAL A FORTALEZA E CHORÓ (CE), O Estado de S.Paulo

21 Maio 2016 | 12h24

A vida de Vitória passa toda em preto e branco, como os seus sonhos e os seus pesadelos. Ela tem 12 anos de idade, é doce, articulada, investiga o mundo antes de falar e possui uma sensibilidade capaz de banhar o inferno com poesia. Seus olhos guardam medo, um pavor daqueles de fazer mexer as paredes de casa e conectar os vivos com os mortos. O último que apareceu ela não sabia bem se estava vivo ou morto. Apenas sentiu que não estava bem. Era seu pai. No momento em que estou falando com Lúcia, a mãe, ela me chama de lado com educação para contar uma história que parecia querer estourar o peito para sair de lá.

A noite começa cedo na favela do Patativa, subúrbio de Fortaleza, Ceará. Um pouco depois da luz partir e deixar os becos à sorte das lamparinas, por volta das 19h, Vitória sentiu os joelhos querendo dobrar. Ela foi ao canto do quarto, ajoelhou-se, ergueu as mãos e rezou de um jeito diferente. Sem saber o motivo, usou com Deus a frase que anuncia as tragédias: “Oh, meu Senhor, por que me abandonastes?” Quando voltou a si, a vizinha chegou com a notícia. Seu pai, Flávio, estava morto. Uma morte que há anos o esperava na esquina. Flávio era daqueles homens que ou nasceram embriagados ou desistiram da sobriedade por ser ela prejudicial à saúde. Na tarde em que sua filha sentia todo o medo que poderia suportar, ele tomou suas cachaças e se jogou embaixo de um caminhão. Ninguém da família jamais viu o corpo.

“Nós bebe demais, nós bebe igual americano, igual inglês. Nós bebe demais”, dizia Flávio, orgulhoso, sabendo que estava sendo filmado pelas câmeras de José Padilha. Seu sorriso saía sem controle e sua expressão alternava o ódio e a pureza em segundos. Ele ameaçava matar a mulher, dizia que o pai morreu assassinado, brincava carinhoso com a filha mais nova, paquerava a vizinha enquanto a esposa buscava comida com amigos e mostrava para o cinegrafista as marcas de tiros que supostamente havia levado. Vivia em um mundo cambaleante que não duraria muito para desaparecer. A profecia é feita, cinco anos depois de Flávio e sua família aparecerem em preto e branco no documentário Garapa, de Padilha.

Garapa é o leite de quem não tem. Uma água levada ao fogão de barro logo pela manhã, quando as crianças sentem a dor da primeira fome. Água morna, adoçada com açúcar, o mel que as deixará vivas por mais um dia. Há dez anos, Padilha e sua equipe começaram a colocar suas câmeras nas casas de três famílias que resistiam nas situações da miséria mais aguda que um brasileiro pode suportar. A família de Flávio foi uma delas. As outras ficam a quatro horas de viagem de Fortaleza, na cidade de Choró. O interior do interior que, quando parece perto, é preciso andar mais um pouco. Casas que existem como demarcações de terra, não como lar. Homens que vivem o papel de protetores, não o de pais. Mulheres que determinam as leis da sobrevivência fora dos padrões estabelecidos da maternidade e crianças que brincam dentro dos padrões estabelecidos da infância como se nada fosse tão importante assim. Até que a dor se aproxime.

Há um silêncio de um século quando se está ao lado de Luiz Jerônimo, o mesmo silêncio que tortura no filme de Padilha. O que há dentro daquele homem que olha tanto para a rua em direção a algum ponto no infinito das terras de Choró? Luiz, dez anos depois, não traiu o roteiro. Está mais magro, mais calado, com veios no rosto que poderiam correr um rio. Sem trabalho, faz as vontades da mulher por ele mesmo não ter mais nenhuma vontade. É um corpo esvaziado de autoridade diante dos 15 filhos, que só não está morto graças à fé que tira debaixo do chão. “Deus dá”, ele diz no filme de Padilha. “Deus dá”, ele diz, dez anos depois.

Sua mulher é Robertina. Quem a conhece hoje pode colocá-la no banco dos réus. Quem a viu criança, a chama de milagre. Sua mãe vendeu o que tinha e não tinha para saciar a sede do álcool. Outra filha da garapa destilada que deixava as crias sob os cuidados da natureza e sumia no mundo. O pai de Robertina tentava retomar o controle e a condição perdida de homem batendo nos filhos com lascas de pneu. Sem saber ler ou escrever, sem contato com arte alguma que talhasse as pedras, ela endureceu. Robertina, que aparece com um riso grande e fácil no filme de Padilha, tem hoje a morte nos olhos. Em um dia de fúria, espancou o jumento da família até o animal desfalecer. Tragédia maior se deu com três de seus filhos, que assassinaram um rapaz na vizinhança sem motivo aparente. Dois dos meninos estão presos, um desapareceu.

