Vincent Tullo/The New York Times
Vincent Tullo/The New York Times

Os voos da arte do Oriente Médio em tempos de construção de muros

Exposição destaca artistas árabes que retratam a Primavera e outros momentos políticos da região

Holland Cotter, The New York Times

29 Julho 2017 | 16h00

Forjada no Ocidente, a expressão “Oriente Médio” é uma conveniência cartográfica, um slogan promocional e um instrumento de poder. Em termos políticos, reduz populações complexas a uma massa controlável de aliados e adventícios. Em termos culturais, empacota diversidade para vendê-la com desconto. Nas últimas duas décadas, a “arte do Oriente Médio” se tornou uma marca famosa no varejo global.

Rótulos e marcas são um problema para os artistas. Podem converter etnia em destino e impor um limite à liberdade criativa. Ao mesmo tempo, a arte que emerge de uma cultura específica pode ser extremamente valiosa, gerando saber onde havia ignorância. Em tempos de construção de muros, precisamos que a arte nos dê o máximo de conhecimento possível sobre um mundo maior – incluindo o “Oriente Médio”.

Essa parece ser a ideia por trás da exposição coletiva No to the Invasion: Breakdowns and Side Effects [algo como “Não à invasão: colapsos e efeitos colaterais”] do Centro de Estudos Curatoriais do Bard College. Os 29 artistas estão ligados, por nascimento ou descendência, a essa área geográfica chamada (ainda que incorretamente) de Oriente Médio ou “mundo árabe”. Toda a arte vem de uma única fonte, a Fundação Barjeel Art, sediada em Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos.

A fundação foi criada pelo sultão Sooud al-Qassemi, investidor e comentarista político emiradense, e zela por sua coleção pessoal. A partir desse acervo, Fawz Kabra, organizador da exposição, escolheu cerca de 40 obras que datam de 1990 até os dias de hoje.

A data de início é importante. Em 1990, os anos triunfantes e utópicos do Pan-arabismo pós-colonial – quando um “mundo árabe” unido ainda parecia possível – tinham ficado para trás. Os conflitos políticos eram constantes. Enquanto o ano de 1990 testemunhava o fim da década e meia de guerra civil que dilacerara o Líbano, assistia também à invasão iraquiana do Kuwait, o começo da primeira guerra do golfo.

Mas, se a exposição se coloca no limiar de uma era espetacularmente tumultuosa, ela o faz por meio de uma arte bastante discreta, de trabalhos cujos efeitos estão mais na entrega de informações que no ímpeto visual. Isso acontece desde a peça mais antiga, uma linoleogravura de tamanho modesto da artista kuwaitiana Thuraya al-Baqsami. Feita inteiramente em azul e branco, mostra a imagem áspera de dois rostos tensos e alertas, um masculino, outro feminino. Abaixo, uma frase em árabe diz: “Não à invasão”.

A história da peça é precisa. Al-Baqsami fez a gravura original em 5 de agosto de 1990, três dias depois de o exército de Saddam Hussein entrar no Kuwait. Ela queria que fosse um cartaz de protesto, um punho em riste, e por um breve período a imagem foi vastamente reproduzida e distribuída por toda a cidade do Kuwait. Mas logo depois o exército iraquiano começou a executar manifestantes na rua. A produção dos cartazes se interrompeu. A artista teve de esconder o original.

Para entender tudo isso, a história completa do que você está olhando, é preciso dedicar algum um tempo à leitura das legendas da exposição. Uma vez lidas as plaquinhas, as obras ganham tons mais vívidos, visual e conceitualmente. Isso vale para quase tudo na mostra. Você pode apreciar os pequenos desenhos de Khaldoun Chichakli só por serem trabalhos lindos. Mas eles assumem um traço mais incisivo quando você descobre que foram feitos na época em que o artista estava morando na Europa, no início de 1979, com saudade de sua terra natal Damasco, na Síria. Ele revisita a cidade nos desenhos, fachada a fachada, vitrine a vitrine, mesmo que a urbanização e, depois, a guerra já estivessem cobrando seu preço.

O filtro da memória dá aos desenhos de Chichakli cores de contos de fadas, imagens de um mundo que não admite distúrbios. Essa espécie de inocência programada foi característica comum do modernismo em todos os lugares, inclusive no Oriente Médio. Tal espírito, enterrado e esquecido debaixo de histórias mais sombrias, reviveu na instalação de dois artistas de Beirute, Joana Hadjithomas e Khalil Joreige, que abordam a Sociedade Libanesa do Foguete, um projeto escolar de ciências que nos anos 1960 foi declarado – que conceito! – programa espacial oficial do Líbano e homenageado com selo postal comemorativo e estampas de tapetes.

A instalação de Marwa Arsanios – nascida nos EUA, moradora de Beirute – olha para outra fantasia modernista da era espacial – mas uma fantasia que se desenredou. Com materiais de arquivo e um modelo arquitetônico, Arsanios revisita um chalé de praia em forma de disco voador de um resort de luxo em Beirute. A partir de fotografias e filmes caseiros, conhecemos seus ricos proprietários originais, bronzeados, sorridentes, descansando em volta da construção. Nas fotos recentes, vemos o chalé mais uma vez: o antigo projeto alienígena está mais ou menos intacto, mas agora a casa abriga quatro famílias amontoadas, refugiados do sul do Líbano.

O trabalho de Arsanios se equilibra em uma linha tênue entre passado e presente. A obra de outros artistas põe os dois pés no agora – ou no quase agora. Uma prateleira com pequenas peças de cerâmica pintadas por Moataz Nasr, do Cairo, retrata os participantes das manifestações de 2012 na Praça Tahrir em detalhes fotográficos. As múltiplas imagens da serigrafia do artista libanês Ali Cherri são uma sequência de instantâneos de um corpo que arde feito uma tocha. No contexto dessa exposição ciente da própria história, o trabalho evoca de imediato a memória de Mohamed Bouazizi, vendedor ambulante tunisiano cuja autoimolação, em 2010, detonou uma revolução e a subsequente – e contínua – Primavera Árabe.

Vale a pena demorar um segundo a mais em uma exposição paralela, chamada No to the Invasion: The Archive [Em tradução livre, “Não à invasão: O Arquivo”], organizada por Fawz Kabra e Tarek El-Ariss, professor de estudos do Oriente Médio no Dartmouth College. A incrível variedade de revistas, romances, desenhos animados e clipes de filmes por eles reunida ilustra um tema: traçada nas imagens populares do último meio século, a passagem gradual daquilo que eles chamam de “corpo árabe” da totalidade à fragmentação. A evidência mais recente é uma série de selfies em close-up de feridas do jornalista egípcio Wael Abbas e de ativistas de direitos humanos em confrontos com a polícia. / Tradução de Renato Prelorentzou

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