Paisagem fantástica

Há paisagens que se apresentam prontas, e outras que são vivenciadas para existirem. O artista Rodrigo Braga percorre esses sentidos para esmiuçar sua fotografia de modo imersivo, como um estudioso dedicado que passa a ter procedimentos de pesquisa para enxergar melhor seu objeto. Até o dia 30 de novembro, é possível caminhar pela produção dos últimos cinco anos desse amazonense de 38 anos na exposição Agricultura da Imagem, no Sesc Belenzinho, São Paulo.

Georgia Quintas, O Estado de S. Paulo

01 Novembro 2014 | 16h00

Braga trabalha profundamente a fotografia como registro de uma cartografia orgânica possível sobre a natureza. Estar inserido no meio natural, longe da cidade, em contato com elementos distantes do humano, próximo de características da fauna, da flora e de uma geografia de isolamento, faz parte da pesquisa fotográfica de Braga ao longo de uma trajetória poética. Diz o artista: “Quando estamos sozinhos e sem agenda, formulamos novas impressões sobre o tempo. Mais radicalmente, quando estamos sozinhos na linha do horizonte, passamos a nos relacionar de outra maneira com o espaço”. Em Agricultura da Imagem, o artista explorou o Rio Negro, o litoral de Pernambuco e os cursos d’água do bairro da Tijuca, no Rio.

Para Braga, suas imagens são ficções. Elas partem de uma tensão relacional entre o olhar - que identifica elementos naturais - e a possibilidade de reverter o estado das coisas para entendê-las por uma outra maneira: pelo limiar do improvável, do fantástico e do encantado. Constrói, em cada fotografia, sem necessariamente precisar de uma narração que envolva outras imagens, certo inventário sobre o lugar das coisas. Propõe assim o sentido que cada organismo representa ao se unir a novos estados de pertencimento. É nesse ponto que a fotografia de Rodrigo Braga converte a realidade em signo, em algo que é representado pela ideia de desconstruir certezas. Folhas viram peixes, escavações trazem à superfície fósseis vigorosos, em árvores florescem penas, e mais peixes surgem de pequenas ilhas em oceanos de terra.

Braga, filho de biólogo, nascido no Amazonas, com 2 anos foi morar no Recife e desde 2011 radicou-se no Rio. Impregnado de histórias sobre a natureza e instigado pela curiosidade de como os organismos se constituem, ele encara suas viagens como uma espécie de expedição, catalisando objetos, referências, materiais in loco. Faz de seu processo, portanto, uma grande coleção. Traz assim em seu trabalho modos de experimentar o olhar pela busca de uma alteridade junto à paisagem. Não deixa de ser “uma tentativa de me identificar naquilo que está a meu redor, e também perceber como esse entorno reverbera em mim”, como ele reflete.

As sutilezas de seu processo de pesquisa e criação estão organizadas primorosamente na exposição no espaço intitulado Gabinete. Nele, é possível ter contato com desenhos, documentação e objetos que refletem suas observações e memórias. Pequenos indícios que reverberam a sensibilidade de Braga em ativar metáforas. O gabinete, transposto de sua casa, potencializa ainda mais o olhar fértil desse artista que parece apaziguar-se ao sentir a terra em sua fluidez e suas singularidades. A natureza encontrada no gabinete indica a dedicação do fotógrafo por meio de novos territórios, repletos de sensações e estímulos para suas expedições mais interiores e íntimas. Braga persegue suas inquietações diante do mundo, tentando compreender como é pertencer a um lugar ou ser o lugar que cabe em nós. Assim como há muitos peixes em sua obra, ainda há muitos lugares e seres a coletar, investigar e imaginar. Essa é a força de sua fotografia.

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Georgia Quintas é antropóloga, pesquisadora e crítica de fotografia. Autora, entre outros, de Inquietações Fotográficas: narrativas poéticas e crítica visual (Olhavê/Tempo d'Imagem)

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