Mas algo não a deixa soltar o reio. “Quero para os meus filhos o estudo que eu não tive.” A família não tem luz em casa, ilumina as noites com três lamparinas, mas vive em frente a uma das escolas municipais de Choró. Um luxo. Se não fosse por isso, comeriam uma vez ao dia em vez das três que a merenda garante. Quando pensam em escola, os filhos e as mães da garapa não imaginam necessariamente educação. “Meus amigos estão lá”, diz um dos mais velhos de Robertina. “É lá que eu me sinto segura”, havia dito Vitória, em Fortaleza. “Se eles não estiverem na escola, não podemos receber o Bolsa Família”, diz Robertina.

As três famílias da garapa recebem quantias do programa Bolsa Família. Os anos que se passaram desde o filme até hoje compreendem o tempo desde que o projeto começou a ser praticado em larga escala, a partir de 2004, no governo Lula. Além de erradicar a fome, sua proposta, por estatuto, era “quebrar o ciclo geracional da pobreza a curto e a longo prazo através de transferências condicionadas de renda”.

Ao menos para as crias da garapa, o ciclo não foi quebrado. O dinheiro que chega garante a comida de um ou dois itens para, em média, duas refeições diárias. Benedita e suas seis crianças catavam feijão de corda no dia em que a reportagem chegou. Era o cardápio do dia. Lúcia abriu duas panelas sobre a mesa. Havia arroz e macarrão para as filhas e os dois netos. Ela consegue R$ 450 graças à Vitória, única que permanece na escola. “As outras tiveram de parar de estudar para trabalhar”, diz. Flaviana, 15 anos, uma das garotinhas com pouco mais de seis anos no filme, já é mãe de Deisiane, de um ano e 4 meses. Fabiana, 18 anos, que é mostrada ajudando a mãe, tem Pedro Iago, de 9 meses. Lúcia trabalha como cuidadora de idosos.

Os homens se mostram em algum grau aprisionados à ideia do “Deus dá”. Luiz, de Robertina, vê a chegada da verba como a cota dos céus, como se ela ratificasse sua crença na intervenção divina sempre que as paredes do estômago colarem umas às outras. E assim foi por dez anos, crente na fé e na bolsa. Enquanto viveu, Flávio não usou só o dinheiro do governo para saciar-se no álcool. Ele também vendeu quase tudo o que a família recebeu de doações. 

Duas Beneditas dividem o mesmo terreno na área rural mais afastada de Choró. Uma é calada, a outra é falante. Benedita Clara teve mais três filhos desde que o filme foi lançado, em 2009. Ganha R$ 540 de bolsa por seis meninos matriculados no ensino básico. Suas refeições podem ser consideradas na vizinhança como mais generosas. Arroz, feijão e toicinho três vezes ao dia. Antonio, seu marido, tem emprego quando “Deus manda”. Limpa matos e colhe milho. Um de seus filhos, Ronaldo, 16 anos, aparece com sete chorando de dor de dente no documentário, sanada apenas por um analgésico dado pelo próprio Padilha. 

A outra Benedita é aguerrida. Depois do filme, resolveu ir “buscar seu sonho” em São Paulo com o marido e seis filhos. Chegaram dispostos a deixar a fome para trás. Ela fazia sacolas, ele vendia Danone. De Guarulhos foram para Diadema, mas sentiram logo o peso de um mundo que não lhes pertencia. Nem a garapa poderia ser pior. Benedita jogou a toalha, fez as malas e regressou com todos para Choró. Ao lado da amiga, decidiu erguer uma casa. Colheu madeira com as filhas maiores, preparou o barro e ajeitou o terreno. Em 30 dias, sua morada estava de pé. É lá onde vive hoje com o marido, seis filhas e um novo integrante que está a caminho. Se for menino, vai se chamar Adeilson. Se for mulher, Juciele.

As casas das Beneditas, como as de Lúcia e Robertina, não contam com TV, geladeira, mesa, sofá ou cadeira. As crianças chegam a dormir em duplas nas redes espalhadas em um cômodo único. Não há banheiro e não basta ter energia elétrica. É preciso ter lâmpada. “Vamos ter de arrumar uma pra cá”, diz a Benedita mais calada. Crianças e adultos, em uma atitude que confunde miséria com traço cultural, comem sobre panos colocados no chão. O “Deus dá” de Luiz e Alberto se faz presente em um outro detalhe: cada família contou que recebe uma ajuda de R$ 150 do diretor José Padilha. É a esse valor que creditam o fato de suas vidas estarem melhor. Agora, a garapa não existe mais. Elas já podem comprar leite. 

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