Dado Galdieri/The New York Times
Dado Galdieri/The New York Times

Paixão e política nos ritmos brasileiros de João Bosco

Músico de 70 anos é atração em outros países e se apresenta em Nova York

James Gavin, The New York Times

13 Maio 2017 | 16h00

Dois séculos dos ritmos de seu país fluem pelos dedos de João Bosco, um dos mais fabulosos violonistas, cantores e compositores do Brasil. Agora, aos 70 anos, ele ainda consegue criar um turbilhão de rapidez e agilidade, viajando por métricas, harmonias e batidas complexas de todo o Brasil.

“João soa como uma orquestra”, disse o guitarrista de jazz Lee Ritenour. “Ele pode estar tocando um ritmo muito complexo no violão, e, ao mesmo tempo, cantando algo completamente diferente.”

Seu virtuosismo fez de Bosco uma atração em lugares onde o português não é falado; de terça-feira a sábado, ele o exibirá na Birdland numa rara apresentação em Nova York. Mas em seu país, seu significado é muito mais profundo.

Nos anos 1970 e início dos 80 quando os brasileiros viviam sob uma ditadura militar repressiva, ele e seu parceiro letrista, Aldir Blanc, animaram seus compatriotas com canções que transmitiam intenso orgulho e espírito de luta. As mensagens eram, com frequência, codificadas para enganar os censores; as melodias e ritmos cadenciados de Bosco faziam cada canção parecer flutuar.

Um dos sambas de sucesso da dupla, Nação, continua vivo como um hino à majestade do Brasil; ele relembra heróis folclóricos, as glórias da natureza, as divindades (orixás) que zelam por todas as coisas, e batalhas vencidas. Por baixo disso tudo está sua execução, com sua pegada roqueira.

Histórias sobre a carreira de Bosco jorraram aos trambolhões enquanto ele conversava por telefone de sua casa no Rio de Janeiro. A despeito de toda sua facilidade para tocar e cantar, ele contou que pratica incansavelmente. “Nunca estudei música formalmente”, explicou Bosco. “Tudo veio de minha percepção intuitiva.”

Em fins dos anos 1960, ele era um estudante de engenharia em seu estado natal, Minas Gerais; fora da escola, ele experimentou com o violão. Bosco era fascinado por Dorival Caymmi, o pai da canção brasileira do século 20, que compunha, tocava violão e cantava como se não fossem coisas separadas. Nesse período, ele absorveu cada ritmo que ouvia, dos sons tribais afro-brasileiros que toavam no rádio à batida diáfana da bossa-nova. Quando o jazz americano foi sendo introduzido aos poucos no Brasil, Bosco descobriu as flexões do tempo do pianista Dave Brubeck.

Em 1970, ele conheceu Blanc, um estudante de psiquiatria e letrista ocasional. Eles começaram a compor juntos enquanto mantinham as respectivas profissões. Dois anos depois, Bosco ouviu uma de suas canções no rádio cantada pela exuberante jovem estrela Elis Regina, que se tornaria sua musa. “Eu sempre sonhei em viver no Rio”, disse ele; aquele momento o convenceu a se mudar para lá e se tornar um músico em tempo integral.

Ele e Blanc se uniram a uma vanguarda de músicos e compositores jovens, cerebrais, socialmente engajados que surgiu no calor da ditadura: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e outros. Tudo que eles compunham tinha que passar pela aprovação de censores. “Eles não tinham nenhum critério para a censura – apenas algumas regras abstratas”, disse Bosco; era preciso ficar reescrevendo e submetendo novamente, “movidos por aquela vontade muito forte de colocar sua ideia em palavras”. E acrescentou: “Às vezes isso nos levava a um nível ainda mais alto de criatividade.” Com frequência, ele disse, “os censores perdiam e a canção ganhava”.

Quatro décadas após a criação de O Bêbado e a Equilibrista, as plateias brasileiras ainda cantam junto com os intérpretes esta obra-prima de Blanc e Bosco. As origens da canção podem ser remontadas ao Natal de 1977, quando Bosco soube da morte de Charles Chaplin e pensou em compor um samba de carnaval em sua homenagem. Ele levou a ideia a Blanc e a imaginação dos dois viajou. Ao recordar a representação de Chaplin de um palhaço bêbado, envelhecido, no filme Luzes da Ribalta, eles ampliaram sua alegoria ao circo político que o Brasil havia se tornado; nas entrelinhas havia um apelo em defesa da volta dos exilados. Elis Regina a interpretou “de maneira tão magistral e comovente”, disse Bosco, que os públicos sabiam o que a canção queria dizer, embora os censores não percebessem.

O impulso para ajudar um país conturbado nunca o abandonou. Alguns anos atrás, ele começou a escrever canções com seu filho, Francisco Bosco, poeta, jornalista e filósofo. Malabaristas do Sinal Vermelho fala de crianças que descem das favelas e abordam motoristas parados em faróis vermelhos. Os jovens fazem malabarismos por moedas; mas por influência de drogas, alguns roubam ou matam. As palavras adotam uma visão compassiva dos párias sociais do Brasil, alguns dos quais podem “cobrar a sua parte” enquanto outros “pagam com suas vidas”. Bosco aprofundou o pathos convidando um coro de crianças da Rocinha, uma das favelas mais problemáticas do Rio, a cantar com ele no disco.

Ele é velho o bastante para ser avô dos garotos, mas seus dedos ainda voam com a mesma destreza. Recentemente, ele disse, “Fui a um terreiro religioso em Salvador, Bahia, e diante dos orixás eu disse a mim mesmo que se um dia eu não puder fazer a música que atenda a meus padrões, eu preferirei me calar”.

Ele tornou a falar de sua reverência pela prática musical. “Eu estudo, me concentro, desisto de uma porção de coisas para conseguir apresentar a música do jeito que ele deve ser apresentada”, ele disse. “A música é tudo para mim. Eu estou vivo porque estou cantando e tocando.”/Tradução de Celso Paciornik

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