Padrão Pirro

Didi contava com Bellini, não com Mantega; Mercadantes, Serras e Marinas imaginam-se Pelés e Garrinchas, mas não chegam a Fred

Carlos Melo, O Estado de S. Paulo

28 Junho 2014 | 16h00

Sabe-se lá quem nasceu primeiro: o futebol ou a política. O certo é que a metáfora os uniu. No Brasil, a bola descomplica, é alegoria da vida. Sua graça e sua agonia imitam a realidade, que copia a arte de dribles e xingos. Heróis dos gramados substituem os heróis que a história não pariu. Como na Copa que corre, no campeonato das urnas o tempo passa. Foi-se a fase de grupos, convenções partidárias dão início ao mata-mata.

O times-partidos tentam, mas a safra é extraordinariamente ruim, sem revelações ou destaques - seus craques moram no passado. Abundam falsas promessas, protegidos de empresários e da diretoria. Beques de fazenda e meios de campo de pebolim movem-se de lado. Times de “catados” nos currais do país, donos da bola, doadores de uniforme garantem lugar no time. Nessa seleção adversa, só pereba se prontifica. Não há destaque, juvenil que escape. Nem a exaustão purifica: sai Sarney, Renan fica, entra Eduardo Cunha.

Pastiche monótono: o PTB troca de hino, renega o leito, cospe no prato. À espera de outros resultados, o PSD fez cera para entrar em campo. PR e PP aumentam o valor do passe. Por um bom contrato, aceitam o banco. O PMDB é o clube da federação, joga para a torcida de cada arena. A vitória no nacional aglutinará a fragmentação tanto quanto títulos estaduais resgatarão de fracasso no brasileirão. Joga-se com o regimento.

Uma miríade de partidos, 32, como os times na Copa. O campeonato, porém, é menos organizado. Regras mudam e alteram o placar; parcerias e patrocinadores, também. O padrão Fifa nem é grande coisa, mas vício que consome reside ainda no estilo Teixeira, Marin, Del Nero. Soma zero. O País precisa mesmo da Copa para não morrer de verdade, diria Nietzsche se brasileiro fosse.

A analogia política & futebol se faz assim: mesmo os favoritos, de maior arrecadação e torcida, dão espetáculo sofrível, jogam esquemas antigos. O PT se crê Hungria 1954, é dependente de seu Puskas (da Silva), mas, qual camaroneses, troca sopapos em público e com portões fechados. O PSDB - essa incompreendida França, sem Zidane ou Platini -, depois da fase Ribéry, arrisca com o neto de Fontaine. Mas, tanto quanto Benzema, Aécio Neves terá que se provar. Terceira via com ares de Espanha, o PSB dormiu na Copa passada e acordou no pesadelo desta. Quer se diferenciar, mas erra passes, tabela com inimigos. Ser “sub-Aécio” não deu camisa a Eduardo Campos.

Sobram telões nos estádios, mas falta a personalidade e a fagulha do craque Cristiano. Não há combustão, não há Messi nem há Neymar. Tangencia-se o limitado Hulk, sem sua musculatura, esforço ou explosão. Cheios de firula, armandinhos constroem a eliminação.

A Copa das Copas surpreende, é melancólico voltar ao passado. Mas o fato é que falta um Didi Folha-Seca. Recordar é viver: oito anos após a derrota de 1950, o silêncio do Maracanazo agredia ouvidos e gelava o coração. Na final do Mundial da Suécia (1958), o clima era de insegurança e medo - como agora, uma atmosfera de mal-estar. Pois foi assim que a seleção, abraçada ao mau agouro, entrou em campo em busca do título inédito contra os donos da casa.

A adversidade revela gigantes. Didi foi um desses. Aos 5 minutos e 30 de jogo, os suecos abrem o placar. Não poderia ser pior, a profecia se realizava. Camisa 8 “na cor do manto de Nossa Senhora”, o meio de campo do Botafogo foi ao gol do Brasil e tomou a bola das mãos de Bellini. Não deu chutão. Caminhou lentamente ao meio de campo, acalmou companheiros, reorganizou o time. Brasil 5 x Suécia 2. Xô, complexo de vira-lata! Completado também pela bossa nova, um novo ciclo foi inaugurado.

Sorte? Nem um pouco. Havia time. Didi apanhou a bola das mãos de Bellini. Dilma, tivesse cacoete para isso, precisaria reformar um governo feito à sua imagem e semelhança. Quem vier a suceder a ela - Aécio, Eduardo, Lula ou a Dilma da Mudança - não pegará uma bola redonda. Dilma não é Bellini. E ninguém tem vocação para Didi.

Além de Bellini, Didi contava com Gilmar dos Santos Neves, não com Guido Mantega. Na direita, enxergava Djalma. Na esquerda, Nilton, a “enciclopédia”. Dilma (ou Lula) se resigna com Maluf e Rui Falcão; Aécio, com Jefferson e Paulinho da Força; Campos, com Bornhausen e Márcio França. Não há margem de comparação.

No meio, Didi tocava para Zito; Dilma (ou Lula), para Ricardo Berzoini; Aécio, para Álvaro Dias; Campos, para Roberto Amaral. No ataque, Didi dispunha de um Olimpo: Pelé e Garrincha. Os atuais postulantes patinam no Hades. Centroavantes, Mercadantes, Serras e Marinas imaginam-se Pelé e Garrincha, juntos. Com boa vontade, não chegam a Fred.

Na arquibancada, torcidas agitadas. Sócrates dizia que “craque é aquele que controla a torcida, sem se influenciar por ela”. Foi o Sócrates que nos coube. Com efeito, a massa carece de quem a conduza. Ressentida, vaia, diz impropérios, não respeita resultados. Estádios modernos não têm alambrado, redes sociais não seguram nem protegem. Virtuais, aguçam o conflito real. Quem salvará o torcedor de si mesmo, antes que sua avalanche embrutecida desça às arenas? Na Copa das urnas, é preciso saber evitar vitórias de pirro.

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Carlos Melo é cientista político

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